Predadores estão de volta a filme de Frears

Chéri fala de relação sem futuro numa época condenada

Luiz Carlos Merten, BERLIM, O Estadao de S.Paulo

11 de fevereiro de 2009 | 00h00

Stephen Frears contou muitas histórias de predadores, em filmes como Ligações Perigosas e Os Imorais - gente que usa e abusa do próximo, preocupada apenas com o próprio umbigo ou satisfação. Mas ele nunca contou uma história como a de Chéri, de dois predadores que se amam sinceramente e têm consciência de estar vivendo não apenas o fim da relação, mas de uma época. Chéri é uma adaptação do romance de Colette. Michelle Pfeiffer faz a cortesã parisiense que vira amante de garoto, filho de antiga rival. Durante seis anos ele vive com Chéri, até que a mãe arranja um casamento de conveniência para o filho e os separa. Mas eles não conseguem viver separados. Quando se reencontram, também não dá certo - ela percebe que o tempo passou e está envelhecendo; ele, que é um produto de uma época condenada, a chamada belle époque, e não tem futuro.Frears não fez apenas o seu tempo perdido - fez o tempo que não pode ser reencontrado e essa é a tragédia de Michelle Pfeiffer e seu jovem amante, que também vai perdendo o viço. O filme é ótimo, mas parece um corpo meio estranho na seleção berlinense deste ano. Parece, mas não é. O festival está contando muitas histórias de predadores, desde o banco de Trama Internacional, de Tom Tykwer, até A Doutrina de Choque, de Michael Winterbotton, que coloca em discussão as teorias de Naomi Klein e transforma o papa do neoliberalismo, Milton Friedman, no vilão de toda a desgraceira associada à economia de livre mercado.Winterbotton prossegue com seu ataque aos EUA, após Caminho para Guantánamo. A doutrina de choque é um sistema que, desde a 2ª Guerra, criou as condições para o fortalecimento econômico, e não apenas esse, da ?América?. Guerras, apoio a ditaduras, tudo faz parte de um movimento cujo resultado é o atual mundo de desigualdades, no qual o consumismo - o mercado - substituiu conceitos que parecem velhos, como ética e humanismo. O filme de Winterbotton integra a exigente seleção de Panorama Documentary, na qual também passa o documentário Garapa, de José Padilha, sobre a fome no mundo.Ontem pela manhã, o Festival de Berlim mostrou outro bom filme - London River, de Rachib Bouchareb, o diretor franco-argelino de Dias de Glória (Indigènes). Bouchareb inspirou-se nos atentados de Londres, em 2005, para contar a história de uma inglesa e de um muçulmano francês de origem africana que procuram os filhos desaparecidos na capital inglesa. Eles estarão envolvidos nos atentados; serão duas das vítimas? É um filme sobre como os pais não logram conhecer completamente os filhos. Bouchareb esperou um ano para fazer London River com Brenda Blethyn. Teria esperado dois, ele confessou, de tal maneira a atriz e Stogui Kouyate são, mais do que intérpretes, a verdadeira razão de London River. Com uma dupla dessas, disse Bouchareb, é como se um diretor estivesse em férias, fazendo um filme pela diversão, sem o menor esforço. Mas o drama é pesado - Brenda é hostil com Kouyate. O filme é sobre como duas culturas, a inglesa tradicional e a argelina, terminam por estabelecer pontes para enfrentar a adversidade. É um filme forte, que o júri presidido por Tilda Swinton dificilmente vai ignorar. O repórter viajou a convite da organização do festival

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