Portugal mantém fidelidade ao Brasil

No restante da Europa, autor brasileiro ainda é desconhecido, mas há surpresas, como a edição espanhola de Mario Quintana

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

18 de outubro de 2008 | 00h00

Passada a frustração de ostentar prateleiras vazias durante todo o primeiro dia da Feira de Frankfurt (os livros ficaram retidos em Madri, na Espanha, porque alguns deles foram embalados em uma caixa de material fotográfico que trazia o símbolo de "material corrosivo"), os editores brasileiros preparam-se para voltar com bons negócios fechados. "O problema é que é mais fácil comprar que vender", admitiu Paulo Rocco, dono do selo que leva seu nome. "Ainda assim, foi possível ?exportar? alguns autores nossos."Ele festejava a negociação com editoras portuguesas, que vão editar livros das escritoras Adriana Lisboa e Thalita Rebouças. Já Adriana Lunardi será lançada na França e na Espanha. "É realmente algo para se comemorar, pois a literatura em língua portuguesa não é fácil de ser negociada", atesta Anne-Marie Vallat, agente que trabalha no meio literário há 35 anos, sempre de olho nas novidades brasileiras para oferecer no exterior.Nessa caminhada, porém, ela conta que precisou sempre de muita argumentação. "A literatura brasileira é muito rica mas sua qualidade ainda não foi totalmente descoberta pelos europeus", conta Anne-Marie, que vê apenas o mercado português como sempre interessado nos autores nacionais - atração reforçada pela ótima aceitação das telenovelas e da música brasileira. "Por causa disso, trato com algumas editoras portuguesas que sempre fazem questão de manter algum título brasileiro, mesmo de autor desconhecido."O Estado acompanhou o encontro de Rocco com Anne-Marie e o filho dela, Eduardo, também agente literário. A reunião, como a grande maioria, ocorreu em uma enorme sala onde editores conversam durante no máximo meia hora com os agentes, dando prosseguimento a reuniões já iniciadas por telefone e e-mail. "Com isso, chego a ter mais de 15 reuniões em apenas um dia", conta Rocco, revelando a rotina de praticamente todos os editores brasileiros que vêm à Feira de Frankfurt.Tamanha disposição é necessária. Anne-Marie, que trabalha em conjunto com a agente brasileira Lucia Riff, conta que a exigência dos estrangeiros nem sempre é facilmente perceptível. "Mario Quintana, por exemplo, vai ser editado na Espanha. Claro que sua poesia é fabulosa, mas eu não esperava que tivesse um admirador como um editor espanhol", conta a agente, lembrando ainda que clássicos como Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto continuam procurados.Na reunião, Rocco acertou ainda a compra de mais um título de David Foenkinos, do qual lançou recentemente Em Caso de Felicidade. "Como gostei desse livro, comprei os direitos de um outro por conta de sua qualidade literária."A mesma confiança mobilizou a Cosac Naify a já acertar o lançamento no próximo ano do novo livro do alemão Ingo Schulze. Um dos destaques da última edição da Festa Literária Internacional de Paraty, ele é autor de Adam e Evelyn, história ambientada em Berlim em 1989, quando houve a queda do Muro, fato que simbolizou a derrocada do regime comunista. "Vamos aproveitar os 20 anos desse evento", comenta o editor Cassiano Elek Machado, confiante na qualidade da narrativa de Schulze, de quem já editou Celular - Treze Histórias à Maneira Antiga.Ostentando Meu Pé de Laranja Lima, clássico juvenil de José Mauro de Vasconcelos, como seu principal sucesso internacional há vários anos, a Melhoramentos negocia com editores da China a edição de livros de Ziraldo, especialmente dois de seus maiores best-sellers, O Menino Maluquinho e Flicts.Além de fechar um acordo com uma editora russa para a transferência de software de dicionários, a editora foi surpreendida por uma boa notícia: a possibilidade de fazer um leilão pelos direitos de dois livros de Toni Brandão, uma vez que duas editoras espanholas revelaram seu interesse.Na condição apenas de comprador ("Não tenho tantos autores lançados por nós"), Angel Bojadsen, da Estação Liberdade, volta ao Brasil com bons títulos negociados. Como o livro Cadernos da Guerra e Outros Escritos, de Marguerite Duras, seleção de boa parte dos arquivos pessoais que a escritora doou ao governo francês em 1995. Também Romantik - Uma Questão Alemã, em que Rüdiger Safranski trata o romantismo de uma forma renovada e surpreendente. "Ele é um dos mais conceituados ensaístas e críticos literários da Alemanha", conta Bojadsen, que arrematou ainda outro livro de Peter Handke, Morawische Nacht (Noite da Morávia, em tradução livre). "Aqui, Handke fez as pazes com a crítica, que elogiou sua visão sempre particular dos povoados do Danúbio."Outro autor consagrado pela Estação Liberdade é o afegão Atiq Rahimi, cujo mais recente livro, Syngué Sabour (Pedra de Paciência), terá edição brasileira. "Trata-se de um dos indicados para o Prêmio Goncourt", comenta Angel, que ainda negocia outros dois autores de língua francesa.

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