Pragas bíblicas e contemporâneas

Regina Silveira faz balanço entre poética e política e permanece fiel à sua teia invisível de indagações formais e conceituais

Maria Hirszman, O Estadao de S.Paulo

07 de outubro de 2008 | 00h00

Em Mundus Admirabilis e Outras Pragas, Regina Silveira demonstra mais uma vez sua enorme capacidade de renovar-se permanecendo fiel a um leque reduzido de questões, capazes de gerar novas e instigantes visões de mundo a cada mergulho. Os 11 trabalhos que compõem a mostra, que será inaugurada hoje na Galeria Brito Cimino, pertencem a uma teia invisível de indagações formais e conceituais presentes em sua produção, como a manipulação da sombra, o ilusionismo ótico, a deformação da perspectiva e a associação de diferentes formas de expressão sensorial. Como o próprio título da exposição indica - e os nomes individuais dos trabalhos, também em latim, reforçam -, a exposição se articula como uma investigação poética e política acerca das pragas, bíblicas e contemporâneas.Logo à entrada o visitante se depara com gigantescos insetos recortados em vinil negro colados sobre chão e paredes, que parecem invadir o espaço da galeria. Esses seres, saídos de livros de gravuras do século 18, que a artista coleciona há anos, já foram explorados em outras de suas instalações, como a realizada no ano passado em Brasília na mostra Jardim do Poder. Possuem uma beleza assustadora e invasiva. E remetem a outros acúmulos de manchas, de pegadas animais e humanas exploradas no passado e no presente.Rerum Nature, também baseado no acúmulo dos mesmos desenhos de insetos, realiza sobreposição ainda mais intensa e provocante. A instalação é formada por um jogo de 20 peças de louça montadas de maneira bastante surreal (como uma pilha de pratos colados uns sobre os outros) e decoradas com os insetos, que repousam sobre uma mesa coberta com uma fina toalha de linho bordada cuidadosa e lentamente por uma artesã do Cariri (CE). A bordadeira, aliás, parece não ter gostado muito da experiência de bordar grandes e negros bichos peçonhentos - apesar de seu excesso elegante. A cena aparentemente comum de louças postas à mesa entra em choque com a estranheza dos elementos, num jogo de sedução e repulsa. Mas é em outros trabalhos de referência mais contemporânea, como Per Capita, Fabula e Infernus - curiosamente três obras em que o som joga um papel central - que fica mais explícita o que Regina chama de busca de um "balanço entre poética e política". A primeira dessas obras associa o som de tiros à praga do granizo que teria recaído sobre os egípcios. A segunda mescla o ruído do mosquito - representado de forma deformada na parede - ao barulho de helicópteros no céu de São Paulo. E a terceira obra, talvez a mais angustiante de toda a exposição, mostra no fundo de um poço o gotejar lento do sangue, sob uma trilha sonora densa, angustiante, construída a partir da sobreposição de gotas caindo e do som de vento sendo sugado por um túnel estreito.Poço equivalente foi mostrado há dois anos no octógono da Pinacoteca. Mas se lá a artista explorava os mistérios do céu, agora os códigos de que desmonta referem-se à metáfora enigmática das sombras e sua associação com nossos males contemporâneos. Chuvas de sapo ou de bala, pegadas de insetos ou de homens vítimas da violência: é na contraposição dessas narrativas, míticas ou reais, que a artista promove o que o crítico Adolfo Montejo Navas associa a uma vertente humanista, a um desejo de "contradizer qualquer fronteira próxima ou com o escapismo do etéreo ou com o funcionalismo estético". ServiçoRegina Silveira. Galeria Brito Cimino. R. Gomes de Carvalho, 842, 3842-0635. 2.ª a 6.ª, 10/19 h; sáb., 11/17 h. Até 8/11. Abre hoje, 19 h, para convidados

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