Pinturas em que o céu se desmancha

Marina Saleme apresenta conjunto de novas obras realizadas desde 2007, nas quais questiona a permanência das coisas

Camila Molina, O Estadao de S.Paulo

04 de março de 2009 | 00h00

No ateliê da pintora paulistana Marina Saleme, no bairro de Pinheiros, as telas são criadas todas ao mesmo tempo. Com várias camadas de tinta e pinceladas fortes, a artista adota um fazer lento, em que vai inserindo elementos ou mesmo apagando-os aos poucos - quanto mais dúvida ela tem, como já disse, mais verdadeiro é o embate com a pintura. "Fico questionando a figura e o espaço o tempo inteiro", diz Marina, que acaba de inaugurar na Galeria Luisa Strina a mostra Liquid Paper, na qual apresenta um grupo de suas mais novas pinturas, realizadas desde o fim de 2007."Tudo o que é sólido se desmancha no ar", escreveram Marx e Engels, mas a frase se transforma apenas em uma imagem para se pensar nas pinturas de Marina Saleme: em suas telas, é o céu que vai desmanchando e caindo sobre a parte inferior de suas composições - tanto que uma das telas, em roxo e metálico, tem o título literal de Céu Despencando (2008). "Para mim, são paisagens com pessoas ou sem pessoas, mas não é uma narrativa", diz a artista, muitas vezes caracterizada por uma pesquisa pictórica de limite entre a figuração e a abstração. Mas o que Marina propõe em suas obras vai além dessa dicotomia, melhor seria dizer que ela está interessada em colocar na tela uma metáfora maior sobre o mundo: trata do laço entre o que existe e não existe; faz o jogo entre permanência e impermanência (suas figuras, afinal, se transformam em sombras?) O ato de pintar, diz Marina, é como o de fazer um texto "quando não tinha computador". É lento, puxa-se uma frase para cá e outra para lá, apaga-se, vê-se o que ficou - e para o olhar é o mesmo também, aos poucos as coisas se revelam na experiência frontal com as telas.A densidade e a leveza características dessa pesquisa promovem um movimento dos elementos na composição, ou seja, o céu e o chão das paisagens da artista pesam ou têm vontade de fluir e serem etéreos. E a cor, algo tão próprio da pintura, se transforma "em ferramenta" para "configurar o espaço", como diz a artista. "É a tinta que questiona a existência das coisas. A cor, para mim, é estruturante, não é a que vou usar para pintar o rio", afirma ainda Marina apontando como exemplo a área inferior verde da obra Por Trás de Tudo Isso (2008/2009), de 4,50 m x 2,90 m, a maior da exposição e recusando a definição simples de ser uma colorista.Na maioria das telas da exposição a figura humana não está presente - somente em Por Trás de Tudo Isso e na tela Atados, de 2008, em que duas "pessoas" estão imersas em uma paisagem de rosas vibrantes e vermelhos. Em outras, é uma trama de losangos (característicos das criações da pintora), de arabescos (esses novos em sua composição) ou de laços, soltos, que também estrutura o que está em cima e o que está embaixo em suas composições. Afinal, o tempo todo sua pintura trabalha no embate de uma inversão entre céu e chão. A Galeria Luisa Strina também exibe em segundo piso a obra Canteiro, de Gilberto Mariotti. ServiçoMarina Saleme e Gilberto Mariotti. Galeria Luisa Strina. Rua Oscar Freire, 502, tel. 3088-2471. 2.ª a 6.ª, 10 h/19 h; sáb., 10 h/17 h. Grátis. Até 3/4

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