Prece pela vida longa desta parceria

Em As Centenárias, Andréa Beltrão e Marieta Severo esbanjam delicadeza e humor no papel de duas experientes carpideiras

Crítica Mariangela Alves de Lima, O Estadao de S.Paulo

27 de maio de 2009 | 00h00

Rir da morte de alguém é um dos tabus da civilização ocidental, mas rir da Morte personificada é façanha permissível e, em alguns casos, recomendável. É um modo de conviver e transcender, no plano imaginário, o vasto "roçado da morte" das regiões muito pobres. Nas fábulas do romanceiro popular nordestino confluem narrativas de origem ibérica, africana e indígena em que a morte, tratada como figura alegórica, é alvo de artimanhas e zombarias que angariam para os espertos mais tempo sobre a terra. Nessa tradição se inscreve As Centenárias, peça de Newton Moreno encenada sob a direção de Aderbal Freire-Filho - sucesso carioca, finalmente em cartaz em São Paulo. Duas carpideiras, Socorro e Zaninha, ambas muito competentes na execução dos ritos mortuários, rememoram episódios de uma carreira secular. Antigas narrativas são tramadas pelo fio condutor de uma dupla que testemunha e reconta uma seleta do repertório de trapalhadas de velório.O que há de insubstituível e singular nessas duas personagens genéricas na função e repetitivas no plano temático é a estilização graciosa, intencionalmente poética, da linguagem verbal e a variedade de categorias estéticas mobilizadas nos diferentes episódios. Além da imitação paródica dos cacoetes da fala e do vocabulário nordestino, as histórias de velórios rememoradas pelas carpideiras no texto assumem, de acordo com a convenção não escrita que preside os gêneros de cordel, diferentes graus de cerimônia. Todas as histórias têm o sal do cômico, mas o equilíbrio dos elementos de composição é variável. Há o maravilhoso na história da mulher de intestino perfumado e esse plano abstrato da ficção permite o uso de expressões rebuscadas como "vinha galopando sob as anáguas uma bomba de gases". Graças aos artifícios de composição, a filosofia do baixo-ventre é alçada à esfera do acontecimento místico. Já a crônica de costumes permite o gracejo pesado sobre maridos traídos e o deboche com os lavradores embasbacando-se diante das novidades tecnológicas.Mais raras no áspero contexto da representação da vida sertaneja são igualmente resumidas nesta seleção as peripécias sentimentais. No entanto, quando evocadas, permitem um certo rebuscamento lírico. É um tipo de tratamento em que Newton Moreno se esmera porque evita o lugar-comum e as soluções edulcoradas. A menina que aceita ser uma vaquinha aos olhos do avô esclerosado reconta o velório: "Mugi de leve, como se despedisse. Muuu..." Para o romance de Zaninha com um galã do Cariri cabe a expressão seca e lapidar de uma amorosa pouco habituada à expansão efetiva: "Ele é minha completude e eu sei que ele tem sentimento neu." É o quanto basta. Em ambos os casos o sentimento amoroso passa pelo filtro de pudor que até pouco tempo atrás governava os usos e costumes no meio rural.Para a dupla formada por Andréa Beltrão e Marieta Severo a variedade na escala estilística exige tanto a delicadeza quanto a inflexão da astúcia e do cálculo. Embora envergando a máscara cômica, as duas personagens são também figuras da alegoria medieval em que o homem joga xadrez com a Morte. A composição das personagens deve, portanto, compreender o sentimento de urgência e perigo dos que pressentem a iminência do fim. Longevas e legendárias, quase triunfantes por ter escapado em um primeiro combate, as interpretações das duas atrizes indicam a agilidade física e mental de boas lutadoras. Quer no tempo passado da narrativa, quando eram jovens, quer no presente de velhinhas centenárias, cabe às personagens agir sobre o espaço cênico, conduzir a narrativa e indicar o incessante deslocamento das fugas. Mais experiente, a velha Socorro, interpretada por Marieta Severo, tem a inflexão grave de quem se "especializou na dor". Andréa Beltrão, carpideira um tanto mais moça, preserva nos dois tempos da ação a máscara surpresa do eterno aprendiz. Ambas se complementam em um jogo cômico que exige, além de interlocução rápida, a observação de um tempo diferente para as frases de intenção poética. Perfeitamente técnicas nas pantomimas da velhice (modeladas sobre números do teatro de variedades), as intérpretes projetam sobre os diálogos qualidades mais sutis de atuação. Sob a covardia proclamada das personagens insinuam-se a comiseração, a coragem de desafiar tiranos, o companheirismo e outras qualidades e experiências cuja beleza as carpideiras aprenderam com a Morte e as atrizes transmitem por meio de modulações da conversa entre elas. São tão raras no teatro e no cinema de hoje as duplas cômicas com esse grau de interação que os espectadores mais velhos (lembrando saudosos de duplas como Oscarito e Grande Otelo, Walter Matthau e Jack Lemmon e tantos outros) têm direito a uma prece muda: vida longa a essa parceria. ServiçoAs Centenárias. 90 min. 14 anos. Teatro Raul Cortez (540 lug.). Rua Dr. Plínio Barreto, 285, Bela Vista, 2198-7701. 6ª, 21h30; sáb, 21 h; dom., 17 h. R$ 80/R$ 90. Até 28/5

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