PQD dá uma cara à estatística

Filme de Guilherme Coelho fala de jovens que buscam ascensão no Exército

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

07 de dezembro de 2007 | 00h00

Para começar a falar de seu novo filme, PQD, Guilherme Coelho cita recente pesquisa do IBGE que definiu o perfil socioeconômico dos brasileiros. Na pirâmide social, 10% da população possuem o maior poder aquisitivo, 20% ganham até R$ 1.200 (per capita) e o restante defende-se como pode, diminuindo cada vez mais a renda, até não ter renda nenhuma. Os jovens pára-quedistas do filme de Coelho ralam no processo de seleção da 3ª Companhia do 25º Batalhão da Brigada Pára-Quedista. Seu soldo inicial é R$ 300 e eles sonham com o que poderão ganhar no segundo ano, quando (ou se) efetivados - R$ 1.200. O desejo desses jovens é ascender, dentro de suas possibilidades, na pirâmide social vigente no País.Coelho, de 28 anos, casado, pai, já possui outro documentário no currículo - Fala Tu, no qual dirigiu sua câmera para jovens favelados não para falar da miséria, mas da linguagem, da música, do hip-hop como arma contra a exclusão. Fala Tu terminava com aquele plano digno de Michelangelo Antonioni, que documentava a tristeza e a solidão do homem que havia perdido sua mulher, em trabalho de parto. Contra aquela parede - branca como as dos filmes de Antonioni -, o sujeito parecia um daqueles personagens das ficções do grande diretor italiano. PQD continua falando de gente pobre, humilde, mas seu tema não é a condição social, em si, e sim a construção da cidadania.''''No início, eu queria fazer um filme sobre o Exército, para falar da instituição, mas percebi que seria muito difícil conseguir permissão para isso. Quando descobri o 25º Batalhão, o foco mudou. Em vez da instituição, eu percebi que seria mais interessante falar dos jovens e do que o Exército representa para uma garotada que vê nele a sua possibilidade de ascensão.'''' Foi um longo processo. Durante seis meses, no segundo semestre de 2004, até o começo de 2005, Coelho entrevistou 117 garotos, em busca de personagens. Foi a suas casas, entrevistou familiares. No filme, você encontra apenas 9, que foram os que restaram num grupo de 70. ''''A gente não escolhe os personagens'''', diz o diretor. ''''São eles que nos escolhem, porque é preciso uma entrega do entrevistado. Ele tem de estar de acordo.''''Como ele diz, ''''não fiquei amigo dos garotos. Tivemos uma relação cordial, mas eu não podia avançar mais para não me distanciar do objetivo''''. Que era mostrar o que a instituição, a farda, representa para aqueles garotos e suas famílias. Coelho filmou durante um ano e trabalhou mais um ano na montagem. Partindo de 240 horas de material, chegou a reduzida 1h30. Não é um documentário chapa-branca sobre o Exército. É um filme de personagens, um pedaço de um Brasil que sai da fria estatística para ganhar uma cara. E não só os garotos. A mãe que revela ter sido prostituta é uma personagem digna de Eduardo Coutinho. Essa sinceridade só se consegue com confiança.

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