Poesia da dor

Um dos principais poetas italianos, Cesare Pavese revela, em Trabalhar Cansa, sua fixação pela solidão, amor e morte

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

14 de março de 2009 | 00h00

A solidão, o amor e a morte sempre acompanharam o escritor italiano Cesare Pavese, deixando marcas profundas em sua obra. Quando ele se suicidou, em 1950, próximo dos 42 anos, terminava, em um quarto de hotel de Turim, uma vida cuja escrita se abriu com sinceridade trágica para o fracasso, a intolerância, a não realização sexual, a fraqueza, a mulher como mediadora da existência. Vivência encontrada nos poucos livros de Pavese publicados no Brasil, pecado agora remediado com a poesia de Trabalhar Cansa, edição bilíngue com bela tradução de Maurício Santana Dias, lançada na semana passada em conjunto pela Cosac Naify e 7Letras (400 páginas, R$ 59).Trata-se de sua estreia na literatura, reunião de 70 poemas escritos entre 1930 e 1940, período em que a poesia vivia a efervescência do verso livre, inflamada pelo modernismo. A dicção de Pavese, no entanto, destoava dessa linha de construção. Inspirado em temas rurais e urbanos, como camponeses, adolescentes e bêbados que transitavam pela sua região natal (Piemonte), ele adotava uma forma mais próxima da narrativa que da poética. "O que o escritor piemontês estava propondo a seus leitores era, em primeiro lugar, uma poética sem impostação retórica, sem grandiloquência e sobretudo sem aquele inefável da poesia pura, de matriz marcadamente francesa", observa Dias, autor ainda de um precioso guia apresentado como prefácio do livro.Segundo o tradutor, o modernismo da poesia de Pavese estava em um projeto ao mesmo tempo modesto e ambicioso: construir uma poesia mais próxima da vida cotidiana. "Ele queria tentar fazer a poesia aderir à experiência e buscar romper o cerco de alienação que teria apartado a arte da vida, restituindo à experiência moderna um sentido pleno, uma fundamentação última ou totalidade perdida, mas, note-se, sem recorrer a nenhum tipo de transcendência."Nascido em uma pequena aldeia de Piemonte em 1908, Pavese recebeu educação rústica, mas sem maldade, que o levou a conhecer campos e colinas da região de Santo Stefano Belbo. Lá, em contato com a natureza, descobriu um fascínio que também o aniquilaria, provocando a impressão de se dissolver no universo, fundindo-se inteiramente à terra: "Eis-me pedra, umidade, fumaça, sumo de fruta, vento..."Quando conheceu uma cidade grande, Turim, aos 12 anos, sofreu novo conflito: embora rodeado pela civilização, como integrar suas particularidades e seus desejos ao movimento histórico? Foi a primeira incerteza entre várias que marcaram sua curta vida. Nessa fase, descobriu também a sexualidade, que ele tentou desfrutar a partir das reminiscências de infância no campo. Sua timidez, no entanto, transformou o sexo em um estranho complexo de imobilidade, não conseguindo realizar o sonho de ser amado e ter uma família. Estabeleceu, enfim, uma solidão que se tornou tão insuportável a ponto de minar as defesas que ele sempre opôs à tentação do suicídio.Na poesia se realizou, mas não no amor - daí a proximidade desses dois sentimentos, a frustração amorosa e a tendência suicida. "Não nos matamos pelo amor de uma mulher", escreveu ele em seu famoso diário, O Ofício de Viver. "Matamo-nos porque um amor, qualquer amor, nos revela em nossa nudez, miséria, inermidade, nada.""Se existe, com efeito, um escritor que habitou fundo e de forma integral uma ambiguidade sem saída, este foi com certeza Pavese", observa Ettore Finazzi-Agrò, professor de Literatura Portuguesa e Brasileira na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade de Roma La Sapienza. "Entre a sua pequena aldeia natal (Santo Stefano Belbo) e a grande cidade industrial (Turim), entre tempos díspares e ambos marcados pela incerteza (o antes e o depois em relação à 2ª Guerra, período, este, que ficou, apesar de tudo, um tempo de certezas ferozes e de incontroversas experiências), entre o empenho político e o anarquismo ideológico, entre o amor pela literatura norte-americana e a devoção à cultura nacional, entre, enfim, a opção pelo realismo e a atração inconfessada pelo decadentismo."Trabalhar Cansa compõe-se de três diferentes fases. Na primeira, estão poemas narrativos tradicionais de 1930 a 1933, que registram a união das paisagens e figuras do Piemonte rural e urbano com a influência da cultura americana que Pavese absorvia dos livros. São esses poemas iniciais que revelam seu projeto literário: uma poesia radicalmente objetiva e narrativa, antilírica.A fase seguinte é marcada pela incorporação de imagens, que vão inspirar a série Paisagem. Os poemas finais de Trabalhar Cansa, de Paternidade (1935) a Noturno (1940), apresentam uma poética mais subjetiva, que traz para o primeiro plano temas como a solidão e a inutilidade das ações. Apesar de distintos, os poemas apresentam praticamente o mesmo ritmo, ainda que a escrita compreenda o longo período de dez anos. "É óbvio que essa regularidade extrema, longe de mimetizar o real, funciona mais como uma negação da realidade em que o escritor está imerso; ou seja, quanto mais o mundo à sua volta se tornava turbulento, excessivo, veloz, caótico, mais Pavese lhe impunha uma ordem clara e precisa", observa Santana Dias, na introdução.Trabalhar Cansa foi inicialmente publicado em 1936, pela revista Solaria, com poemas compostos até 1935; em 1942, o próprio Pavese fez, pela editora Einaudi, uma edição excluindo sete poemas da publicação anterior. Esses poemas foram também traduzidos por Santana Dias e incluídos em sua tese de doutorado - um deles, Disciplina Antiga, o Estado publica aqui com exclusividade.Apesar do espírito arredio, Pavese cultivou amigos fraternos como os escritores Elio Vittorini e Natalia Ginzburg. Escreveu também uma obra que impressionou o cineasta Michelangelo Antonioni, que adaptou Mulheres Sós em As Amigas - o diretor dizia que fora atraído pelos personagens femininos.O fim trágico de Pavese, aliás, foi anunciado nesse Mulheres Sós, escrito em 1949: ali, a protagonista morre da mesma forma, em um quarto de hotel, tomando uma dose letal de soníferos. O ato já inspirara uma anotação em seu diário: "A dificuldade de praticar o suicídio está nisto: é um ato de ambição que só pode ser realizado depois de superada toda a espécie de ambição". Poema ExclusivoDISCIPLINA ANTIGA*Os que bebem não sabem falar às mulheres,se perderam de tudo, e ninguém os aceita.Andam lentos na rua, e as ruas e postesnão têm fim. Alguns deles dão giros mais longos,mas não há o que temer: amanhã eles voltam pra casa.O que bebe imagina que está com mulheres- como os postes à noite são sempre os mesmos, assimas mulheres são sempre as mesmas -; nenhuma o escuta.Mas o bêbado tenta, e as mulheres não o querem.As mulheres, que riem, conhecem de cor suas palavras.Por que riem assim as mulheres ou gritam, se choram?O homem bêbado quer e deseja uma bêbadaque o ouvisse calada. Mas elas o atiçam:"Para ter esse filho, é preciso contar com a gente."O homem bêbado abraça-se ao bêbado amigoque esta noite é seu filho, nascido sem elas.Como pode umazinha que chora e que gritadar-lhe um filho amigo? Se aquele é um bêbado,não recorda as mulheres no andar inseguro,e esses dois perambulam em paz. O filhinho que contanão nasceu de mulher - pois seria mulhertambém ele. Caminha com o pai e conversa:toda a noite iluminam-lhe os passos os postes.*Poema cortado pelo autor na edição final

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