Tiago Queiroz / Estadão
Tiago Queiroz / Estadão

Pinacoteca recebe exposição imersiva e interativa de Ernesto Neto

Famoso mundialmente, artista ganha mostra com as principais obras de sua carreira, além de uma instalação inédita

Eduardo Gayer, especial para o Estado

30 de março de 2019 | 03h00

Utilizando temperos, aromas e tecidos coloridos trabalhados em crochê, Ernesto Neto dá um novo significado ao Octógono da Pinacoteca com sua instalação Cura Bra Cura Té.

Sob almofadas perfumadas pela mistura de lavanda, cravo e açafrão, um tapete azul, iluminado pelos raios solares que perpassam as claraboias, convida a momentos reflexivos, de introspecção, em um espaço de convivência. “Esse trabalho é de cura”, conta o artista, que acumula exposições mundo afora, como em bienais de Veneza e em museus como o Tate, em Londres, o Pompidou, em Paris, o Reina Sofía, em Madrid, e o MoMa, em Nova York. 

Nos próximos meses, seu trabalho estará na Pinacoteca do Estado de São Paulo. Jochen Volz, diretor do museu, comemora. “É um dos artistas brasileiros com mais visibilidade internacional nas últimas décadas. Para nós, trata-se de um privilégio enorme recebê-lo.” 

Valéria Piccoli, curadora-chefe da exposição Ernesto Neto: Sopro, afirma que o artista apresenta trajetória original em relação aos universos da escultura e do tridimensional – e, por isso, considera-o como um dos nomes mais importantes da arte contemporânea. A curadoria das composições, segundo Valéria, foi feita a partir de um diálogo estreito com Neto, já que as escolhas devem levar em consideração a arquitetura dos museus que as receberão, em virtude de seus tamanhos inusuais.

São 60 obras que fazem da exposição uma retrospectiva da carreira do artista, que já dura quase 40 anos. A instalação feita no Espaço Mário Covas, conhecido como Octógono, é inédita, mas acompanhará as demais na mostra, que, depois de São Paulo, passará pelo Museu de Arte Latino-americano de Buenos Aires (Malba), na Argentina; e pelo Centro Cultural Palacio de La Moneda, em Santiago, Chile. 

As produções colocam-se em diálogo com o espectador, levado a interagir com espaços imersivos. “É uma crítica a essa ‘hipermentalização’ do universo da arte”, afirma Ernesto Neto. Na instalação produzida especialmente para a Pinacoteca, pesos e contrapesos manuseados pelos visitantes exploram a relação entre humanidade e natureza, numa perspectiva que também envolve espiritualidade e ancestralidade. Uma escultura de crochê representa as florestas, posta em atrito com um tronco, metáfora de múltiplos significados negativos.

Entre tantas intenções, a ideia é criar momentos de contemplação de saberes dos povos negros e indígenas, fundamentais na história do País, mas, de acordo com o artista, silenciados pela predominância da cultura europeia. “A turma da floresta, por exemplo, tem uma ligação muito mais profunda com a natureza. Inclusive, a palavra natureza, como algo que está fora de nós, seres humanos, nem existe nessa comunidade. Eles não veem essa separação”, conta Neto.

Outras produções – muitas delas elaboradas com materiais simples, como meias de poliamida, esferas de isopor e especiarias – também chamam à participação. É o caso da estrutura de tecido Naves. Ela possibilita a entrada física do visitante, que acaba por superar a condição de mero espectador e torna-se partícipe da vivência artística. Ernesto Neto: Sopro inaugura a nova programação da Pinacoteca, dedicada à relação entre arte e sociedade. Outras exposições serão pensadas de modo a criar tais momentos de interação. 

Neto gosta da ideia. “A princípio, a obra acontece em três estágios: quando você a olha, quando você olha alguém interagindo com ela e quando você mesmo interage. As coisas vão mudando. Quando a gente está se relacionando com a obra, conhecemos nossos limites e limites dela. O princípio dos meus trabalhos é relacionamento.”

Jochen Volz comenta as mensagens deixadas pela exposição. “A reflexão é algo pessoal, mas as obras falam sobre nosso papel no mundo, do nosso corpo. Mas também falam sobre ideias, sobre subjetividades. É algo mais cósmico, que vê a humanidade como organismo que produz rituais para viver em equilíbrio. Oferece uma leitura pessoal, mas de perspectiva coletiva.”

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