''Preciso estar pronto para a poesia''

Ao contrário da prosa, diz Gary Snyder, a escrita em versos é uma surpresa a partir de uma ideia 'que vem de outra parte'

Rodrigo Garcia Lopes, O Estadao de S.Paulo

30 de maio de 2009 | 00h00

Um dos fundadores e um dos últimos representantes vivos do movimento beat, o poeta, antropólogo, tradutor e ensaísta Gary Snyder, aos 79 anos, pertence a uma estirpe de intelectual cada vez mais rara na atualidade: a do poeta público, imerso nas questões de seu tempo, servindo de intérprete ou xamã da complexa paisagem cultural dos dias atuais. Seus livros mais recentes são Danger on Peaks: Poems (2004), espécie de diário poético, e Back on the Fire, coletânea publicada em 2007 e que reúne ensaios sobre temas caros a Snyder, como o papel do fogo na preservação das florestas da Califórnia, poesia oriental, mitologia indígena, a "nova desordem mundial" e ecologia - sobre os quais ele fala na entrevista a seguir, realizada na cidadezinha de Hickory, Carolina do Norte.   Leia a íntegra da entrevistaDanger on Peaks: Poems foi publicado em 2004. Por que você demorou tanto para publicar poesia novamente (seu último livro dedicado ao gênero havia sido ?Mountains and Rivers Without End?, de 1996)? O senhor acha que às vezes é mais importante viver do que escrever? Estou sempre escrevendo poemas. Quando me sinto estimulado a escrever? Quando me sinto estimulado a escrever! A poesia não é prosa: na prosa você pode se atirar e se forçar a escrevê-la. Já com a poesia é preciso esperar que a voz chegue até você. É uma questão de inspiração, de se conseguir uma ideia criativa que o surpreende e que vem de outra parte. Meu trabalho é sempre estar pronto para a poesia. A escrita de um novo poema é sempre uma surpresa. Como você vê a situação do ser humano hoje? Não se pode ignorar questões como o terrorismo internacional, a crise ecológica, o aquecimento global, a pobreza, guerras, violência. Sua poesia frequentemente lida com temas como sobrevivência, comunidade, amor à natureza. Como você vê problemas como esses além da superpopulação, que você sempre menciona? É possível ser otimista?Não é possível ser otimista em relação a nada hoje em dia. Isso por causa do enorme desequilíbrio econômico no mundo todo. Mesmo nos EUA e também no Brasil há a diferença imensa entre as classes mais afluentes e as mais pobres. Mas há uma outra abordagem que eu gostaria de levantar: o mundo humano, com todos os seus problemas, ainda está separado da natureza. Qual é a situação da natureza? Os seres humanos são colocados, sempre, em primeiro lugar. Isso ocorre tanto na tradição científica quanto na religiosa e espiritual. Dos dez mandamentos, o mais importante é "Não matarás", mas isso só se aplica aos seres humanos. A tradição científica que se desenvolve nos séculos 16, 17 e no Iluminismo europeu impõe uma visão dualista do mundo e de nossas mentes. É a ideia de que a mente e a matéria não interagem e que os seres humanos e a inteligência humana estão destinados a encontrar um modo progressivo de fazer um uso melhor do mundo. O mundo natural é visto enquanto um provedor de recursos naturais. A preocupação com o aquecimento global leva em conta isso simplesmente porque as mudanças serão drásticas. É interessante como esses temas têm surgido cada vez mais na mente das pessoas. Essa crise não vai perturbar a natureza e sim os seres humanos! O mundo natural, que é mais amplo, pode se ajustar às mudanças climáticas. Os seres humanos é que estão preocupados com o que vai acontecer.Não poderia deixar de perguntar sobre sua relação com Jack Kerouac, que o transformou em personagem principal do romance Os Vagabundos do Dharma. Ele parece que tinha um carinho especial por você, tendo sofrido influência sua. Eu não sei se tive tanto contato assim com Jack. Nós dividíamos uma casinha em Marin County, perto de San Francisco, no outono de 1955 e no começo da primavera de 1956. Cozinhávamos e vivíamos juntos neste lugar pequeno e simples. Não tínhamos eletricidade. Morávamos numa casa inacabada e sem janelas. Fazíamos trabalho florestal e fizemos longas caminhadas juntos nas montanhas. Eu fui embora pro Japão em maio de 56, e depois nunca mais o vi. Estive lá por 12 anos. Mantivemos certa correspondência por um tempo. Seus editores me mandaram On The Road e The Dharma Bums quando foram publicados. Jack pediu desculpas por me colocar no livro, mas eu fui apenas um modelo artístico para o personagem Japhy Ryder. E ele me devia mesmo desculpas porque me causou alguns problemas. Desde então, ao longo dos anos, tenho tido que explicar que não sou Japhy Rider! Jack não era um jornalista e sim um romancista. Fiquei um pouco irritado com algumas pessoas tomando o personagem como um modelo. Minha correspondência com ele geralmente tratava mais de aspectos do Budismo. Ele tinha compreensões muito doces, tinha coração doce e profundo. Não importa outros problemas que ele tivesse, confusões sobre sua sexualidade, sobre sua mãe, e bebida demais. Tinha um bom coração.Você acha que a poesia perdeu sua força cultural nos EUA, como possuía na época da geração beat?Veja, a poesia vem e vai. Forças culturais são ocasionalmente acidentes. Através da história, vemos que, quando o tempo é apropriado, o escritor certo aparece como uma força cultural. Não é que a literatura seque e vá embora, é que cada época tem sua peculiaridade. Vivemos na era da mídia eletrônica. Quando me perguntam sobre qual é a influência da mídia sobre a literatura eu respondo que linguagem é linguagem: ela ainda é o instrumento mais maravilhoso que possuímos. Nada vai substituí-la. Os escritores e poetas são aqueles que estão mais atentos à linguagem. A linguagem sempre continuará com a gente.Você foi membro do Conselho de Artes da Califórnia. Qual é sua opinião sobre políticas públicas governamentais para a literatura e as artes em geral?Não tenho dificuldade nenhuma em ver as artes enquanto negócio, em ver um artista que pode ocupar seu lugar no mercado de arte e ver quão bem ele se sai. Isso se dá especialmente no caso do romance. Mas há outras artes que, por várias razões, não podem competir no mercado, e outras que não têm absolutamente entrada no mercado, como a poesia. É simpático apoiar a poesia com fundos mas você não precisa do governo para isso, para fazer uma pequena publicação. A poesia é sempre uma arte marginal, é uma arte de comunidade. Não é uma carreira: é uma vocação. Você é levado a ela, é um dom. Você não deve se preocupar se está fazendo dinheiro ou não com poesia. O que você precisa fazer é trabalhar com a sua comunidade. É uma coisa cultural. As culturas tradicionais não precisam de dinheiro do governo, precisam é de apoio da comunidade, isso sim. Sim, as artes precisam de apoio da comunidade, mas não quero falar sobre dinheiro governamental. Pra dizer a verdade, o governo norte-americano ferrou com a arte neste país.Você diz que não se considera um americano mas um habitante de Turtle Island. Como é isso?Não gosto da palavra América. Quem é esse cara, Américo Vespúcio, que nem esteve aqui? "Turtle Island" é um nome que os nativos americanos davam para o continente norte-americano. É um nome charmoso, eu gosto mais, o faz pensar de uma maneira diferente. "América" se aplica aos últimos 500 anos de história, quando os europeus chegaram aqui. Já "Estados Unidos" é um termo que se aplica a mais ou menos 200 anos de história. Quão velha é a palavra "Brasil"? 500 anos ou mais? "Turtle Island" é um nome que existe há milhares de anos, e quando uso o termo estou apenas tentando lembrar as pessoas de que este é um continente antiquíssimo. Não sei que nome seria mais adequado para a palavra "Brasil", ou "América do Sul". Isso é com vocês. Rodrigo Garcia Lopes é escritor e jornalista, autor, entre outros, de Vozes & Visões: Panorama da Arte e Cultura Norte-Americanas Hoje, e professor de Português e Literatura na Universidade da Carolina do Norte

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