Pianos matadores

Teclados em chamas: pioneiro do rock, Jerry Lee Lewis retorna ao Brasil após 16 anos, e o enfant terrible do jazz, Brad Mehldau, toca e grava com Chico Pinheiro

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2009 | 00h00

Passados 16 anos de sua última visita ao Brasil, volta ao País no dia 18 um dos pioneiros do rock?n?roll, o pianista, cantor e compositor Jerry Lee Lewis, que faz 75 anos no dia 29. Conhecido desde os anos 50 como The Killer (O Matador), Lewis toca às 22 horas do dia 18 no Credicard Hall, e também vai a Belo Horizonte e Porto Alegre.

Vivendo num rancho de mais de 200 mil m² em Nesbit, Mississippi, no qual guarda uma "pretty cool" coleção de carros, a cerca de 30 minutos ao Sul de Memphis, Jerry Lee concedeu entrevista ao Estado.

O sr. lembra quando começaram a chamá-lo de O Matador?

Ganhei esse apelido quando tinha uns 15 anos, de um amigo. Nós dois tínhamos sido suspensos da escola naquele dia - duas semanas de suspensão cada um, e nem conhecíamos um ao outro. Acabávamos de nos encontrar. Eu tinha entrado em luta corporal com um professor, e ele tinha brigado com o professor dele, então começamos a chamar um ao outro de Matador. E foi assim que começou.

O sr. era o único real competidor de Elvis Presley. Muitos daqueles pioneiros estão mortos, Carl Perkins, Johnny Cash, Roy Orbison. O sr. se sente como um sobrevivente? Se Deus lhe desse a chance de começar tudo de novo, o que mudaria?

Sim, me considero. É bacana, tenho sorte. Na minha vida, sempre trabalhei duro para agradar a meus fãs e seguir em frente. Pergunto a mim mesmo se um dia vou parar. Em minha jornada, fiz muitos amigos, como você mencionou: Johnny Cash, Elvis, Roy Orbison e outras pessoas talentosas que estão em meu último DVD, Last Man Standing - Live!, como Ron Wood, Ken Lovelace, Tom Jones e outros. Sempre vivi intensamente. Se pudesse, faria tudo de novo, sem arrependimentos.

Às vezes, seus fãs procuram novas coletâneas com sua música, algo que traga mais do que as gravações pela Sun Records, de 1956 a 1963. Por que as companhias de discos não demonstram interesse em compilações com o material gravado entre 1960 e 1970, por exemplo?

Há muitas compilações por aí, mas nós vivemos para o presente. Você sabe, eu lancei mais de 50 discos, então há muito material para mostrar às pessoas. As coletâneas mantêm as pessoas no passado, e os artistas têm coisas novas para mostrar.

O sr. é, na essência, um homem do Sul. Suas canções são honestos e crus contos sobre os altos e baixos de uma vida selvagem. Gostaria de perguntar sobre suas primeiras influências. O sr. teve um modelo?

Amo o country, ouvir e cantar. Tive grande influência de Hank Williams. Meu estilo de música é rock and roll, boogie woogie, country, blues, tudo junto. Tristemente, hoje a música country que vem de Nashville é lixo. Desculpe minha linguagem, mas tudo me soa alheio. Eles não estão mais fazendo a música country down-the-road. Não sei o que estão fazendo, e acho que também não sabem. A música de lá parou de ser boa quando fui embora (risos).

Hollywood sempre teve interesse em sua carreira. Em 1989, foi lançado o filme Great Balls of Fire, baseado no livro de sua ex-mulher, Myra Gale Lewis. O sr. acha que a sua vida merece um outro filme?

Vejo esse assunto hoje de um jeito um pouco melhor do que no passado. Não fiquei feliz quando aquilo foi lançado. Há boas partes no filme que me fizeram rir, mas não acho que capturou o verdadeiro Jerry Lee Lewis. É impossível de se fazer. E hoje eu compreendo isso. Eu costumo acreditar que todo mundo tem sua visão e vê a verdade de seu próprio jeito. Myra e eu somos amigos e tivemos uma bela filha juntos, e um filho que já morreu. Myra escreveu aquilo que era a verdade dela, e muito minha verdade também. Não concordo com algumas coisas, mas Myra não quis magoar ninguém. Mas não vou mentir, nós tivemos alguns desentendimentos. Minha vida diz o bastante e é impossível de ser colocada em um filme.

Seu casamento com Myra, em 1958, quando ela tinha apenas 13 anos, foi um choque. O sr. foi chamado de "raptor de bebê", sofreu boicote. Depois de 50 anos daquilo, sente arrependimento?

Não me arrependo. Estava apenas vivendo minha vida. Fiz o que achei direito.

Em 2004, a revista Rolling Stone o colocou em 24º lugar no ranking dos 100 maiores artistas de todos os tempos. O sr. concorda? Em qual lugar se colocaria?

Certamente, em primeiro lugar (risos). É uma piada, há incríveis artistas na lista que eles fizeram, e cada um tem seus méritos. Me sinto honrado de estar na lista.

NÚMEROS

6 milhões de cópias

vendeu a gravação de Great Balls of Fire nos anos 1950

5 ex-mulheres

recebem pensão do Killer

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