Polêmica em Frankfurt

O efeito da turbulência nos mercados mundiais e a controvérsia entre autores da Turquia, país convidado, marcam a feira de livros que começa hoje na Alemanha

Ubiratan Brasil, FRANKFURT, O Estadao de S.Paulo

15 de outubro de 2008 | 00h00

Sob a pesada sombra da crise mundial que assola o mercado financeiro, a Feira de Livros de Frankfurt, o maior e mais importante evento editorial do planeta, inicia hoje sua 60ª edição, prometendo um cardápio variado de polêmicas. Como em todos os anos, representantes das principais editoras do mundo reúnem-se durante cinco dias, iniciando ou definindo negócios que poderão resultar em vendas espetaculares.Outros assuntos, no entanto, deverão figurar na pauta principal. De um lado, o efeito da turbulência nos mercados financeiros globais, que ainda não foi devidamente medido mas será tema de debates durante a feira, que termina no domingo. De outro, as discussões envolvendo a Turquia, o país convidado deste ano que já desperta acaloradas trocas de farpas.A primeira aconteceu há algumas semanas, quando 20 escritores turcos anunciaram um boicote ao evento em protesto contra o convite feito a autores acusados de "ofender a nação turca", como é o caso de Orhan Pamuk, prêmio Nobel de Literatura de 2006. A medida reflete a tensão entre nacionalistas, islamitas e independentes, que domina a rotina da Turquia há alguns anos.Pamuk gerou uma onda de protestos quando, em fevereiro de 2005, em uma entrevista a uma revista suíça, afirmou: "Um milhão de armênios e 30 mil curdos foram assassinados nessas terras e ninguém, exceto eu, se atreve a falar sobre o tema." A referência ao assassinato massivo de armênios durante o Império Otomano, assim como o conflito curdo no sudeste do país, revoltou os nacionalistas, resultando em ameaças de morte e até na tentativa de destruição de seus livros, pedido por um oficial de província, mas logo anulado pelo governo turco.Outro nome polêmico é o da escritora Elif Shafak, cuja presença em Frankfurt também desagrada os nacionalistas. Ela é autora de A Bastarda de Istambul, livro em que também trata do massacre ao narrar a história de uma família turca e outra armênia. Assim, como Pamuk, Elif foi inocentada da acusação de crime contra a pátria, em 2006, mas continua na lista negra do nacionalistas.Cerca de 200 autores turcos devem participar de 350 eventos preparados de forma a apresentar uma cultura ainda pouco conhecida no estrangeiro. "Apesar de apresentar uma escrita rica e variada, a literatura da Turquia é pouco conhecida fora de seu território", comenta Jürgen Boos, diretor da Feira de Frankfurt desde 2005, que não descarta discussões acaloradas entre escritores turcos.Boos não esconde também um prazer incontido pela polêmica. No ano passado, quando a Catalunha foi a convidada, escritores espanhóis se recusaram a participar do evento, considerado por eles simpático apenas aos catalães. Boos rebateu dizendo que a maioria das editoras da Espanha tem sede em Barcelona.No próximo ano, o país convidado será a China e já se esperam debates sobre liberdade, especialmente de imprensa, e também sobre a situação do Tibet, mais especificamente a atuação do Dalai Lama. Boos garante, porém, que, ao contrário do ocorrido durante a Olimpíada de Pequim, quando autoridades chinesas tentaram esconder os assuntos mais espinhosos, tais discussões deverão estar na pauta da Feira de Frankfurt de 2009.Até mesmo o evento de 2010, que vai homenagear a Argentina, não escapou de polêmicas. Ao anunciar os nomes de Carlos Gardel, Evita, Che Guevara e Diego Maradona como representativos da cultura argentina para a Feira de Frankfurt, a presidente do comitê organizador, Magdalena Faillace, foi bombardeada pela comunidade literária, reclamando a ausência de escritores consagrados como Borges e Cortázar, que só foram incluídos depois. Mesmo assim, a gritaria continuou por conta do esquecimento de outro grande autor, Ernesto Sábato.O brasileiro Paulo Coelho, que receberá hoje na feira o diploma oficial do Guinness Book como o autor vivo mais traduzido mundialmente, elogiou ontem pela manhã, em coletiva, as possibilidades que a internet abre à literatura e pediu que as editoras não vejam os novos meios como ameaça. Para o escritor, a internet é, antes de tudo, uma possibilidade de difusão e um caminho para aumentar o número de pessoas que, além da rede, acabam, cedo ou tarde, recorrendo também ao livro impresso. COM AGÊNCIA EFENÚMEROS7milexibidores estarão em Frankfurt, representando mais de...100 paísescomo a Turquia, homenageada do ano, que vai trazer...200 escritorespara participar de alguns dos...2.700 eventosprevistos para acontecer nos...5 diasque dura a Feira de FrankfurtAVANÇO DO LIVRO DIGITAL TAMBÉM FOMENTA DISCUSSÕESDIGITAL: A discussão sobre o futuro do livro também está na pauta da Feira de Frankfurt. Especialmente a digitalização, caminho que, segundo especialistas, deverá criar uma nova geração, de leitores eletrônicos. "Faz dez anos que o livro digital está prestes a se tornar um produto de massa, mas apenas nos últimos anos é que surgiram condições para isso acontecer", observou Jürgen Boos, diretor da feira. Ele comparou um modelo antigo, o rocket book, surgido há 9 anos, e os atuais. O rocket, além de pesado, trazia uma tela que não oferecia a sensação de se estar com um livro tradicional nas mãos. Já os atuais são cômodos, de fácil manejo e sua leitura não é cansativa para os olhos. Para Boos, a tendência é que as duas formas convivam juntas, especialmente em mercados onde a presença do livro tradicional ainda é grande. "Obras que necessitam de atualização constante, como científicos, podem ter mais chance no formato digital", disse.

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