''Precisamos dialogar sempre''

Cláudia Toni fala de congresso que vai reunir profissionais de 35 países para discutir papel do gestor cultural

João Luiz Sampaio, O Estadao de S.Paulo

27 de abril de 2009 | 00h00

De 10 a 13 de junho, São Paulo será o palco do 23º Congresso Internacional da ISPA - International Society for the Performing Arts. Sob o tema Brasil: Imersão na Diversidade, cerca de 350 profissionais de 35 países vão se reunir em debates, palestras e seminários para discutir a gestão de instituições culturais. Representantes de instituições como a Filarmônica de Londres, o Concertgebouw de Amsterdã, o Lincoln Center de Nova York ou o Conselho de Arte da Coreia já confirmaram presença.A responsável pela iniciativa - patrocinada pela Secretaria de Estado da Cultura em parceria com o Sesc e o Centro Cultural Banco do Brasil, entre outras instituições - é a brasileira Claudia Toni. Ela entrou para a ISPA em 2001, quando era diretora executiva da Osesp, cargo que deixou por divergências com o então diretor artístico John Neschling. Hoje, atua como assessora especial do secretário de Estado da Cultura João Sayad. Seu trabalho se dá nos bastidores, onde se afirma que foi a responsável por mudanças recentes na vida musical paulistana como a troca de comando na Osesp ou no Festival de Campos do Jordão. No posto de assessora, Claudia não fala. Como anfitriã do congresso, explica, em entrevista exclusiva ao Estado, os objetivos da iniciativa - e cutuca produtores culturais e sua incapacidade de dialogar entre si.A NECESSIDADE DE UM FÓRUM"A ISPA reúne não quem trabalha no comando artístico das instituições mas, sim, os responsáveis pela gestão. Por que isso é importante? O que eu mais aprendi com meus colegas da sociedade é que no Brasil falta disciplina. Cerca de 95% dos membros da ISPA são de países muito ricos - e todos trabalham de maneira cooperada, assumem projetos juntos, se reúnem para discutir problemas. E o Brasil, tão cheio de carências, não consegue fazer o mesmo. Se não mudarmos isso, não vamos crescer. Não há aqui, no entanto, um fórum para discutirmos nossas questões. O congresso é um início de caminho. O que é um produtor? É o cara que concebe uma programação ou aquele que vai comprar sanduíche para os artistas? Questões como essa não são discutidas por aqui. E precisam ser. Ao mesmo tempo, os estrangeiros que virão ao País terão a chance de conhecer a produção cultural brasileira de maneira mais concreta, contrária ao exotismo e à ênfase na cultura popular comercial."DOIS TEMAS"De cara, há dois temas específicos que surgiram nas discussões que tivemos para formar a grade do congresso. O primeiro deles é a formação de público,campo no qual estamos atrasados. Há iniciativas, como as da Osesp, dos grupos de teatro e de dança, mas estamos engatinhando. A questão da educação musical é polêmica, já ouvi artistas comentando: ?Fulano não é músico, trabalha com educação musical?. A outra diz respeito ao agenciamento artístico e a necessidade de um debate sobre esse aspecto da produção artística. Da mesma forma, poderemos mostrar campos em que somos pioneiros, como a inclusão social por meio da arte. Mas o fundamental é propor o diálogo. A cultura tem que deixar de ser o patinho feio da vida do País. Eu nunca me candidatei a dirigir um hospital. No entanto, todo mundo acha que pode gerir uma instituição cultural. Precisamos formar profissionais específicos para isso."PAPEL HIGIÊNICO E MÚSICA NOVA"Qual a cara de um teatro? O que há de interessante na busca pela integração de várias linguagens no processo de criação? Quais os grandes projetos educativos? Como avaliamos a reação do público? São questões que apontam para o futuro. E conversar com quem está lá fora é importante. Eles estão mais adiantados? Sim, mas então vamos aprender com eles e pular etapas. Se eu não discutir com o diretor do Barbican Center, de Londres, o melhor centro cultural do mundo, o mais provocante e ousado, se eu não entendo como ele pensa, não entendo meu lugar no mundo. Não vou copiar o que eles fazem, nem temos dinheiro para isso. Mas quero ser contaminada pela provocação do trabalho dele no que diz respeito, por exemplo, ao fomento da música nova. Há um certo conformismo em todas as instituições brasileiras com a música que estamos produzindo. O que é a música do século 21? Para onde vamos? Estamos passando ao largo dessas questões. Os diretores de teatro reagem a isso dizendo: ?Não temos nem verba para papel higiênico, como vou pensar nisso??. Criar um projeto consistente e relevante nos ajuda a comprar o papel higiênico. As programações se parecem demais, os artistas se repetem, as propostas são as mesmas. É tudo muito óbvio, uma mesmice."LEI ROUANET"A necessidade de profissionalização fica clara quando vemos as discussões em torno da Lei Rouanet, por exemplo. Tem diversos temas que aparecem ali, mas nada tem a ver com a lei, que vira a panaceia universal porque não temos outro fórum, que deveria ser o fórum do gestor cultural. Essa profissão é recente, eu sei, mas a inexistência de um fórum precisa ser resolvida para que as discussões sejam mais proveitosas. Veja, por exemplo, o conceito de marketing cultural. Entendê-lo no contexto da lei e do patrocinador é uma estupidez. Marketing cultural deve ser a busca por planos para vender ingresso. Estamos discutindo tudo errado. Por que temos vergonha de falar disso? Tenho sim que pensar em como chegar ao público e atraí-lo para o teatro."E POR QUE NÃO DIALOGAMOS?"Eu não acho que seja uma questão exclusiva da música e das orquestras. É algo mais amplo, que tem a ver com o mundo latino. Temos uma enorme dificuldade em nos juntar, somos pouco democráticos. Esse aspecto é muito importante no protestantismo, a ideia de que as pessoas precisam se unir em torno de objetivos comuns, dividindo tarefas, verbas. Mas acho que esse espírito está começando a nos contaminar. Fora da área cultural, por exemplo, há sociedades como a de cardiologistas, por exemplo. As profissões antigas já se deram conta da necessidade de união. Na área cultural, estamos engatinhando, apesar de iniciativas como a criação da Sociedade Brasileira de Etnomusicologia. Mas ainda falta reflexão, autoanálise. Em certo momento, décadas atrás, quando comecei nessa profissão, ninguém se juntava por ter medo de compartilhar ideias e perder o lugar. Hoje, o mercado é mais amplo, comporta múltiplas propostas. Os gringos já entenderam que ninguém consegue ser onipresente, que é necessário se associar. É daí que vem a força do mercado. Não adianta ter apenas uma boa orquestra em São Paulo, precisamos de várias. É a existência de diversas iniciativas consistentes que fortalecem essa faixa do mercado."Frases"Cerca de 95% dos membros da ISPA são de países muito ricos - e todos trabalham de maneira cooperada, assumem projetos juntos, se reúnem para discutir. E o Brasil, tão cheio de carências, nãoconsegue fazer o mesmo. Se não mudarmos isso, não vamos crescer. Não há aqui, no entanto, um fórum para discutirmos nossas questões.""O que é a música do século 21? Para onde vamos? Estamos passando ao largo dessas questões. As programações se parecem demais, os artistas se repetem, as propostas são as mesmas. É tudo muito óbvio, uma mesmice.""Não adianta ter apenas uma boa orquestra em São Paulo, precisamos de várias. É a existência de diversas iniciativas consistentes que fortalecem essa faixa do mercado." CLÁUDIA TONI

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