Pierre Bayard ensina como falar de livros não lidos

Psicanalista e escritor francês diz que a intenção é livrar alunos de traumas

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

07 de julho de 2008 | 00h00

Entre as obras discutidas na Flip, a do psicanalista e escritor francês Pierre Bayard, Como Falar dos Livros Que Não Lemos (Editora Objetiva), tem provocado grandes erros de leitura (ou de não-leitura), visto como livro que desestimula o hábito de ler com seriedade. Participando ontem de um debate com o jornalista Marcelo Coelho, que teve como mediador o psicanalista e colunista Contardo Calligaris, Bayard tratou de explicar, definitivamente, que não teve intenção de estimular comentários superficiais sobre obras não-lidas, mas livrar leitores da culpa, do ''trauma cultural'' provocado pela leitura obrigatória, especialmente na França, onde as fichas de leitura obrigam os pais a uma tarefa suplementar, escrever resumos de livros para seus filhos escolares. Veja especial sobre a 6.ª Festa Literária de Paraty (Flip) Bayard, no debate, não recomenda o ''zapping'' cultural, mas sugere uso de técnicas de leitura que as escolas não ensinam e que professores e críticos literários cansam de usar para poupar tempo com livros que às vezes merecem apenas ser folheados. O crescimento da exigência da leitura tem feito, segundo ele, mais vítimas que grandes leitores. Marcelo Coelho citou, então, um dos resultados dessa opressão: o advento de uma indústria de resumos que o mercado editorial põe à disposição de estudantes sem compromisso com a qualidade ou fidelidade aos autores.Livros como A Metamorfose ou Dom Quixote, segundo Coelho, podem ser reduzidos a uma breve sinopse, porque ''a sacada do autor é tão forte que eclipsa a realização literária'', mas outros, como Guerra e Paz e O Vermelho e o Negro ''não se resumem tão facilmente por não trazer uma idéia tão evidente''. Há, ainda, diz ele, os impossíveis de serem resumidos, como a obra-prima de Proust, Em Busca do Tempo Perdido. Os resumos, em síntese, só prejudicariam ainda mais os livros, ''que não andam bem de saúde'', segundo Coelho, opinião não compartilhada pelo mediador Calligaris, que aprova os resumos.Bayard, aplaudido várias vezes em suas intervenções, é defensor da descoberta pessoal de títulos que possam estimular a leitura. ''Nos EUA, ao contrário da França, as bibliotecas permitem que o usuário circule entre os livros, levando-o a títulos que na pretendia tomar emprestado.'' A curiosidade ainda é o melhor incentivo que um leitor pode ter, concluiu. ''O livro não é um objeto morto, mas um ser vivo, pronto a ser descoberto.''

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