Por Um Fio: contos de vida e morte

Reflexão sobre a existência é o intuito dessa encenação do livro homônimo

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

02 de abril de 2009 | 00h00

"O diagnóstico de uma doença fatal é um divisor de águas que altera radicalmente o significado do que nos cerca: relações afetivas, desejos, objetos, fantasias, e mesmo a paisagem." Não por acaso, essa frase, repetida três vezes, abre o espetáculo Por Um Fio, baseado no livro homônimo do médico Drauzio Varella, que estreia hoje para convidados no Teatro Anchieta."A percepção de que somos mortais altera nossa reflexão sobre a vida, esse é o ponto central sobre o qual criamos esse espetáculo", diz o diretor Moacir Chaves. No palco, Rodolfo Vaz e Regina Braga, dois atores experientes, narram sem qualquer firula ou arroubos dramáticos as histórias do livro exatamente como foram escritas, vivências do dr. Drauzio na lida com pacientes com câncer.Chaves é diretor reconhecido por seu talento para levar literatura ao palco sem adaptação. Foi o que fez em duas produções muito bem recebidas por crítica e público, Sermão da Quarta-Feira, com texto do padre Antonio Vieira, e Bugiaria, encenação que tinha como base, sem qualquer alteração textual, os autos de um processo de Inquisição. Ele pediu licença ao autor para levar o livro ao palco assim que o leu. "A reação da maioria das pessoas ao receber o diagnóstico de uma doença fatal é aproveitar melhor a vida, deixar de lado vaidades, venalidades e buscar o essencial."O tom pedido aos atores foi quase o do consultório de psicanálise. "É como se eles tivessem não contando a alguém, mas processando naquele momento uma vivência em busca de compreendê-la, tirar dela um aprendizado", diz Chaves. "Ele nos dirigiu muito delicadamente", afirma Regina Braga. "Foi retirando cada vez mais os excessos, tudo ficou muito contido, mas não sem cor. Cada história tem sua música, um tapete emocional sobre o qual pisamos."Rodolfo Vaz já mergulhou no universo desse autor. Foi premiado por sua atuação em Salmo 91, espetáculo baseado em outro livro de Drauzio Varella, Carandiru, adaptação do Dib Carneiro Neto, dirigida por Gabriel Villela. "São registros de interpretação muito diferentes. Esse dois atores - não personagens - de Por Um Fio estão pensando alto, nunca fazendo cena. Eles narram aqui e ali, ora são mãe e filho, ora paciente e médico, ora um casal, numa dinâmica saborosa. Mas a matéria que moldamos é a do entendimento, não da emoção."Entre as histórias, estruturadas em pequenos contos (leia abaixo), 11 foram escolhidas. No Festival de Curitiba, por onde o espetáculo passou, o público emocionou-se, mas também riu de algumas delas. E há mesmo humor, por exemplo, na história do homem cuja mulher insiste para que se torne evangélico. O atrito entre o que ele considera retidão e o que presencia em sua primeira visita à igreja, e sua reação a tal choque, provoca uma gargalhada no público.Drauzio Varella conta que ficou estupefato quando Moacir Chaves pediu os direitos de montagem, e mais ainda quando ele disse que não haveria adaptação. Mas gostou das apresentações que acompanhou, uma delas no Theatro São Pedro de Porto Alegre. "Adoro e espetáculo, seu tom intimista, a proximidade que estabelece com o público", diz. Pode parecer simples, mas Chaves conta que precisou de muito ensaio para atingir o tom de "secura suave" desejado. "O texto é muito rico, muito forte, nada precisa ser reiterado. Não queremos palavras molhadas, pieguice. Tudo tem de ser seco."O tema assusta? "Tenho convicção de que Por Um Fio é popular", diz Chaves, a partir de sua percepção das apresentações já realizadas fora de São Paulo. "Não somos sádicos, queremos acolher o público e não fazê-lo sofrer. As pessoas escutam em silêncio e ficam muito tocadas. Descubro que elas querem ouvir essas vivências e isso dá esperança, porque não há futilidade nessa relação. Entre as histórias, está a de Vicente, que ganha mais quatro anos de vida e nesse período casa, é promovido, tem filho. "E nós, o que fazemos com nosso tempo?"

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