Pina Estação
Pina Estação

Pintores de diferentes gerações unidos por mostra

A Pina Estação exibe até 17 de setembro pinturas de seis artistas de épocas diferentes que elegeram a síntese em suas obras

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

21 de julho de 2018 | 06h00

Seis pintores de diferentes gerações e origens estão reunidos numa atraente exposição coletiva que ocupa o segundo andar da Pina Estação até 17 de setembro: Mínimo, Múltiplo, Comum. Ao lado de veteranos como o mineiro Amadeo Lorenzato (1900-1995), da pintora de origem alemã Eleonore Koch, nascida em 1925, e do chinês Chen Kong Fang (1931-2012) – os três radicados no Brasil – destacam-se três pintoras da nova geração que, de alguma forma, segundo o curador da mostra, José Augusto Ribeiro, trabalham num registro muito próximo ao dos artistas anteriormente citados, consideradas, obviamente, as diferenças de linguagem.

Em todo caso, o curador destaca como características que promovem esse diálogo entre gerações a busca por uma figuração sintética, no limiar da abstração, a inclinação por espaços vazios e, em alguns casos, uma certa ligação com a tradição da pintura metafísica. As mais de 100 obras que compõem a exposição, pertencentes a 60 coleções públicas e privadas, foram produzidas dos anos 1960 em diante, sendo algumas inéditas e pintadas recentemente.

“São cinco décadas de produção representadas numa exposição que tem, entre os veteranos, pintores associados a uma suposta ‘ingenuidade’ de procedimentos, talvez pelas construções espaciais estiradas, paralelas ao plano bidimensional dos suportes, sem uso da perspectiva”, observa o curador, concluindo que, “são aspectos que descrevem qualidades fundamentais da pintura moderna”.

Começando por Lorenzato, que só recentemente foi reconhecido fora da capital mineira, após passar pelo menos três décadas (até sua morte) rotulado como “primitivo”, a simplificação trouxe com ela dificuldades para ver a pintura desses artistas sem buscar referências eruditas que, de algum modo, ajudassem a identificar (ou legitimar) os traços modernos desses trabalhos. Afinal, uma tela de Eleonore Koch traz embutida uma carga considerável de elementos que podem ser associados tanto à tradição metafísica como interpretados numa chave fenomenológica.

A pintura de Eleonore Koch é certamente o caso mais extremo – e a leitura fenomenológica pode ser um caminho seguro para entender que nessas telas, de uma presença forte, essência e existência são praticamente sinônimos. O parque inglês pintado no fim dos anos 1960 reproduzido nesta página é um bom exemplo. A rigor, ele é tão misterioso como o parque de Blow Up, de Antonioni, pois nele a vida é intensa, embora a placidez do ambiente mostre justamente o contrário. A intensidade emocional provocada pela observação dessa natureza é contida pela redução a campos de cor que contrariam o derrisório naturalismo para contemplar a zona intermediária entre o visível e o invisível (e, não casualmente, Koch usa fotos como modelos dessas pinturas).

Pintora mineira, Patrícia Leite, que começou a pintar nos anos 1980, tem por espaços vazios o mesmo apreço – e, coincidentemente, ela replicou as últimas cenas de Zabriskie Point, de Antonioni, numa série de telas e pintou outra série, Veneza (na mostra), dedicada a Volpi, mestre de Eleonore Koch.

O repertório das pintoras da geração de Patrícia, ou mais novas, como Marina Rheingantz, aliás, é mais ou menos comum a todas, segundo o curador, que cita como referências modernas e contemporâneas das artistas o francês Manet, o belga Luc Tuymans, o alemão Gerhard Richter e, principalmente, o norte-americano Richard Diebenkorn (1922-1933), expoente do expressionismo abstrato que liderou o movimento figurativo Bay Area nos anos 1950 e 1960. De fato, o que mais se destaca nas três pintoras, especialmente no caso de Marina, é o apego à construção de extensos campos de cor, próximos ao de Diebenkorn.

Já Vânia Mignone usa essas largas áreas de superfície plana de modo diverso, recorrendo à linguagem publicitária e aos quadrinhos, sem desprezar a intensidade cromática característica do Bay Area. Num políptico que acompanha um casal em frente a um hotel, predomina um vermelho agressivo, sensual, que, de maneira análoga à técnica literária do cut-up, remonta uma história de dois seres solitários em pinturas independentes que, rearranjadas, formam um conjunto com aparência híbrida de HQ e paisagem noturna de Goeldi.

Mignone recorre, inclusive, a frases, como fazia Lorenzato. No entanto, as letras são também imagens, no caso do mineiro. Uma natureza-morta pode se transformar num comentário jocoso sobre o gênero quando uma manga da camisa é deliberadamente confundida com uma fruta. Já Fang fez do gênero e da reprodução de objetos apenas um pretexto para a pintura. Há nesse ato algo do procedimento de Morandi (considerada a abissal distância entre eles). O fato é que o italiano é mesmo incontornável. 

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