''Prefiro Obina ao Plano Cruzado''

Luiz Belluzzo, presidente do Palmeiras, pretende mudar o futebol: quer criar uma liga e um fundo para comprar jogadores

Pedro Venceslau e Sonia Racy, O Estadao de S.Paulo

17 de agosto de 2009 | 00h00

Engana-se quem acha que a vida de Luiz Gonzaga Belluzzo se limita a duas paixões - economia, na qual joga no primeiro time nacional, e futebol. A exemplo de Mário Henrique Simonsen, o presidente do Palmeiras também conhece, e bem, música clássica. "Aprendi com padres jesuítas a ler partituras", conta Belluzzo, que recebeu a coluna em sua casa, numa tarde tranquila - se é que na vida de presidente de um grande clube há tardes tranquilas.Na conversa, revelou que já jogou futebol, sendo um bom centro-avante. "Pelo menos, era o que diziam", recorda. Hoje ele mostra que faz um bom meio de campo. Não é fácil ser amigo e conselheiro de Lula, interlocutor de José Serra, além de ex-professor de Dilma Rousseff. Em tom de brincadeira, desconversa sobre essa delicada situação dizendo que, nas eleições de 2010, vai se mudar para a Noruega - já que não poderá votar duas vezes... Com olhos de economista, além de defender o futebol como política pública, Belluzzo propõe que os clubes sejam transformados em sociedades anônimas, ampliando suas possibilidades e responsabilidades. E mais: quer a criação de uma defesa contra a venda de jogadores para clubes infinitamente mais ricos que os brasileiros. Como? Por meio de um fundo coletivo que pertenceria a uma Liga de Clubes do Brasil, também a ser criada. Pode-se deduzir que seria uma espécie de "Febraban do futebol", que viria acoplada a algo que também existe no mercado financeiro: um fundo garantidor de créditocomo o que hoje "segura" os bancos em horas difíceis.Lula e Ricardo Teixeira, da CBF, combinaram que é preciso mudar o calendário do Brasileirão, coisa que o senhor vem defendendo. Deveria haver também alguma lei impedindo a transferência de jogadores no meio do campeonato? Criar uma lei seria algo complicado, inconstitucional. É preciso, sim, uma mudança na estrutura societária dos clubes. Eles precisam deixar de ser uma sociedade civil sem fins lucrativos, pois essas entidades não podem ser executadas e isso dificulta obter financiamentos. E como evitar as transferências? Poderíamos criar um fundo coletivo para reposição de jogadores, em moldes que permitissem diminuir a defasagem, em termos financeiros, em relação aos clubes europeus. Sou a favor de uma liga como a da Inglaterra. Mas isso tem que passar pelo amadurecimento dos dirigentes. É preciso transferir a responsabilidade da gestão para a liga em vez de deixar tudo nas costas da federação. Outro dia fiquei indignado quando vi na TV o jogo de um torneio de verão entre Milan e LDU (do Equador). Poxa, imagina se fosse Milan vs. Palmeiras ou São Paulo... Os times brasileiros têm mais peso mas não podem excursionar por falta de datas. Perdem receita e exposição.O que acha da CBF? Depois de eleito não falei ainda com o Ricardo Teixeira. Mas me dou bem com ele, sei que ele tem claro que é preciso mudar o calendário do futebol e que apóia a criação de uma liga. O sr. é o único intelectual-cartola do futebol brasileiro. Sente-se um estranho no ninho? Outro dia recebi um telefonema do pessoal da Gazzetta dello Sport perguntando sobre isso. Eles não entendiam como um professor universitário e intelectual virou presidente de time de futebol. Acharam estranho...(risos). Qual a relação entre economia e futebol? O futebol nasce como um fenômeno do século 19.Tem a ver com o estilo de vida moderno, como a economia, mas esta é uma coisa racional. Como é racional a música clássica, de que gosto muito também, pois tem uma estrutura lógica.E entende? Entendo, sei distinguir os autores. Sou sobretudo um beethoveniano.Quando foi que o sr. se apaixonou pelo Palmeiras? A primeira palavra que aprendi com meu pai foi "Palestra". Minhas fotos com três anos sempre têm uma bola. Fui a um estádio pela primeira vez aos cinco anos, em 1947, para ver um Palmeiras vs. São Paulo. Foi 4 a 3 para nós. Na torcida entre Dilma e Serra, em qual arquibancada o sr. ficará? Sou amigo dos dois. Dilma foi minha aluna no mestrado e doutorado. Vou ter é que me mandar para a Noruega... (risos).Ela foi sua aluna naquele doutorado que não terminou... Tem gente dizendo que ela não frequentou as aulas, isso é mentira. Ela foi minha aluna. A não ser que eu tenha visto um ectoplasma...Disseram que o Serra o incumbiu de levantar o currículo dele. Como foi isso? Surgiu uma notícia de que o Serra não tinha graduação em economia, porque saiu daqui no 3º ano da Politécnica e foi para o Chile, no exílio. Mas lá ele foi direto para a pós-graduação em economia. Depois, foi para (a universidade de) Cornell, onde fez doutorado. De volta, foi trabalhar no Instituto de Economia da Unicamp, onde eu dava aula. O governador costuma ligar reclamando do Palmeiras? Ele me liga quase todo dia. Certa vez, num jogo com o Real Potosí, no Palestra, tomamos um gol quando o placar marcava 2 a 0. Tocou o telefone na hora: era ele prestes a embarcar para Europa. "Pô, o Potosí fez um gol. O Palmeiras não pode ganhar só de dois..." Em seguida fizemos 3 a 1, mas ele já estava voando. Quando aterrissou, o jogo tinha acabado em 5 a 1. O sr. é remunerado no Palmeiras? Não, e não acho que devia ser. Mas temos um diretor-financeiro e outro de futebol bem remunerados. O problema é que tudo isso está mergulhado numa estrutura amadora. O futebol é um negócio complicado, não funciona só no racional. Entra um ingrediente extra, o enlouquecimento afetivo das pessoas. Contra isso não há racionalidade que vença.Mas o sr. pode ser responsabilizado por algo que aconteça de errado no clube? Em princípio, sim, mas isso é incorreto. Conversei muito com o Andres (Sanchez, presidente do Corinthians) sobre isso. Não é fácil gerir uma estrutura precária, correr toda hora atrás de dinheiro, sofrer pressão da torcida. O torcedor sempre acha que sabe mais que você.Quanto custa o Palmeiras? Custa R$ 15 milhões (por mês). Recebe R$ 35 milhões pelo Brasileiro, mais R$ 9 milhões pelo Paulista, em direitos de transmissão. E também uma verba de material esportivo, que as empresas fornecem. A mensalidade dos sócios vai para a parte social do clube. Estou empenhado, nunca administrei uma coisa com tanta vontade de dar certo.Nem no governo federal? Quando fui do governo administrei com responsabilidade. Mas tenho que admitir: entre contratar o Obina e fazer o Plano Cruzado, prefiro o Obina (risos). Contratar jogador é uma aposta, se bem que o plano também foi - só que deu errado. Foi feito em circunstâncias complicadas.Já saiu do Conselho da TV Brasil? Ainda não. Preciso falar com o presidente antes. Mas vou sair.Ganhou salário lá? Não.O sr. tem algo contra ganhar salário? (risos) Não. Eu recebo como professor da Faculdade de Campinas e sou aposentado da Unicamp. Dá para viver bem. Direto da fonteSonia RacyColaboraçãoDoris Bicudo doris.bicudo@grupoestado.com.brGabriel Manzano Filho gabriel.manzanofilho@grupoestado.com.brPedro Venceslau pedro.venceslau@grupoestado.com.brMarilia Neustein marilia.neustein@grupoestado.com.br

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