Picadinho à brasileira

Dois novos álbuns em quadrinhos investigam o Brasil profundo, do canibalismo pré-colonial ao fanatismo pelo futebol e a violência da periferia

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

09 de maio de 2009 | 00h00

De Flávio Colin, Jayme Cortez e Shimamoto à novíssima geração de Rafael Grampá e Carcarah, muita coisa aconteceu nos quadrinhos brasileiros. Aqueles pioneiros examinaram o cangaço, o sertão, o indígena, o ente mítico da história nacional. Os seus discípulos agora vão ainda mais fundo e investigam as minúcias da chamada "brasilidade": o circo do interior, o fanatismo e as superstições do torcedor de futebol, o analfabetismo, o bairro que vai além da última linha do ônibus na grande cidade, a fúria autoritária da pequena autoridade local.Sempre na raça, dois artesãos da história contada com ilustração, André Toral e Marcello Quintanilha, retornam às livrarias com a face mais radical desse exame da identidade nacional.Quintanilha, "autoexilado" na Espanha desde 2002 (desenha lá a série Sept Balles pour Oxford, da editora belga Editions du Lombard), acaba de lançar no Brasil aquele que talvez seja de longe o seu melhor trabalho, Sábado dos Meus Amores (Editora Conrad, 64 páginas, R$ 39). É francamente inspirado no trabalho do francês François Boucq.O outro lançamento maiúsculo da temporada é o álbum Os Brasileiros (também da Conrad, 88 páginas, R$ 38), de André Toral, antropólogo e historiador que reúne histórias que desenhou sobre índios publicadas entre 1991 e 2008. "Onde estão os tupiniquins e os tupinambás de que nos falaram Hans Staden e Anthony Knivet no século 16?", pergunta o autor. A largada de Os Brasileiros se dá em 1560, em meio a rituais de devoração do inimigo e conflitos sangrentos que se arrastam da Europa até o Novo Mundo, e chega aos grileiros e madeireiros de 2008. Toral, que não pretende trazer nenhuma verdade histórica para os quadrinhos, credita influências a gênios como Alberto Breccia.Ambos mostram o quadrinho nacional em plena maturidade. Os índios de Toral e sua lógica própria vão se misturando ao cotidiano brasileiro com espantosa naturalidade. A furiosa platitude das periferias de Quintanilha revelam mais sobre o País do que mil teses acadêmicas.

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