Poemas de amor, sonho e guerra

Quase ignorada, obra poética de Euclides da Cunha é reunida em livro e renova os estudos sobre o autor

, O Estadao de S.Paulo

23 de agosto de 2009 | 00h00

1. MEU CARO COELHO NETO: Meu caro Coelho Neto,/ felizmente/ Esta fisionomia,/ De onde ressalta a ríspida expressão/ Da face de um tapuia, espantadíssima,/ Hás de achá-la belíssima.../ Porque saberás ver, nitidamente,/ Com os raios X da tua fantasia,/ O que os outros não veem: um coração... São Paulo, 19032. SE ACASO UMA ALMA SE FOTOGRAFASSE (I): Se acaso uma alma se fotografasse/ De modo que nos mesmos negativos/ A mesma luz pusesse em traços vivos/ O nosso coração e a nossa face;// E os nossos ideais, e os mais cativos/ De nossos sonhos... Se a emoção que nasce/ Em nós, também nas chapas se gravasse/ Mesmo em ligeiros traços fugitivos.// Poeta! tu terias com certeza/ A mais completa e insólita surpresa/ Notando, deste grupo bem no meio,// Que o mais belo, o mais forte e o mais ardente/ Destes sujeitos, é precisamente/ O mais triste, o mais pálido e o mais feio... Manaus, 2 de fevereiro de 053. PÁGINA VAZIA:Quem volta da região assustadora/ De onde eu venho, revendo inda na mente/ Muitas cenas do drama comovente/ Da Guerra despiedada e aterradora,// Certo não pode ter uma sonora/ Estrofe, ou canto ou ditirambo ardente,/ Que possa figurar dignamente/ Em vosso Álbum gentil, minha Senhora.// E quando, com fidalga gentileza, cedestes-me esta página, a nobreza/ Da vossa alma iludiu-vos, não previstes// Que quem mais tarde nesta folha lesse/ Perguntaria: "Que autor é esse/ De uns versos tão mal feitos e tão tristes"?!Bahia - 14 Outubro de 97 (Escrito no álbum da médica Francisca Praguer Fróes)4. AMOR ALGÉBRICO: Acabo de estudar - da ciência fria e vã/ O gelo, o gelo atroz - me gela ainda a mente/ Acabo de arrancar a fronte minha ardente/ Das páginas cruéis de um livro de Bertrand.// Bem triste e bem cruel decerto foi o ente/ Que esse Saara atroz - sem auras, sem manhã/ A álgebra criou - a mente a alma mais sã/ Nele vacila e cai sem um sonho virente...// Acabo de estudar e pálido, cansado/ Dumas dez equações os véus hei arrancado.../ Estou cheio de spleen, cheio de tédio e giz// É tempo, é tempo pois de trêmulo ansioso/ Ir - dela descansar no seio venturoso/ E achar de seu olhar o luminoso X!... (Escrito em um caderno de notas, em 1885) 5. D. QUIXOTE: Assim à aldeia volta o da triste figura/ Ao tardo caminhar do Rocinante lento;/ No arcabouço dobrado um grande desalento,/ No entristecido olhar uns laivos de loucura.// Sonhos, a glória, o amor, a alcantilada altura,/ Do ideal e da fé, tudo isto num momento,/ A rolar, a rolar, num desmoronamento,/ Entre risos boçais do bacharel e o cura.// Mas certo, ó D. Quixote, ainda foi clemente,/ Contigo a sorte ao pôr neste teu cérebro oco,/ O brilho da ilusão do espírito doente;// Porque há cousa pior: é o ir-se a pouco e pouco/ Perdendo qual perdeste um ideal ardente/ E ardentes ilusões e não se ficar louco. (Poema datado de 1890).FONTES: EUCLIDES DA CUNHA: POESIA REUNIDA (EDITORA UNESP), ORGANIZAÇÃO DE FRANCISCO FOOT HARDMAN E LEOPOLDO BERNUCCI, COM LANÇAMENTO PREVISTO PARA OUTUBRO; E CADERNOS DE LITERATURA BRASILEIRA - EUCLIDES DA CUNHA (IMS, 2002)

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