Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Pintor alemão Wolfram Ullrich expõe obras e lança livro na Galeria Raquel Arnaud

Obra do artista mostra que não havia motivo para rusgas entre os movimentos concreto e neoconcreto na arte brasileira dos anos 1960

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2020 | 05h00

O pintor alemão Wolfram Ullrich acabara de nascer em Würzburg, Alemanha, em 1961, quando concretos e neoconcretos brasileiros viviam às turras, embora frutos das mesmas raízes (construtivismo russo e Bauhaus, fundamentalmente). Passadas quase seis décadas, Ullrich, mesmo involuntariamente, prova que não existiam mesmo razões para essa ruptura entre concretos paulistas, racionalistas, e neoconcretos cariocas, defensores do resgate da subjetividade e contrários à ortodoxia dos primeiros. Sua exposição de relevos monocromáticos e desenhos, aberta nesta terça, 27, na Galeria Raquel Arnaud, reúne o melhor do esforço construtivo dos concretos e a liberdade cromática dos neoconcretos.



A rigor, Ullrich não pensou em nada disso quando organizou a mostra – sua segunda individual na galeria de Raquel Arnaud, que retoma o ritmo vibrante da opção da marchande pelo construtivismo que marcou sua trajetória. Ullrich é um dos concretos renomados da histórica galeria Denise René de Paris e lançou nesta terça, na galeria de Raquel, um livro com a chancela do Museum für Konkrete Kunst de Ingolstadt, templo alemão da arte concreta, onde suas obras figuram entre as favoritas dos visitantes. É um resumo de uma carreira que começou em 1983, em plena ebulição da arte neoexpressionista dos “novos selvagens alemães' (Neue Wilden) – Baselitz, Penck, Polke, Salomé.

Ullrich passou ao largo desses “novos selvagens’. Não tinha nada a ver com os artistas citados, nem mesmo com Anselm Kiefer, que se destacou entre eles. “Minha formação é mais ligada à herança minimalista, que marcou a Alemanha no pós-guerra.” De fato, é possível identificar em alguns relevos do artista alemão um parentesco distante com obras de Donald Judd ou Ellsworth Kelly, para citar apenas dois dos maiores minimalistas – Frank Stella é outro nome que pode ser evocado. Ullrich tem formação acadêmica. Estudou na Universidade de Stuttgart (inclusive História da Arte) e não fica surpreso como ideias semelhantes brotam em diferentes lugares.

Digo, por exemplo, que as esculturas do neoconcreto Amilcar de Castro usam o mesmo princípio de corte e dobra de algumas obras tridimensionais de sua exposição, inclusive no que se refere à ação do tempo (ferrugem) sobre o material e a preservação da unidade interna da escultura. Ullrich não conhecia a obra de Amilcar, assim como desconhece as séries Bilaterais e Relevos Espaciais (1959) de Oiticica, obras em que as formas conquistam o espaço como acontece nos objetos (ele prefere “pinturas”) de Ullrich, que saem das paredes da galeria, forjando uma nova perspectiva.

Os desenhos (em preto e branco) são parte dessa pesquisa por novas formas – curiosamente, também remetem a Amilcar ou a Richard Serra. Ullrich fez durante muito tempo séries relacionadas a quadriláteros (lembranças de Malevitch e Albers), mas obras recentes provam que a forma circular começa a tomar força em seu trabalho – isso aconteceu, segundo ele, por volta de 2016. “Uma simples dobra no papel levou ao círculo e essas linhas curvas resultaram em estruturas mais dinâmicas”, justifica, em frente a um objeto de aço pintado com tinta acrílica.

“O corte no aço torna visível a tensão entre o interno e o externo”, diz Ullrich diante de uma peça oxidada e vazada que interage com o espaço da galeria. E os desenhos expostos ao lado – óleo sobre papel – tornam explícitos esses cortes incisivos no metal. É a resistência do aço que o atrai. E, naturalmente, a vibração da cor.

Tudo o que sabemos sobre:
artes plásticasWolfram Ullrich

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.