Portões do Paraíso brilham em NY

Restaurados, painéis e figuras que compõem as portas do famoso Batistério de Florença são exibidos no Metropolitan

Tonica Chagas, O Estadao de S.Paulo

02 de janeiro de 2008 | 00h00

Depois de 25 anos de restauro e conservação, os Portões do Paraíso, como são conhecidas as portas do lado leste do Batistério de Florença, readquiriram o esplendor dourado que tinham há 500 anos, quando foram criadas por Lorenzo Ghiberti. Com 5,18 metros de altura e 30 toneladas cada uma, elas são um dos mais originais monumentos do Renascimento italiano e a renovação delas vem sendo comemorada em exibições internacionais. Três dos dez painéis e quatro das quase 50 figuras isoladas que integram as portas originais (o Batistério atualmente exibe cópias delas) foram trazidos para os Estados Unidos e são vistos na mostra The Gates of Paradise: Lorenzo Ghiberti''''s Renaissance Masterpiece, que o Metropolitan Museum de Nova York exibe até o dia 13.A recuperação das portas, expostas aos elementos naturais por meio milênio e castigadas pela inundação que devastou Florença em novembro de 1966, levou quase o mesmo tempo que Ghiberti precisou para construí-las. A exposição mostra a técnica usada pelo ourives florentino, o desenvolvimento de sua obra-prima ao longo de 27 anos e o processo empregado para restaurá-la, o primeiro a usar laser na limpeza de escultura de bronze dourado.Lorenzo Ghiberti (1378- 1455) não era somente ourives. Trabalhava também como escultor, arquiteto, designer de vitrais e gostava de colecionar antiguidades clássicas. Mas sua especialidade era escultura de bronze em relevo. Dos três portais do Batistério de Florença, dois são dele (o primeiro, feito por Andrea Pisano com cenas da vida de João Batista, padroeiro de Florença, foi instalado em 1338). Aquele trabalho consumiu mais da metade da sua vida.Ele ainda era um rapaz de 23 anos quando, em 1401, ganhou o concurso para desenhar o segundo portal do Batistério, com temas do Novo Testamento. Em 1425, pouco depois de completar aquela encomenda, a associação de comerciantes Arte di Calimala convidou-o a criar outro par de portas, dessa vez com narrativas do Antigo Testamento. Para executar a que se tornaria sua obra mais famosa, ele ampliou sua oficina e contratou gente tão boa quanto Donatello, outro dos grandes inovadores da arte renascentista.Ghiberti criou dez relevos narrativos numa seqüência cronológica, da esquerda para a direita e de cima para baixo, começando pela criação de Adão e Eva e terminando com o encontro de Salomão com a rainha de Sabá. Os painéis são rodeados por cabeças e estatuetas de personagens bíblicos, tudo emoldurado por uma frisa decorada com flores e animais. O que torna o trabalho incomparável são os efeitos e perspectivas que ele criou, combinando vários níveis de relevo e usando com maestria uma complicada técnica de modelagem.A partir de desenhos e modelos preliminares, ele preparava um modelo detalhado, na escala final e feito de cera, que depois era mergulhado em barro. O novo modelo era queimado para endurecer e daí preenchido com bronze derretido. Retirado o metal de dentro da forma, começava o lento trabalho de esculpir e polir as peças com ferramentas feitas pelo próprio Ghiberti. Para dourar o bronze, aplicava-se com pincel um amálgama de ouro e mercúrio na superfície das peças. Em seguida vinha um processo altamente tóxico para o ouro aderir ao bronze, aquecendo-se as peças a fim de queimar o mercúrio. Livre desse metal, o ouro era polido até quase atingir um brilho de espelho.Em 1452, quando aquelas portas douradas finalmente ficaram prontas, nada chegava aos pés do movimento de suas figuras e da interação dessas nos espaços que Ghiberti construiu graças ao uso pioneiro da perspectiva. Maravilhado com o trabalho, Michelangelo teria dado às portas o nome pelo qual elas são conhecidas até hoje, Portões do Paraíso. Elas ganharam o lugar de honra no portal leste do Batistério, de frente para a catedral, substituindo as portas feitas pelo próprio Ghiberti 27 anos antes. Aquelas passaram, então, para o portal norte.Ao longo dos séculos, a superfície dourada dos portões ficou coberta de incrustações que acabaram por desfigurá-la. A poluição se infiltrou nas camadas de ouro e bronze por rachaduras e arranhões na superfície das peças e começou a corroer os metais. Na enchente de 1966, seis dos dez painéis dos portões quase foram totalmente arrancados pela água. Para evitar um estrago maior, decidiu-se substituir os portais por réplicas e manter os originais no museu da Catedral de Veneza.Quando começaram a restaurar os painéis, os conservadores tiveram muito trabalho para remover os quatro que não se abalaram com a enchente. Ghiberti encaixou os relevos na moldura de maneira tão apertada e precisa que levaram cinco anos para retirá-los. A maior parte da decoração e algumas cabeças tiveram de ser limpas no mesmo lugar onde estavam desde o século 15.RELEVOS E PERSPECTIVASNa exposição estão os painéis com as histórias de Adão e Eva, de Jacó e Esaú, e de Davi e Golias. Em cada placa, de 80 centímetros quadrados, Ghiberti recontou grandes episódios combinados numa só composição, formada por diferentes relevos e perspectivas.No primeiro, com um grupo de seres celestiais na parte superior, a cena da criação de Adão foi esculpida num alto relevo onde a figura de Deus é quase uma estatueta; a de Eva foi representada em relevo médio, dando a impressão de estar mais ao fundo, e relevos mais baixos foram usados nos anjos, que parecem ainda mais afastados do olhar.No painel sobre os filhos gêmeos de Isaac, as figuras foram colocadas dentro de arcos e numa perspectiva linear para criar a ilusão de continuidade de espaço em direção ao fundo. No terceiro painel, além do jogo de perspectiva que desenvolveu, Ghiberti usou diversos implementos e técnicas, martelando e cinzelando pequenos detalhes depois de fundir o bronze. Desenhos decorativos, como as estrelas na armadura de Saul e as rosetas nas de Golias, foram definidos na superfície com diferentes ferramentas.Completam a mostra duas cabeças e duas estatuetas de profetas que pertencem à moldura esquerda das portas. Duas já foram restauradas com aplicação de laser e duas, não, mostrando como a limpeza melhora a percepção do processo de douramento e das formas de maneira geral. Além de exibir as sete peças, o Met também criou um site especial sobre elas no seu endereço na internet (www.metmuseum.org). Quando voltarem para a Itália, os elementos dos portais serão reintegrados à moldura original e selados numa caixa especial, sem oxigênio. Os Portões do Paraíso deverão ficar em exibição permanente no museu da Catedral de Florença.D

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