Pormenores de uma vida cotidiana

Histórias de Chocar, de Rita Clemente e Paulo Azevedo, transpõe para o palco situações comuns e curiosas de uma relação a dois

Livia Deodato, O Estadao de S.Paulo

23 de janeiro de 2009 | 00h00

Uma troca de olhares, um frio na barriga, uma sensação de que, de repente, você foi levado a uma estufa muito bem lacrada, tamanho calor que percorreu todo o seu corpo em questão de segundos. Próximo passo é um cumprimento, que pode ser estendido a uma conversa e, olha só, não é que ele acabou de ler o mesmo livro que você? Esteve no mesmo festival? Gosta de lasanha? Não, isso não pode ser mera coincidência. Isso só pode ser... o desejo de amar, que vem antes, bem antes, do amor, segundo o filósofo Alain de Botton.Inspirados pela obra do suíço Ensaios de Amor, Rita Clemente e Paulo Azevedo resolveram transpor para o palco detalhes da vida íntima de uma relação amorosa. E que, dependendo da leitura que se faça, não necessariamente se restringe ao universo de um casal - pode também dizer respeito a relacionamentos que envolvam colegas de trabalho, familiares, amigos de infância. Histórias de Chocar, que estreia hoje no Sesc Avenida Paulista, nasceu a partir dessa necessidade de se falar dos pormenores que acontecem no cotidiano de todo indivíduo e trazem alegrias, decepções, angústias e ilusões. O velho confronto do divino imaginário com o que é terrena realidade.Tudo começou há pouco mais de um ano, quando Paulo encontrou o romance de Botton na estante de um amigo. O ator, ex-integrante do grupo mineiro Espanca! (Por Elise e Amores Surdos), já tinha vontade de montar um espetáculo que falasse sobre uma relação a dois, ainda mais depois de ter firmado parceria com Rita Clemente, quem dirigiu Amores Surdos. Então, decidiram extrair do livro alguns personagens, que foram condensados em dois arquétipos, Júlio e Irene, e adaptar certas situações como, por exemplo, uma discussão matinal sobre a falta de geleia de morango. "Jogamos uma lente de aumento nas situações que costumam passar despercebidas, nessas pequenas crises do dia a dia que fingimos não acontecer", diz Rita. "Na medida que expomos tudo isso, a gente coloca o espectador diante desse desvendar e, consequentemente, há uma identificação."Ainda que tenham resgatado casos e criaturas específicos de Ensaios de Amor, o texto é totalmente original e foi elaborado num processo baseado em improvisações e discussões com uma série de profissionais, como a dramaturga Adélia Nicolete, o iluminador Guilherme Bonfanti, o artista plástico Francisco Magalhães, a designer Glaura Santos e o diretor de arte do Grupo XIX de Teatro Renato Bolelli Rebouças. Todos trabalhando pela amizade e vontade de fazer um bom teatro, uma vez que obtiveram aprovação do projeto na Lei Rouanet para circulação, mas são inexistentes os apoios e patrocínios até o momento. "Tivemos apenas o apoio da urgência em fazer o espetáculo", brinca Paulo.

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