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Pioneiros contemporâneos são reunidos em setor da SP-Arte

Com curadoria de Jacopo Crivelli Visconti, a mostra Repertório explora relações pouco usuais entre artistas como Niobe Xandó, Richard Long e Michelangelo Pistoletto

Mario Gioia, Especial para o Estado de S. Paulo

05 Abril 2017 | 04h00

Feiras de arte, em âmbito mundial, estão num movimento contínuo rumo a uma investigação mais próxima do institucional – com maior número de seções com curadoria e espaços para trabalhos menos comerciais, como os de performance e videoarte. Percebendo isso, o crítico italiano radicado em São Paulo Jacopo Crivelli Visconti discutiu com a organização da SP-Arte a criação de um espaço dedicado a nomes históricos e que poderiam conversar entre si de modos mais inusuais do que já foi visto anteriormente.

Assim nasceu Repertório, que abriga 16 galerias de variados pontos do mundo a exibir obras de 26 artistas nascidos até o fim dos anos 1940, cujas peças tenham sido feitas até os anos 1980. Entre eles, pesos pesados do circuito contemporâneo mundial, como o norte-americano Dan Graham, o italiano Michelangelo Pistoletto e o britânico Richard Long. Todos estiveram à frente de movimentos hoje essenciais para a contemporaneidade, como a arte conceitual (caso de Graham), a arte povera (Pistoletto) e a land art (Long), não tão incensados quando começaram, mas hoje fundamentais e influentes para as gerações posteriores.

“Muita gente esquece, mas as feiras de arte, num país como o Brasil, também possuem um fim didático, educativo. Não tenho medo disso, acho que é uma boa oportunidade para que sejam vistos artistas que não estão em coleções e museus nacionais, dada a fragilidade do nosso circuito”, avalia o curador, que diz ter contado com a adesão das galerias convidadas para exibir tal escopo de artistas. “Tudo que imaginei e pedi, veio. Imagino que para o ano que vem tenham de ser abertas inscrições, e aí se discute o que pode entrar de mais interessante.”

A presença de medalhões do circuito internacional não enfraquece a participação de nomes brasileiros. “Pelo contrário. Se o público for atento, pode perceber relações pouco vistas entre artistas que aqui não são tão valorizados, como Niobe Xandó (1915-2010), com esses grandes do exterior. E haverá séries pouco conhecidas de artistas bem estabelecidos, como Carlos Vergara”, diz ele. Além de Niobe, discutindo a matriz afro-brasileira, também serão exibidas obras de Rubem Valentim (1922-1991) e Mario Cravo Neto (1947-2009) – que agora será representado pela galeria Millan, de São Paulo. Em Repertório, suas obras vêm da italiana Paci Contemporary, de Brescia. 

Uma presença de peso será a da galeria japonesa Taka Ishii, com 11 de seus representados, entre eles fotógrafos históricos como Kansuke Yamamoto (1914-1987), ligado à poesia e ao surrealismo, e artistas ainda vivos, como Daido Moriyama, de obra pouco afeita a classificações. “Muitos deles têm relações com o que conhecemos aqui de fotografia moderna brasileira, e traçar esses elos menos óbvios foi o que eu tentei.”

A seção também traz algumas boas surpresas para o público brasileiro, como a produção de Pino Pascali (1935-1968), artista ligado à arte povera que morreu jovem, quando sua obra começava a gerar mais interesse. Nascido na Puglia e radicado em Roma, estava ligado a artistas como Jannis Kounellis (1936-2017), esse que se tornou um dos mais importantes da Itália contemporânea. “A obra de Pascali tem um lado mais divertido, irônico, e na Itália é estudada, provoca interesse, mas por aqui ainda não é muito conhecida”, afirma Jacopo.

Da gigante norte-americana Marian Goodman e da italiana Franco Noero, de Turim, vêm as peças do alemão Lothar Baumgarten. Especialmente com filmes e instalações, a abordagem do artista sobre natureza e cultura, além de uma leitura crítica sobre relações de poder e apropriação cultural, tem sido exposta e integrado coleções de grandes museus. No Brasil, apenas Fragmento Brasil (1977-2005) pode ser vista, em Inhotim (MG). “É uma chance para nos aproximarmos da sua produção, tão desenvolvida por viagens e expedições que ele realizou na Amazônia e com grupos locais, como o dos ianomâmis, por exemplo”, diz o curador. Nesse sentido, também ganham mais visibilidade os trabalhos da paulista radicada em Nova York Lydia Okumura, cuja obra agora passa por revisão, tendo sido exibida recentemente na cidade no Centro Cultural São Paulo, em 2015, e no espaço experimental Auroras e na galeria Jaqueline Martins, que a representa, até o mês passado.

O espaço expositivo de Repertório, ao contrário do setor Open Plan – cuja curadoria Jacopo assinou no ano passado e tinha trabalhos especialmente feitos para o evento –, vai ser dividido em estandes, como na maior parte do pavilhão. “É mais fácil para as galerias organizarem a expografia. Não perderemos nada exibindo as obras em paredes”, acredita.

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