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Picasso, o gênio que rejeitava a música?

Exposição 'As músicas de Picasso', inaugurada em Paris, revela que o gênio espanhol era um apaixonado dos ritmos populares, um minucioso explorador de instrumentos e, sobretudo, criador de uma genuína música pictórica

Anna Pelegri, AFP

22 de setembro de 2020 | 09h00

PARIS - “Não gosto de música”, teria um dia afirmado Pablo Picasso. Mas uma inédita exposição em Paris revela que o gênio espanhol era um apaixonado dos ritmos populares, um minucioso explorador de instrumentos e, sobretudo, criador de uma genuína música pictórica.

Mas paradoxalmente ainda há muitos aspectos a explorar no caso deste que é um dos artistas mais celebrados e mais expostos de todos os tempos. O que Picasso pensava quando pintava? Quais suas opiniões sobre a época em que vivia? Estas são indagações que despertam tanto interesse quanto sua prolífica obra.

“Escreviam muito sobre Picasso, mas ele se expressava pouco”, disse Cécile Godefroy, curadora da exposição As músicas de Picasso, inaugurada na Philharmonie de Paris (um complexo de salas de concerto) com cinco meses de atraso devido à epidemia da covid-19.



Há quatro anos, Cécile Godefroy decidiu estudar o que havia por trás daquela frase, “Não gosto de música”, a única atribuída a Picasso sobre o tema segundo a jornalista francesa Hélène Parmelin, na década de 1960.

“Não era amante da música, a priori não sabia ler uma partitura e, diferentemente de artistas como Chagall, não necessitava ouvir música para trabalhar”, explicou Godefroy. “Contudo, sua obra está repleta de instrumentos, músicas e danças”.

Portanto, o objetivo da exposição é explorar esse paradoxo, onde são apresentadas três esculturas em terracota branca representando músicos tocando flauta, que Picasso (1881-1973) criou para o jardim da sua vila, La California, na Côte D’Azur (Costa Azul) francesa, onde viveu nos anos 1950.

Mas rapidamente a mostra nos remete às suas origens, com um óleo retratando o pai do artista, José Ruiz Blasco, um devoto do flamengo. Em sua infância, “Picasso passeava com o pai pelos bairros ciganos de Málaga”, sua cidade natal, segundo a curadora.

“Isso o marcou e determinou seu gosto pela música popular, como também as que anos mais tarde ouviu sendo tocadas por artistas ambulantes em Barcelona, nas corridas de touros, no circo e nos cabarés do animado bairro de Montmartre, em Paris, onde ele se instalou em 1909.

“É esta música de fundo, ruidosa e que se compartilha, que Picasso reflete em seus primeiros trabalhos, especialmente por meio da figura do arlequim, que toca com o olhar triste uma pequena guitarra no centro de uma pintura a óleo sobre madeira.

A guitarra era seu “instrumento predileto”, um símbolo a mais do seu apego à sua Espanha natal, disse a curadora.

A exposição reúne pela primeira vez cerca de vinte instrumentos de corda e sopro que Picasso colecionou para estudá-los com uma metodologia própria de um cientista.

No seu período cubista, ele desmontava objetos para recriá-los novamente,seja com um pedaço de cartolina ou sobre tecido. E no caso dos instrumentos “não lhes falta nada, incluindo mesmo os elementos que não são vistos na parte externa”, caso da sua pintura a óleo O Violino, de 1914.

Nesta altura do trajeto da exposição, já não há dúvida de que Picasso, casado durante quase 20 anos com a bailarina Olga Khokhlova e amigo de grandes músicos como Erik Satie e Stravinsky, podia não ser megalomaníaco, mas era “fascinado por tudo o que a música podia simbolizar”.

Assim, músicos e bailarinos, despojados já da limitação cubista para se moverem dentro da obra, persistem em todos os sucessivos períodos do pintor, incluindo o neoclássico, o que é ilustrado na obra-prima A flauta de Pan, de 1923, representando um adolescente tocando ao lado de outro uma flauta em um cenário teatral banhado pelo azul do Mediterrâneo.

Nesta região onde Picasso viveu seus últimos anos, a música se transforma em celebração. Representadas por figuras da antiguidade, como faunos, sátiros, etc., suas obras emanam energia e sensualidade, entoando uma música pictórica que remete ao próprio universo picassiano.


TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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