Por trás do dia-a-dia de uma ''''instituição inviável que existe''''

Sofrendo com dívidas, companhia aposta na dedicação dos membros para sobreviver

Jefferson Del Rios, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2007 | 00h00

Filha de judeu-russo e de inglesa, Ariane Mnouchkine ostenta uma personalidade fortíssima entre Catarina, a Grande, da Rússia, e um De Gaulle mais recente. É provável que, se souber, venha odiar esta definição nem tanto descabida. Catarina modernizou a sociedade russa (século 16) encarnando o despotismo esclarecido. De Gaulle e sua enorme tenacidade salvaram a França na 2ª Guerra Mundial. Ariane, contra todas as evidencias econômicas desfavoráveis e a indiferença de alguns governos, estabeleceu nos arredores de Paris um dos melhores grupos teatrais do mundo.Ali, com perdão da antiga imagem soviética, reina um "coletivismo" que reúne nas obrigações e direitos desde os intérpretes mais dotados aos bilheteiros. Esta congregação do Bosque de Vincennes (longe do centro de Paris) - à distância de um Sesc Interlagos, se aqui fosse - tem o seu momento simbólico nas refeições conjuntas (compartilhadas com o público quando há espetáculos). Mas, mesmo assim, com todos iguais - sobretudo nos baixos salários - flutua palpável e onipresente a aura de Ariane Mnouchkine com sua cabeleira branca e as faces de pêssego rosado. Todos fazem tudo e se dissolvem num quase anonimato artístico mas Ariane é sempre Ariane e a consciência disso dá a ela força para dormir com uma dívida de um milhão e quatrocentos mil euros e, ao mesmo tempo, mandar voltar outro dia, com "encontro marcado" (o maníaco rendez vous francês) o pesquisador brasileiro Paulo Vieira que ousou aparecer no Soleil sem prévio aviso. Não era um penetra deslumbrado. Autor de Plínio Marcos: A Flor e o Mal, tese de mestrado na USP sob orientação de Sábato Magaldi, Vieira, um acadêmico amável da Universidade da Paraíba, achou demais este racionalismo cartesiano pouco simpático.Quanto ao dinheiro, esta é a subvenção anual do Soleil que mal cobre as dividas que se acumulam há anos e que vão sendo renegociadas a duras penas. Nos anos 1970, Ariane promoveu o "enterro da cultura" em protesto contra verbas exíguas (manifestação da qual este crítico participou anonimamente).O Soleil é uma "instituição inviável que existe", segundo Deolinda Vilhena, a brasileira que venceu as "leis" e idiossincrasias da trupe e fez um brilhante doutorado sobre a companhia (outra orientação de Sábato Magaldi). Além de analisar o sistema de produção do teatro, Deolinda tornou-se amiga da casa que conta com vários brasileiros na administração e a magnífica carioca Juliana Carneiro da Cunha no elenco.Há mesmo uma estranha e comovedora dedicação do pessoal do Soleil que recebe menos que um operário especializado francês. Em 1975, o ator Jean-Claude Penchenat já admitia que "há um elemento comum a todos que estão aqui: a situação material é muito difícil de suportar". Mérito total de Ariane congregar todos nessa paixão difícil a um teatro de pesquisa, invenção e beleza. Ela tem consciência disso ao comentar: "Nós fazemos um trabalho em profundidade, um verdadeiro trabalho de ator e sinto como uma injustiça quando me dizem: ?você é uma privilegiada porque escolheu seu ofício.? Pago muito caro por ele, não tenho outros rendimentos além do Théâtre du Soleil, nenhuma possibilidade de ajuda." Ariane de fato vive confortavelmente, mas longe do padrão da burguesia francesa. O Soleil despontou para o reconhecimento internacional com dois espetáculos impressionantes : 1789 e 1793, gigantesco painel da Revolução Francesa, da Queda da Bastilha à fase do Terror quando o movimento - como sempre na História -, passou à autofagia, devorando seus próprios filhos, como Marat, Robespierre e outros.Uma multidão de intérpretes (havia até um bom ator da Guatemala) atuando em espaços alternados reproduziam a Paris de A Marselhesa nos grandes galpões do teatro, uma antiga fábrica de munição, de onde o nome Cartucherie (de cartuchos de balas).Com o tempo, Ariane deixou o enfoque histórico para se abrir à contemporaneidade. No Festival de Avignon, em fevereiro deste ano, declarou que estava lá para encontrar mulheres e homens que dedicam uma parte de suas férias ao teatro. Reencontrar professores que retransmitem as idéias do Soleil. A escolha do espetáculo Les Éphémères decorre deste olhar compassivo e arguto sobre o fato incontornável da brevidade da vida, os encontros e, como diz ela, "os momentos que não se sabe reter". Ou seja, não se toma a Bastilha todos os dias. É o espetáculo desta mulher admirável - e seu tanto "diva gauche" na vida - que o empenho do Sesc (leia-se seu diretor regional Danilo de Santos Miranda) traz a São Paulo, em parceria com o Festival Porto Alegre em Cena. Quando o acerto final foi fechado em Paris, Ariane disse a Danilo, em bom português: "Finalmente !"

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