Sérgio Guerini/Pinacoteca do Estado
Sérgio Guerini/Pinacoteca do Estado

Pinacoteca recebe obras raras da Coleção Ioschpe

Conjunto de 301 peças de arte de todos os períodos da arte brasileira será entregue hoje em comodato à instituição paulista

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

13 de novembro de 2019 | 06h00

Um impressionante conjunto de 301 obras de arte brasileira de todos os períodos, com enfoque no modernismo, estará, a partir de hoje, sob a guarda da Pinacoteca do Estado. A cerimônia de assinatura do comodato com a Coleção Ioschpe será realizada hoje, 13, a partir das 10h30, no Octógono do museu. Um conjunto de 12 obras desse acervo, pertencente ao casal Evelyn e Ivoncy Ioschpe, incorporadas à exposição permanente, já pode ser visto na Pinacoteca – e certamente vai ajudar o visitante a entender melhor a produção de cada período da arte, relacionando telas de Tarsila e Antonio Gomide ao primeiro modernismo e os contemporâneos Milton Dacosta, Lygia Clark e Ivan Serpa à produção posterior aos anos 1950.

A coleção Ioschpe vem agregar ao acervo da Pinacoteca um conjunto de grande importância histórica, dialogando também com outras coleções cedidas em comodato à instituição, como a do casal José e Paulina Nemirovsky (269 obras) e a do empresário Roger Wright (178 obras). No total, o acervo da Pinacoteca conta agora com 10.368 obras de todos os períodos artísticos desde sua fundação, em 1905. O diretor da instituição, Jochen Volz, destacou esse aporte à coleção do museu, ressaltando o compromisso social da família Ioschpe com a formação educacional do brasileiro. “Essa preocupação com a história da arte brasileira é própria de quem sempre atuou na área e tem responsabilidade pública”, disse.

A curadora-chefe da Pinacoteca, Valéria Piccoli, reiterando as palavras de Volz, lembrou que Evelyn Ioschpe começou na adolescência a colecionar obras de arte, formando uma coleção orgânica cujo núcleo moderno, aliado à produção contemporânea, vem corrigir lacunas no acervo da instituição. “A Pinacoteca tem muitos artistas de São Paulo e poucos do Sul do País, que agora serão representados com o comodato”, observa, citando pintores como o gaúcho Iberê Camargo, um dos grandes nomes da arte brasileira, aluno de Giorgio De Chirico.

Além de Iberê, contemporâneos seus pintores, como Eduardo Sued e Volpi, estão entre os artistas da coleção Ioschpe que passa em comodato à Pinacoteca. De períodos anteriores, Parreiras, Castagneto, Visconti, Oscar Pereira da Silva e Weingartner destacam-se como representantes acadêmicos. Há também alguns estrangeiros que fizeram carreira no Brasil (Ernesto De Fiori, Mira Schendel) e contemporâneos que são pouco representados no acervo da Pinacoteca: Cildo Meireles e Tunga, por exemplo.

“Pode-se até pensar em organizar exposições itinerantes dessa coleção para divulgar a história da arte brasileira”, cogita o diretor Jochen Volz. De fato, há na Coleção Ioschpe até mesmo exemplos da arte dos pintores viajantes, como o alemão Johann Moritz Rugendas (1802-1858), que visitou várias regiões do Brasil na primeira metade do século 19, retratando a natureza e os nativos a convite do barão Langsdorff. Também grande colecionadora de fotografias, Evelyn Ioschpe incorporou à coleção imagens raras do francês Marcel Gautherot (1910-1996), um dos primeiros fotógrafos estrangeiros a registrar a arquitetura de Brasília. Fotos dele estão na coleção cedida em comodato à Pinacoteca. O francês Pierre Verger (1902-1996) está igualmente na lista. Entre os contemporâneos, outros fotógrafos se destacam: Araquém Alcântara, Caio Reisewitz e João Luiz Musa.

Entre os vários movimentos artísticos representados na Coleção Ioschpe estão o modernista (obras de Anita Malfatti, Brecheret, Di Cavalcanti, Tarsila), o expressionista (Axl Leskoschek, Goeldi), abstracionismo informal (Antonio Bandeira), a arte neoconcreta (Hércules Barsotti, Lygia Clark) e construtiva (Sérgio Camargo), além da contemporânea (Nuno Ramos, Leonilson e muitos outros).

“Queremos ter uma coleção ainda mais diversa, que inclua artistas de outras regiões”, diz a curadora-chefe Valéria Piccoli. O mais antigo museu de São Paulo, projetado em estilo neorrenascentista por Ramos de Azevedo, ficou conhecido por abrigar um rico acervo do século 19, mas já não entrava em sintonia com os ideais republicanos em sua fundação, por não projetar o ideário estético dessa nova era. Esforços têm sido feitos desde então para atualizar essa coleção. O diretor Jochen Volz destaca a ajuda que o grupo de patronos (115 membros) tem prestado à instituição para enriquecer esse acervo, comprando obras contemporâneas.

Retratos. Entre as obras que a Coleção Ioschpe cede hoje em comodato à Pinacoteca está um raro conjunto de retratos e autorretratos de artistas como Ismael Nery, Flávio de Carvalho, Djanira e Portinari. São obras que estabelecem um diálogo imediato e direto com o acervo do museu, detentor de um número significativo de obras do gênero, segundo a curadora-chefe Valéria Piccoli.

O gosto de Evelyn Ioschpe pelos autorretratos talvez tenha começado no fim da adolescência, quando foi passar uma temporada nos Estados Unidos com uma bolsa de estudos, deslumbrando-se com as coleções dos museus americanos (em especial com um Monet da National Gallery de Washington). A socióloga e jornalista, na época, convivia com a arte dos impressionistas e pós-impressionistas, notadamente excelente retratistas, como comprovam Degas, Gauguin e Van Gogh.

No Brasil, um artista que sempre se dedicou ao gênero – talvez por necessidade de autoconhecimento, como Rembrandt – foi Ismael Nery (1900-1934), que aplicou a sua produção reflexões de caráter metafísico, criando uma pintura próxima do ideário surrealista. É o caso do Autorretrato Satânico (1925), em que Nery, três anos depois da Semana de Arte Moderna (ele não comungava do nacionalismo dos modernistas), afirma sua independência estética e filosófica, pintando a si mesmo como uma figura demoníaca.

Outro segmento forte da Coleção Ioschpe é o núcleo dos pintores abstratos. Uma das principais obras cedidas em comodato é um óleo de 1971 do pintor carioca Ivan Serpa (1923-1973), um dos criadores do Grupo Frente, integrado por Lygia Clark, Hélio Oiticica e Lygia Pape. Fiel à arte construtiva, Serpa, nessa pintura, realizada na época em que se dedicada às telas geomânticas, retrabalha conceitos da arte 'op'.

Anterior a essa é a pintura de Milton Dacosta (1915-1988), Construção em Verde (1955), produzida no apogeu de sua ligação com o construtivismo, antes de sua adesão a um figurativismo de caráter comercial (fase das Vênus). Milton e sua mulher Maria Leontina, grande pintora, estão entre os artistas selecionados pela curadoria da Pinacoteca para a primeira exposição do acervo cedido em comodato pelo casal Ioschpe.

Um outra obra de importância histórica é o óleo Maternidade, pintado em 1937 pelo modernista carioca Di Cavalcanti (1897-1976). Foi nesse ano que o pintor recebeu a medalha de ouro pela decoração do Pavilhão da Companhia Franco-Brasileira, na Exposição de Arte Técnica, em Paris, antes de voltar ao Brasil. Maternidade é um marco em sua trajetória.

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