Pessoa e a tropa de elite portuguesa

Ricardo Pais volta ao Brasil com Turismo Infinito, produção do Teatro de São João, a partir da obra do poeta dos heterônimos

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

18 de junho de 2009 | 00h00

Uma tropa de elite da interpretação - assim, num jogo de palavras com o cinema brasileiro, o diretor português Ricardo Pais define o elenco do espetáculo Turismo Infinito, que estreia hoje no Teatro Paulo Autran, no Sesc Pinheiros. A dramaturgia, de António M. Feijó, reúne textos de Fernando Pessoa e seus heterônimos Álvaro de Campos, Bernardo Soares e Alberto Caeiro, além de três cartas de Ofélia Queirós ao poeta.A julgar pela gravação em vídeo, são atores de escola europeia, precisão e economia de gestos e domínio das múltiplas possibilidades de expressão pela palavra. Tudo numa cenografia que trabalha com a síntese, sob luz recortada em focos e fachos. "É um conjunto que trabalha junto há anos e todos os dias tem aulas, mesmo ao Brasil traz um preparador, nunca deixa de se exercitar", diz Ricardo Pais em entrevista ao Estado no Sesc Pinheiros. E ressalta: "Há um excesso burguês, de meios, e outro, bem-vindo, natural da arte popular." Nessa tropa predomina a contenção, mas não inerte. "Mas posso saber o que um ator está dizendo pela expressão silenciosa de outro."Turismo Infinito é produção do Teatro Nacional São João, da cidade do Porto - integrante português de uma rede de "teatros de arte" europeia fundada entre outros por Peter Brook e Giorgio Strehler - que pela segunda vez realiza intercâmbio cultural com o Brasil, em parceria com o Sesc. No primeiro, em 2000, o TNSP apresentou em São Paulo, Curitiba e Porto Alegre o espetáculo Madame, que unia as personagens Maria Eduarda, de Os Maias, de Eça de Queiroz, e Capitu, de Dom Casmurro, de Machado de Assis. Elas eram interpretadas por Eunice Muñoz e Eva Wilma nessa peça que também tinha dramaturgia assinada por Feijó e encenação de Pais.Desta vez, essa montagem criada a partir da obra do poeta português Fernando Pessoa - na origem projeto do diretor e sua equipe - acabou por integrar um intercâmbio que levou ao Porto, em maio, o Centro de Pesquisa Teatral (CPT) do Sesc São Paulo, dirigido por Antunes Filho. Antes mesmo de estrear em São Paulo, foi apresentado no Teatro São João a tragédia de Nelson Rodrigues encenada por Antunes Filho, em visão para esses nossos tempos "de bombardeio de informações", não por acaso intitulada A Falecida Vapt-Vupt. O CPT-Sesc levou junto Prêt-à-Porter, Coletânea 2. "E Antunes deu ainda uma longa oficina no São João", diz Ricardo Pais. Em troca, esse diretor português vai ministrar uma master class na próxima terça, no Sesc Pinheiros, a partir das 19 horas, com participação grátis (50 vagas).Pesquisadora e especialista na obra de Pessoa, Yvette Centena, num ensaio sobre Turismo Infinito publicado no alentado programa da peça, aponta um caminho percorrido por Ricardo Pais - que já visitara esse universo em Fausto. Fernando. Fragmentos. -, que vai da fragmentação à unidade. "Esse mérito se deve mais à dramaturgia de Feijó", argumenta Pais. "Como Ivette observa, os textos de Pessoa ortônimo pertencem ao interseccionismo, expressam um desejo de encontro consigo, um exercício de unificação impossível nessa personalidade fragmentada." Assim, argumenta que seu trabalho como diretor foi traduzir cenicamente esse movimento entre implosão e explosão intrínseco à dramaturgia."Feijó conseguiu realizar algo extraordinário na sua seleção de alguns poucos textos entre os mais de 4 mil de Pessoa. Não há personagens no sentido clássico, mas há uma tensão que brota inteira das palavras." Realmente, não há tentativa de psicologismos, não há trama ou o muitas vezes explorado diálogo entre heterônimos. "A escolha dos textos cria uma tensão interna que provoca uma espécie de transe no espectador."Minimal é como ele define sua encenação, apesar da presença marcante da cenografia de Manuel Aires Mateus e da luz intensa de Nuno Meira, feita de recortes e fachos. "Ocorre que não há personagens, mas sim criaturas só vivas pela escrita, então todo o empenho está nas palavras. E os atores conseguem dar a impressão de que essas figuras nascem e crescem naquele momento ali; nada do que dizem parece já existente antes de ser dito, é como se pensassem para expressá-las", diz Pais. "Feijó conseguiu consubstanciar os textos de forma que por meio de ?dizê-los? se experimenta a dor da escrita."João Reis é Álvaro de Campos - "o único cujas poesias foram feitas para ser ouvidas" - e José Eduardo Silva é Bernardo Soares, e os dois tomam a primeira parte do espetáculo. Depois entra Pedro Almendra como Fernando Pessoa, cuja figura foge à tradicional imagem de óculos - "não há sentido nessa insistência se quase não há fotos dele". Emília Silvestre vive Ofélia Queirós e Luís Araújo é Caeiro, que surge no epílogo. ServiçoTurismo Infinito. Sesc Pinheiros. Rua Paes Leme, 195, tel. 3095-9400. 5.ª a sáb., 21 h; dom., 18 h. R$ 20. Até 28/6

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