Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Prédio do Masp na Av. Paulista, projetado por Lina Bo Bardi, completa 50 anos

Local já recebeu importantes exposições de arte, mas se destaca também como ponto de encontro e de manifestações políticas

Pedro Rocha, Especial para o Estado

04 Novembro 2018 | 05h00

Foi com a presença ilustre da Rainha Elizabeth II e do Príncipe Philip que o novo prédio do Museu de Arte de São Paulo foi inaugurado, em 7 de novembro de 1968, no coração da Avenida Paulista. O co-fundador do museu, Pietro Maria Bardi, que idealizou a contrução ao lado de Assis Chateaubriand, já falecido à época, acompanhou a visita com Lina Bo Bardi, arquiteta ítalo-brasileira responsável pelo prédio e esposa de Pietro, e do então prefeito da cidade, José Vicente Faria Lima. 

Por lá também estava a pintora nipo-brasileira Tomie Ohtake, que apresentou sua obra, em exposição na abertura do museu, à monarca inglesa. O encontro, registrado numa fotografia, gerou grande orgulho para a artista. “Ela mandou a fotografia para todos os parentes no Japão, que não acreditavam que ela fosse uma pintora conhecida”, conta, aos risos, um dos filhos de Tomie, o arquiteto Ricardo Ohtake, que hoje dirige o Instituto que leva o nome da mãe, em São Paulo. 

Esta é apenas uma das centenas de histórias que o prédio do Masp, na Avenida Paulista, colecionou, ao longo destes 50 últimos anos. Histórias, aliás, que não se resumem apenas ao mundo das artes, ainda que tenha, em sua memória, exposições de nomes grandiosos como Claude Monet e Michelangelo.

Um dos maiores cartões postais de São Paulo, o prédio do Masp se tornou um ponto de encontro, nas palavras do artista Claudio Tozzi, cujo quadro Repressão, de 1968, figura atualmente no Acervo em exposição no segundo andar do museu. “É não apenas um marco da arquitetura, a preservação daquele vão livre fez um ícone de acontecimentos, ponto de muitos encontros.”

A qualquer hora do dia, o Vão Livre do Masp recebe amigos, casais, feirantes, mendigos, poetas, músicos. Nas últimas décadas, ficou marcado por receber manifestações políticas, independentemente de qual seja o ponto de vista. Esquerda, direita ou anárquicos, todos se reúnem lá. Além de museu, por conta do design implantado por Lina Bo Bardi, o edifício do Masp abriga uma praça pública.

Uma “arquitetura democrática”, como define Marcelo Ferraz, arquiteto que trabalhou com Bardi durante muitos anos. “É acessível, convidativo, faz com que as pessoas se sintam donas do lugar.” O curador-chefe do Masp, Tomás Toledo, concorda. “É a vocação do edifício.”

A ousadia de Lina Bo Bardi

A democratização do local vem também de outra ideia de Lina, esta para o espaço expositivo. Grandes áreas abertas fazem com que os quadros saiam das paredes e flutuem em seus cavaletes de vidro, desenvolvidos pela arquiteta, que estavam presentes em 1968 e foram retomados pela atual administração do Masp em 2015.

“Você caminha por dentro das pinturas e o nome do autor da obra não está na frente”, lembra Ferraz. “Na Europa jamais se ousaria assim.” O professor Guilherme Wisnik, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, um dos convidados que estarão num seminário comemorativo dos 50 anos do prédio, nesta segunda-feira, 5, no próprio Masp, explica. “A Lina criou um modo radical; com a legenda no verso, cai a febre do reconhecimento”, esclarece. “A pessoa não vê se o pintor é importante, é um embate entre espectador e obra, sem intermediário.”

A ousadia e dedicação de Lina Bo Bardi para o projeto do Masp vem desde o início. O museu já funcionava desde 1947 num prédio na Rua Sete de Abril, no Centro de São Paulo. Foi brevemente para a Fundação Armando Álvares Penteado na década de 1950. Mas, com um acervo cada vez maior, Pietro Bardi e Assis Chateaubriand decidiram construir uma sede própria. 

O terreno escolhido, doado à prefeitura de São Paulo, era ocupado por um belvedere, projetado por Ramos de Azevedo e demolido em 1951. Lina teve papel fundamental nesse movimento. “Ela articulou a cessão do terreno e participou das negociações”, afirma Toledo, um dos curadores de uma exposição sobre a arquiteta que vai passar pelo Masp e também pelo Museu Jumex, no México, e pelo Museu de Arte Contemporânea de Chicago no ano que vem. “Dentro do contexto temático do ano que vem, achamos por bem fazer uma exposição que mostrasse as diferentes facetas da Lina, arquiteta, design, editora, curadora e educadora.”

Bo Bardi fez outros edifícios icônicos como o Sesc Pompeia, em São Paulo, e o Museu de Arte Moderna da Bahia, mas o prédio do Masp figura entre suas mais grandiosas obras. A ideia do Vão Livre, com vista para a Avenida 9 de Julho, é, talvez, a parte mais marcante da construção, cujo trabalho de engenharia dos pilares de sustentação ficou a cargo do engenheiro José Carlos de Figueiredo Ferraz.

“Aquelas vigas foram uma solução bastante engenhosa, vencer aquele vão exigiu um cálculo especial e um material de resistência, para manter de pé”, opina Ricardo Ohtake. O arquiteto lembra ainda que a tinta vermelha, que tornou o Masp cartão postal de São Paulo, veio muitos anos depois. “Aquela pintura em vermelho é um revestimento, para evitar o desgaste. Lembro que estava caindo poeira das vigas.”

O processo de construção não foi fácil, segundo Marcelo Ferraz. “Foram muitas dificuldades. O projeto começou em 1958, ficou parado entre 1961 e 1965, e teve problemas nas ferragens e vigas”, afirma. “Mas ela levou a ideia de criar um museu de arte contemporânea às últimas consequências. Você consegue ter no local a luz do dia e um espaço de convivência.”

Para o professor Eduardo Rosetti, do departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília, que também estará no seminário de comemoração, o legado e a influência do trabalho de Lina foi para além de São Paulo e do lado arquitetônico. “A experiência do Masp foi para a Bahia. Inventar um museu é construir acervo, mas também pensar no seu funcionamento e no lado pedagógico.”

Depoimentos sobre o Masp

"Você descer para um buraco e encontrar a luz lá embaixo é a genialidade da escolha do lugar de implantação do prédio, que é um exemplo do que deveria ter sido mais seguido na Avenida Paulista, liberar a vista para enxergar longe. Os outros prédios parecem ter um lado mesquinho, de se apropriar do chão”, Marcelo Ferraz.

“O prédio do Masp, na Paulista, com sua beleza arquitetônica, é ponto importante de referência da cidade, onde os brasileiros se juntam e expressam a cidadania. É um museu onde nossa alma pode gozar das atividades ali realizadas e que vem a confirmar o que já sabemos, que a arte sempre foi a expressão maior da humanidade, e que é através do processo criativo que o ser tem a possibilidade de transformar as realidades duras da vida em poesia”, Anna Maria Maiolino.

“O prédio do Masp é um marco na história da arquitetura moderna brasileira. A inovação de Lina Bo Bardi, no fazer belíssimo de sua fachada de vidros sobre pilares, em um grande vão livre, parece flutuar no espaço. Hoje, pintados de vermelho, os pilares se sobressaem”, Teresinha Soares.

“Os cavaletes dão uma visibilidade muito grande, você tem um carrossel de imagens e se sente num ateliê. As obras estão vivas e uma interfere na outra. E não é apenas um marco da arquitetura, a preservação daquele vão livre fez um ícone de acontecimentos, ponto de muitos encontros.”, Claudio Tozzi

 

“O Masp é um dos maiores pontos de movimentação artística que a cidade já teve. O Pietro Bardi foi um gestor de primeiríssima ordem, estimulou as exposições e a vinda de muitos artistas. Com as paredes de vidro, a sala do segundo andar é um espaço completamente único”, Ricardo Ohtake.

A trajetória do museu

Em 1947, o jornalista e mecenas Assis Chateaubriand (1892-1968) inaugura o Masp, primeiro museu moderno do País. As primeiras instalações foram em uma sala de mil metros quadrados, na sede dos Diários Associados (conglomerado de mídia), na Rua 7 de abril, centro de São Paulo.

Em 1953, o mirante Belvedere do Trianon, com salões e restaurantes que davam vista para a Avenida Nove de Julho, é demolido. O terreno vazio abrigou a 1ª Bienal de Arte Moderna antes de ser destinado à construção do Masp.

Em 1968, o museu é transferido para a atual sede, na Avenida Paulista, após uma construção que levou 12 anos. A inauguração do projeto de Lina Bo Bardi teve a presença da rainha Elizabeth II.

Em 1998, a empresa de tintas Suvinil faz parceria com o museu e pinta de vermelho as duas vigas de concreto que envolvem o prédio. A nova estrutura, colorida, acabou se tornando símbolo do Masp.

Em 2007, três homens invadem o Masp e roubam duas obras importantes: O Lavrador de Café, de Cândido Portinari e Retrato de Suzanne Bloch, de Pablo Picasso. Os quadros somados eram estimados em R$55 mi e foram recuperados no ano seguinte, sem danos.

Em 2008, O Masp passa a integrar o “Clube dos 19”, que reúne os principais museus do mundo com acervos de arte europeia do século 19. Fazem parte da lista galerias consagradas do mundo, como o Metropolitan, de Nova York; o The Art Institute, de Chicago; e o Musèe d’Orsay, de Paris. 

(Colaborou Eduardo Gayer)

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