''Podem me xingar de comunista, mas não de fascista''

Dois anos após título incorreto do jornal, autor volta a conversar com o Estado

Entrevista com

O Estadao de S.Paulo

26 de novembro de 2008 | 00h00

Fazia dois anos que José Saramago não conversava com o Estado. O motivo foi a discordância do escritor em relação a uma reportagem publicada em 2006, a partir do lançamento de As Pequenas Memórias, um ensaio autobiográfico. Mais especificamente sobre um determinado trecho em que Saramago narra como, aos 13 anos, foi incorporado à Mocidade Portuguesa, ou seja, à juventude que apoiava o ditador português Antônio Salazar."Era um garoto e, em um determinado dia, ao chegar à escola, eu e meus colegas fomos informados de que passaríamos a integrar a Mocidade", disse o escritor, que rechaçou, assim, o título da matéria, "Eu fui salazarista". "Eu nunca disse essa frase." Segundo o escritor, àquela idade, não seria possível fazer uma adesão consciente ("foi algo automático"), diferente, aliás, do que se passou com o alemão Günter Grass, também Nobel de Literatura, que confessou na autobiografia Nas Peles da Cebola (Record) ter pertencido à Juventude Hitlerista, causando grande polêmica. "Isso aconteceu quando Grass já era um rapaz, portanto, consciente de seus atos. Mesmo assim, depois ele teve uma responsabilidade cívica intocável."O episódio está descrito na página 131 da autobiografia de Saramago. Em 1936, quando começava a Guerra Civil Espanhola, ele, jovem estudante de uma escola industrial, leu nos jornais sobre o conflito, acompanhou o desenrolar dos combates e percebeu que estava sendo ludibriado pelos militares reformados que censuravam a imprensa. Essa foi a razão por que, mandado pelos colegas ao Liceu de Camões para apanhar sua farda verde e castanha da Mocidade Portuguesa, deu um jeito de ficar no fim da fila até que se esgotasse o estoque dos malditos barretes e calções de Salazar.Saramago julgou o foco do texto publicado no Estado como sensacionalista. "Minha trajetória mostra que jamais fui oportunista, política ou culturalmente", disse ele, entendendo que o jornal havia, portanto, não cometido um erro, mas agido intencionalmente em acusá-lo. "Uma surpresa vinda de um órgão de comunicação ao qual nunca neguei uma opinião ou uma entrevista, um jornal que, para muitos, é como uma bíblia laica de questões políticas e sociais", afirmou. "Poderiam me chamar de comunista que, para muitas pessoas, soa como xingamento, e não para mim; mas jamais de fascista." Para o escritor, não houve erro, mas "uma falta intencional". Como não recebeu na ocasião a retificação que julgou necessária, especialmente em relação ao título da matéria, Saramago então decidiu não mais conceder entrevistas ao jornal.O silêncio foi superado nesta segunda-feira, depois de uma reunião do escritor com editores e o diretor de redação, em que se repassaram as circunstâncias da matéria e suas repercussões.O Estado jamais pretendeu agir com intencionalidade em relação ao escritor José Saramago. Ao contrário, sempre ressaltou sua consciência política e inabalável disposição em defesa dos direitos humanos. Tratou-se de uma edição infeliz, que merecia, de fato, ter tido correção à época. No momento em que Saramago volta ao Brasil para divulgar seu mais recente livro, atraindo o enorme público que o admira, as relações entre escritor e jornal foram restabelecidas, ato selado com a entrevista acima.

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