Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Pinacoteca apresenta quatro novas aquisições em seu acervo

Obras são de quatro artistas brasileiros, Marcius Galan, Regina Parra, Débora Bolsoni e Matheus Rocha Pitta

Pedro Rocha, Especial para o Estado

18 de fevereiro de 2019 | 03h00

A Pinacoteca do Estado de São Paulo abriu no sábado, 16, uma nova exposição temporária em meio ao seu acervo permanente, no andar superior do prédio, na Praça da Luz. Nas quatro salas dos cantos são apresentadas quatro obras adquiridas recentemente para a coleção contemporânea do museu. 

São trabalhos de quatro artistas brasileiros, Marcius Galan, Regina Parra, Débora Bolsoni e Matheus Rocha Pitta, que são exibidos pela primeira vez na Pina em diálogo com as obras mais antigas do acervo, que estão expostas nas salas ao lado. 

A obra de Matheus Rocha, especificamente, promove uma interação com o público. Intitulada Primeira Pedra (2015-2016), a instalação foi doada pelo próprio artista, em parceria com a galeria que o representa, para a Pinacoteca. O trabalho consiste em propor uma troca. Sobre folhas de jornais do dia anterior, o artista deixa pequenos blocos de concreto, que cabem facilmente na mão. O público pode levá-los para casa, mas sob a condição de deixar, no lugar, uma pedra trazida da rua. 

“A Pinacoteca tem feito uma série de exposições sobre procedimentos da arte contemporânea. A obra é interessante por criar um tipo de relação com o público, que vai além da contemplativa, que está acostumado a encontrar num espaço de arte”, acredita a curadora Fernanda Pitta, responsável pelo espaço. “Cria-se uma situação que, metaforicamente, o público depõe esse gesto de violência que é atirar a primeira pedra, levando em troca uma obra de arte para casa.”

O número de pedras produzidas para esta mostra na Pina foi calculado de acordo com a expectativa de público e com a duração da exposição, que vai até junho. Para ajudar com a troca, haverá no espaço uma equipe de mediação. 

Juntamente à instalação Primeira Pedra, estará em exibição a série Acordos, também de Matheus Rocha Pitta, que traz imagens de cumprimentos registrados em fotografias publicadas em jornais, sejam políticas, culturais ou esportivas. Para José Augusto Ribeiro, também curador da Pina, se estabelece uma relação com os trabalhos de Almeida Júnior (1850-1899) na sala ao lado. “É a sala das pinturas que eram chamadas de realistas, está num contexto adequado ao trabalho do Matheus justamente pelo artista lidar com o real, com o noticiário, assim como o trabalho do Almeida Júnior já foi um dia o retrato da realidade do trabalhador caipira.”

Jogos com o público

De certa forma, a obra Seção Diagonal (Prisma Fumê), de 2012, do artista Marcius Galan, exibida do lado oposto, é também interativa. A instalação cria uma ilusão de ótica por meio de intervenções no ambiente. Com tinta na parede, madeira e cera no piso, o artista leva o público a se aproximar, entrar na obra, para ver se há um vidro ali. “É um trabalho muito simples, mas dá uma sensação estranha de que há um volume virtual”, analisa José Augusto Ribeiro. “É um trabalho de pintura, mas cria um volume, como uma escultura, e tem contatos com o minimalismo norte-americano.”

O público também é desafiado na obra Lição de Mímese (2004-2006), da carioca Débora Bolsoni. Uma série de molduras de espelhos abrigam lousas recortadas. Se tornam espelhos que não refletem, o que leva a uma discussão sobre a capacidade da arte de refletir a realidade. Em algumas montagens da instalação, é possível que as peças sejam riscadas com um giz, o que não deve acontecer na Pinacoteca. 

A instalação está numa sala ao lado da exposição permanente de estudos artísticos, com uma grande quantidade de obras de nus, como do artista Oscar Pereira da Silva (1867-1939). “O trabalho da Débora tem a ver com o conteúdo desta sala, a questão de luxúria, vaidade”, acredita Ribeiro. “A obra joga com essa questão da autoimagem, com a possibilidade de você fazer o seu retrato na lousa.”

A outra das quatro novas obras em exposição é Chance (2015-2017), de Regina Parra, que traz um letreiro em néon vermelho com a frase “A grande chance”. O trabalho já chegou a ser exibido em meio à natureza no Parque Laje, no Rio de Janeiro, e no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Apesar de estar dentro de uma sala na Pina, a obra continuará em contato com a natureza, dessa vez da Praça da Luz, já que será colocada de frente a uma janela no fundo do museu, que raramente é vista internamente. 

Para o curador Pedro Nery, a obra de Regina também propõe um jogo de interpretação ao público. Pode ser vista como uma promessa ou uma ameaça. “A grande chance, a frase, é um pouco enigmática. Tem um jogo de parecer uma oportunidade única, mas traz uma carga de que a chance pode ser muito grande, gera uma certa angústia, dúvida”, acredita.

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