Piruetas de um príncipe acrobático

Wagner Moura encabeça montagem vital, mas cheia de certas esquisitices

Jefferson Del Rios, O Estadao de S.Paulo

04 de julho de 2008 | 00h00

No início do espetáculo, o público é surpreendido com a entrada de Wagner Moura, a pessoa, não Hamlet. Sorri, diz boa noite e uma evidência se impõe: estamos diante de um dos mais talentosos e simpáticos atores da atualidade; e da mais fina estampa.Ele faz rápida explicação sobre a divisão da peça em dois atos, etc., para deixar claro que não se trata de teatro ilusionista. É simulação, jogo. A já mítica obra de William Shakespeare (1564-1616) passará por um processo de "construção e desconstrução", assim como o encenador inglês Peter Brook reduziu Hamlet quase exclusivamente à atuação do protagonista, um ator negro. Houve polêmica, mas dessacralizar os clássicos evita a museologia. Em seguida, Wagner Moura assume a armadura medieval e, numa fração de segundo, passa a personagem. O enredo, que na superfície é a saga do príncipe que vinga a morte do pai, Rei da Dinamarca, tem um labirinto de tramas sinistras, idas e vindas e aparições fantasmagóricas até o desfecho trágico. Das inúmeras revisões da peça desde sua estréia, a mais benéfica foi a de tirar o ar ensimesmado que o romantismo colou em Hamlet. O nobre, por esse prisma, sofria longamente a dúvida "do ser ou não ser" antes de assumir a política na crua verdade da violência física e direta. O teatro brasileiro registra a revelação de Sérgio Cardoso, aos 22 anos, com uma chama pessoal superior ao estilo impostado da época (1948). A menção histórica eleva os méritos de Wagner Moura, que sucede intérpretes da grandeza de Sérgio Cardoso, Walmor Chagas e outros. Ele cumpre o que o diretor Aderbal Freire-Filho disse ao Estado: "O fascinante de Hamlet é sua força de atração. Mesmo quem não conhece nada da peça fica tomado por ele." Acrescentou ainda, com elegante ironia "estar recuperando, presunçosamente, certos detalhes que parte da crítica não entende". De fato, as pessoas freqüentemente não entendem muitas coisas. Gente de alto intelecto incorre sim, às vezes, em besteiras oceânicas. O poeta T.S. Eliot, por exemplo escreveu que Hamlet "é artisticamente um fracasso". Imaginem só, um mestre da mesma língua de Shakespeare, um Prêmio Nobel, dizer uma coisa dessas. O mundo esteve fora dos eixos.Em amigável ironia podemos adiantar que Aderbal entrou em ação para consertá-lo. Está em boa companhia. O ensaísta Harold Bloom dissecou o dramaturgo peça por peça em 896 páginas de Shakespeare - A Invenção do Humano e foi ao ponto ao defender que "Hamlet não é, na verdade, a tragédia de vingança que finge ser. É o teatro do mundo, como a Divina Comédia, Paraíso Perdido, Fausto, Ulisses ou Em Busca do Tempo Perdido" (europeísta, Bloom deixou de lado Grande Sertão: Veredas , com a mesma amplidão).Hamlet tem o seu lado aventuresco. Shakespeare dirigia-se a uma platéia popular ávida de emoções fortes. Alguns captaram tudo, outros não, mas os pensamentos de Hamlet são iluminações de inteligência crítica. Enfim, chegamos ao espetáculo atual. A complexa visão shakespeariana da humanidade é mostrada em frases que, garante Aderbal, mesmo "quem não conhece nada da peça fica tomado por ela". O problema é que a direção não valorizou essas passagens. Não levou nenhum intérprete a dar a elas a densidade que nos pegasse mais fundo (pausa, melhor dicção, olhar, algo assim). Palavras imortais são ditas de lado, de costas ou meio que atiradas ao acaso. Paulo Francis relembrou que Lawrence Olivier em Ricardo III, quando o rei se vê derrotado, emitia o grito tremendo da raposa com a pata dilacerada pela armadilha de ferro. Inglês entende de raposa, e Shakespeare não fez essa rubrica. Olivier inventou o efeito.A montagem é vital, mas com esquisitices. O enredo é localizado em ambiente nobre, mas eis que surgem uns toques proletários com atores de gorro, camisetas apertadas na barriga, e umas falas moles ao jeito "mano" de periferia. Não é heresia, mas desafina a orquestração geral, assim como vestir Hamlet à la grunge (as calças amassadas, caídas e sanfonadas do "doce príncipe"). Ou se muda tudo como no filme ambientado em Nova York das multinacionais (com Bill Murray e Sam Shepard) ou fiquemos nas brumas nórdicas.Teria sido melhor investir na interpretação da bela e jovem Georgiana Góes (Ofélia) ou diminuir um pouco a linha dada ao bom Gillray Coutinho, que chega perto dos trejeitos do ator inglês Donald Pleasence (basta conferir em Armadilha do Destino, de Polanski). Questão de medida.Ao mesmo tempo, talvez por haver "mais coisa entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia", a representação deriva para uma linha semi-acrobática agitadíssima. Wagner Moura quase faz sozinho o espetáculo. Se o Hamlet original simula loucura, aqui ele a leva a extremos com piruetas e tiradas em falsete. Mas é um esplêndido ator. Quando ódio e ou dor são necessários, seu rosto se transfigura numa máscara de total intensidade.Quis um belo acaso que, dias atrás, a realidade mudasse a fantasia. Ao final do espetáculo, foi anunciado o aniversário de Wagner Moura. Entre aplausos e flores colocaram uma criança de um ano em seus braços. Pois é mesmo o filho dele. De repente, Hamlet (que não se casa com Ofélia e morre) está caminhando para o camarim, vivíssimo e um pai feliz. Shakespeare certamente aprovaria tão belo desfecho do Hamlet-Moura.

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