Philip Glass e a luta eterna pelo contemporâneo

Em Porto Alegre, compositor americano fala da interação entre público e obra

Jimi Joe, PORTO ALEGRE, O Estadao de S.Paulo

03 de setembro de 2008 | 00h00

Glass, Philip. Sua obra é ouvida por muitos como um dos mais saudáveis sopros de renovação no panorama musical dos últimos 35 anos. Sua fala é transparente e esclarecedora como sugere seu sobrenome. Nascido na cidade americana de Baltimore, Glass, 71 anos completados em janeiro último, fez um misto de palestra/performance em Porto Alegre na última segunda-feira, como convidado do evento Fronteiras do Pensamento, que já havia recebido, em agosto, o cineasta alemão Wim Wenders. O compositor repete sua fala/atuação hoje no mesmo evento em Salvador, Bahia. Assumidamente apaixonado e influenciado pelo anarquismo musical de John Cage, Glass inspirou gente como Brian Eno e Laurie Anderson, que acabaria se tornando colaboradora sua e que estava presente na platéia do Salão de Atos da Reitoria da UFRGS na noite de segunda-feira. Colaborações e processo criativo foram temas da palestra do compositor, uma hora e meia de fala informal mas permeada pela emoção de performances ao piano, incluindo um memorável encontro - graças aos artifícios tecnológicos - com a voz prenhe de emoções do falecido poeta beatnik Allen Ginsberg em um texto sobre guerra, paz, companheirismo, a importância do amor e a América.Apresentado pelo professor e compositor Celso Loureiro Chaves, Philip Glass anunciou uma palestra centrada em pontos básicos que passearam pela interação obra/público, o aspecto autor/colaborador e a questão do colaborador intérprete. A argumentação de Glass sobre o primeiro ponto anunciado teve como ponto de partida e de apoio as primeiras experiências dele com a obra de John Cage, especialmente a leitura do livro Silêncio. "Com Cage descobri que eu podia ter um entendimento muito próprio da obra que ele apresentava. Posteriormente estendi isso às platéias de forma em geral. Vi que era pressuposto da platéia entender a obra em seus próprios termos", comentou. Começando a fazer música no "típico dos anos 60", Glass, já quase profético, anteviu a possibilidade de reconstruções musicais, "apesar das proibições". "Essas proibições eram criadas por autores ligados a um classicismo e a uma rigidez de formas", pontuou. Proibições que Glass ignorou solenemente em busca de uma linguagem renovada. "De repente eu vi que desde Stravinski e Schönberg não se fazia nada de novo na música."Para discorrer sobre a relação entre autor e colaborador, Glass serviu-se de sua parceria com o cineasta Godfrey Reggio, com quem trabalhou na chamada "trilogia Qatsi" com os filmes Koyaanisqatsi (1982), Powaqqatsi (1988) e Naqoyqatsi (2002). O tema da música para cinema levou Glass a falar também de suas recentes parcerias com Woody Allen. "Eu e Woody moramos em Nova York há uns 50 anos e eu nunca o tinha visto. Aliás, acho que ninguém em Nova York jamais o viu", brincou. "Daí um dia meu telefone toca e alguém do outro lado dizia que era Woody Allen. Desliguei na hora porque achei que era um trote..." Não era e a parceria acabou se concretizando em O Sonho de Cassandra (2007). A parte final da palestra, a questão "colaborador intérprete", foi ilustrada pelo relato da relação de Glass com Allen Ginsberg. A essa altura, o compositor anunciou que estava retomando a performance com aquele que seria seu "colaborador intérprete ideal" graças à tecnologia. Já perto do fim de uma conversa absolutamente franca e emocionante sobre o processo de criação e colaborações, Glass confessou-se "dolorosamente grato por estar vivo".

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.