Poeta Gullar encontra erros em sua poesia

Falhas de edição foram descobertas e corrigidas para livro com obra completa

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

20 de dezembro de 2008 | 00h00

Nem o próprio poeta Ferreira Gullar suspeitava da existência de tantos erros na sua obra poética disponível nas livrarias, erros que se perpetuavam nas sucessivas reimpressões. As falhas foram descobertas e corrigidas ao longo das semanas de convivência com o crítico Antonio Carlos Secchin, responsável pela organização geral do livro que reúne a Poesia Completa, Teatro e Prosa do poeta, lançado nesta semana pela Nova Aguilar (1.264 páginas, R$ 230). Trata-se do primeiro volume inédito da nova fase da editora, que ganhou fôlego para seus lançamentos desde o acordo firmado, em junho, com a Nova Fronteira, do grupo Ediouro."A vantagem de editar um autor vivo é ter a presença dele na fixação do texto", comenta o editor Sebastião Lacerda, à frente do negócio desde que ele e seu pai, o líder político Carlos Lacerda, assumiram o controle da editora, em 1975. "Gullar e Secchin conseguiram acertar até erros na construção de versos."Outro ganho é a inclusão de textos inéditos em livro. Na seção de poesia, por exemplo, figura a obra de estréia de Gullar, Um Pouco Acima do Chão, de 1949, jamais comercialmente reeditada. Já nos textos de teatro, os destaques são os pouco conhecidos Romance Nordestino e O Homem Como Invenção de Si Mesmo. "É uma forma de reconhecimento para o autor", comenta Gullar.Tamanho cuidado é um dos destaques dos volumes da Nova Aguilar, ao lado da caprichada edição em capa dura e do papel-bíblia, esmero que encanta não apenas leitores, mas também os próprios autores. Como o poeta João Cabral de Melo Neto, cujo Poesia Completa e Prosa (1.264 páginas, R$ 230) também ganha nova versão, lançada nesta semana. Em 1994, ele ficou à porta do prédio onde morava, no bairro carioca do Flamengo, aflito por esperar a chegada de Lacerda que, naquela noite, lhe entregaria a primeira edição da obra, recém-saída do prelo. João Cabral, que morreria cinco anos depois, emocionou-se ao folhear o livro, como se enfim recebesse o certificado de mestre.A obsessão pelo texto correto foi capaz de reparar erros gravíssimos, que já estavam consolidados. E uma das maiores reparações ocorreu com a publicação da obra completa do poeta Augusto dos Anjos (1884-1914). Responsável pelo trabalho, o poeta Alexei Bueno precisou de 20 anos para concluir a pesquisa, pois, dos grandes poetas do século passado, Augusto dos Anjos era o que precisava mais urgentemente de um olhar rigoroso.Assim, o volume que a Nova Aguilar lançou em 1996 trouxe uma preciosa modificação. "Extremamente metódico, Bueno suspeitou de uma palavra em um verso", lembra-se Lacerda. "O erro só foi descoberto graças ao material de um colecionador da Paraíba: lá, Bueno constatou que uma letra foi editada de ponta cabeça, ou seja, um ?u? se transformou em ?n?, criando uma nova palavra."Inspirada na francesa Plêiade, a Nova Aguilar foi fundada em 1958 com o objetivo de privilegiar obras completas de autores consagrados, com acabamento de luxo. Com 41 escritores atualmente em seu catálogo, o trabalho é contínuo, mesmo no caso de autores já mortos. É o caso de Machado de Assis, cuja obra completa foi retrabalhada durante 15 meses para que a nova edição saísse até setembro, em tempo de participar do revival do autor, cuja morte completou 100 anos em 2008.Desde 1959, quando foi publicada a última edição da Obra Completa de Machado, o conjunto de textos reconhecidos como de sua autoria aumentou a ponto de a nova versão sair agora com quatro volumes, um a mais que a anterior. Assim, textos que antes se acreditavam escritos por ele são, na verdade, apenas traduções, como Queda Que as Mulheres Têm Para os Tolos. A pesquisa apontou ainda que outros escritos simplesmente lhe foram atribuídos por equívoco.Para 2009, estão previstos o segundo volume do Teatro Completo de William Shakespeare e a nova edição da obra poética e em prosa de Fernando Pessoa, com novos textos descobertos nos 20 vinte anos. A literatura brasileira será representada pelo Teatro Infantil Completo de Maria Clara Machado e as novas edições revistas da Ficção Completa de João Guimarães Rosa e a obra completa de Euclides da Cunha.

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