Cristiano Mascaro
Cristiano Mascaro

Portugal é visto pelas lentes de Cristiano Mascaro

Livro do fotógrafo reúne imagens em preto e branco de várias regiões do país, das grandes cidades, como Lisboa e Porto, às aldeias

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

17 Dezembro 2016 | 05h00

Portugal é um país familiar às lentes do fotógrafo Cristiano Mascaro, que lá esteve pela primeira vez em 1972, contratado pela revista Veja para registrar os caminhos que o imperador D. Pedro I percorreu após a proclamação da Independência do Brasil. Retornou várias vezes, fotografando, alternadamente, imagens de edificações do passado e a nova arquitetura portuguesa. Faltava, porém, entrar em alguns lugares que Mascaro define como uma espécie de “outro lado do espelho de Alice”, as maravilhas que o país esconde em seus prédios históricos, como a biblioteca do Palácio Nacional de Mafra. Finalmente, ele conseguiu penetrar nesse e em outros “espaços sagrados”, graças à ajuda do cônsul de Portugal em São Paulo, Paulo Lopes Lourenço. O resultado é o belo livro Portugal, que a editora Bei acaba de colocar no mercado.

As fotografias do livro são todas em preto e branco, o que reforça o vínculo do autor com os mestres que conduziram esse ex-arquiteto à fotografia, entre eles Kertész, Cartier-Bresson e, especialmente, o suíço Robert Frank, conhecido pela histórica série (The Americans), em que fotografou os EUA durante dois anos, partindo em 1955. Frank cruzou o país, visitou várias cidades americanas pelo caminho e voltou com 28 mil negativos na bagagem.

Portugal é igualmente um livro ‘on the road’, mas focado na arquitetura – é rara a presença humana nessas fotos de pequenos povoados e grandes cidades. “No entanto, considero esse mais um projeto autoral do que propriamente um livro de arquitetura”, observa o fotógrafo, que olha para sua Hasselblad com certa nostalgia, em plena era da foto digital.

A viagem de Mascaro começou em abril deste ano. Partindo de Lisboa, ele passou por duas dezenas de cidades, de Mafra a Évora. Há registros em grandes centros urbanos, como Coimbra e Porto, assim como em Viana do Castelo, a bucólica Óbidos, a histórica Batalha e a fortaleza de Sagres. Foram mais de 3 mil quilômetros percorridos em 40 dias e centenas de imagens colhidas ao acaso – além, claro, dos registros já programados, como os projetos arquitetônicos de Carrilho de Graça, Fernando Távora e Álvaro Siza (um deles, o prédio da Fundação Serralves, estampado na capa do livro).

A seleção das fotos de Portugal, conta Mascaro, foi feita à moda antiga, pré-digital. O fotógrafo imprimiu 500 imagens e grudou as reproduções com imãs num painel metálico, que ele deslizava para formar um conjunto harmônico – mas não homogêneo. Assim, o caderno de imagens abre com uma panorâmica de Vila Nova da Foz Côa, onde está o austero e moderno museu assinado pelos arquitetos Tiago Pimentel e Camilo Rebelo, para, logo em seguida, mostrar um detalhe do muro da Real Abadia de Santa Maria, em Alcobaça, construída no século 12.

Mascaro revela como a evolução da arquitetura portuguesa não desprezou a tradição, buscando correspondência entre passado e presente. “O branco da arquitetura de Siza é o mesmo branco de Sagres, não existe uma ânsia de enterrar o que faz parte da história”, observa. Ao mesmo tempo, ele busca as semelhanças de linguagem entre os arquitetos portugueses e um brasileiro como Paulo Mendes da Rocha, que assinou o projeto do Museu Nacional dos Coches, cuja imagem aparece ao lado de uma foto do Pavilhão do Conhecimento em Lisboa, museu de ciência e tecnologia desenhado em 1998 elo arquiteto Carrilho de Graça.

O olhar do fotógrafo, quase sempre, mira o detalhe, como placas de mosteiros que remontam ao século 13 ou janelas manuelinas de conventos. Tudo sob uma luz expressionista, cinematográfica.

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