Por trás da violência e da morte, acha-se uma história de amor

Contos de Matriuska, de Sidney Rocha, mostram mulheres em situações extremas

Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

15 de setembro de 2009 | 00h00

Para entender as mulheres de Matriuska há que pensar na morte e no amor. "Pois a morte ensina", diz o escritor pernambucano Sidney Rocha. "Se o universo de Matriuska fosse uma peça de teatro, seria a morte o contrarregra." Novo livro de contos de Sidney, Matriuska (Iluminuras, 96 págs., R$ 35) apresenta diferentes mulheres e seus fins diversos, por meio de uma narrativa feita de camadas que se desvendam como se o leitor retirasse as cascas de uma cebola.

Para Sidney, "a forma como se morre define a vida de uma pessoa". Em Matriuska, os personagens só existem associados aos fatos de que são protagonistas ou, melhor dizendo, de que são vítimas. Os acontecimentos não se deixam revelar por inteiro: algumas brechas de luz iluminam a treva, da qual saem vivências dolorosas e extremas, como o aborto, o estupro e a pedofilia. "O horror não está nas situações, mas em como elas se banalizaram", diz. "As pessoas almoçam e jantam histórias como aquelas assistindo à televisão todos os dias, e o fazem normalmente, quase sem piscar, e isso define o nosso tempo." Segundo Rocha, todas as letras dos contos estão em minúscula "para que os leitores prestem mais atenção no que leem, no que veem."

À semelhança das matriuskas, bonecas russas que escondem dentro si outras bonecas menores, a narrativa do livro de Rocha, de 43 anos, mostra nos diferentes contos situações que dialogam entre si: a leitura se torna um jogo de esconde-esconde. "Antes escrevia em busca de um estilo. Hoje só me interessa a narrativa, o miolo do que faz as coisas girarem." O ficcionista teve o cuidado de investigar onde as palavras enfraqueciam as imagens. Neste livro, sacrificou o mais que pôde a retórica e o exibicionismo do escritor para entregar-se às exigências da narração.

A maioria dos títulos dos 18 contos emprega palavras inglesas ou nomes de produtos. "São referências ao universo do consumo feminino: tem a ver com esses milhões de dólares do mundo cosmético", diz. "É uma ironia com a segurança que o consumismo vende, que compramos e nunca recebemos."

"Vejamos quem protege a pele de quem num dos contos." Sidney Rocha se refere a Sundown, narrativa intitulada com o nome de famoso bloqueador solar. Em vez de fonte de vida e iluminação, o sol cega e seca Marisa, revelando-se a fragilidade desta personagem. "Outro produto é um brinquedo, ele fascina o mundo das menininhas com fantasia e asseio. Pois bem: veja só o que acontece no conto." Rocha fala de Barbie, que empresta o nome de famosa boneca, inventada há 50 anos. Conta a história de Zulmira,menina de 10 anos que engravida do pai.

Matriuska faz referências evidentes às mitologias grega e cristã, sobretudo no nome dos personagens. "Tudo em literatura é caso pensado: peguei carona em uma das fórmulas de James Joyce, na qual a mitologia e a banalidade têm a mesma grandeza." Também há alusões às mitologias nórdica e africana, mas o leitmotiv é a mulher. Apesar do medo e da violência, segundo Rocha, o que as mulheres querem é descobrir o prazer, mesmo havendo dor. "Estranhamente, dentro de Matriuska, as pessoas veem, de verdade, uma história de amor." Verá assim o leitor que souber, com lágrimas no rosto, descascar a cebola até o fim.

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