Personagens que mostram a saga da vida comum

Morto na última terça, John Updike concebeu obra que lança uma lente de aumento sobre a classe média norte-americana

Michiko Kakutani, The New York Times, O Estadao de S.Paulo

31 de janeiro de 2009 | 00h00

Dotado da imaginação visual de um estudante de artes, do olhar sociológico de um jornalista e do talento de um poeta para as metáforas, John Updike - morto na última terça-feira, aos 76 anos - foi possivelmente o grande homem das letras americanas, como um todo. Ele transitava com fluência da ficção à crítica, dos versos amenos às histórias curtas, indo até a maior extensão do formato do romance: um atleta do decatlo literário na nossa era de distração eletrônica e especialização convicta, vitoriano no seu zelo trabalhador e quase semelhante a um blogueiro na sua determinação de transformar em palavras cada rascunho de conhecimento e vivência.Entretanto, é como o romancista que abriu uma janela para - e lançou uma lente de aumento sobre - a classe média americana na segunda metade do século 20 que ele será mais lembrado. Nas obras de maior impacto, Updike deu "ao mundano a beleza merecida", nas suas próprias palavras, comemorando os mistérios cotidianos do amor, da fé e da domesticidade com extraordinária precisão e contraste. Em fotografias de coloração viva, ele nos trouxe o adultério suburbano, os carrões, os gramados amplos, os rádios e os toca-discos da década de 50 e do início da de 60, e mapeou a paisagem cambiante dos Estados Unidos dos anos 70 e 80, conforme os shoppings e as subdivisões engoliam as cidades pequenas e as práticas sociais e sexuais passavam por metamorfoses impressionantes.Os quatro romances (Coelho Corre (1960); Coelho em Crise (1971); Coelho Cresce (1981); e Coelho Cai (1990)) de atenta observação sobre o personagem "Coelho", o americano Harry Angstrom - ex-astro do basquete universitário transformado em vendedor de carros, proprietário de imóvel e marido errante - e as suas tentativas de lidar com as transformações públicas sísmicas (do feminismo à contracultura, passando pelos protestos contra a guerra) que abalavam o seu confortável ninho. Harry, que atribuía a si grande importância ao comparar sua própria expulsão do paraíso ao poderio minguante do seu país no palco mundial, e os seus problemas financeiros ao déficit nacional, era ao mesmo tempo um representante dos americanos de sua geração e um espécime científico - um indicador da espécie humana e da sua propensão à dúvida, ao narcisismo e à autoimolação.Na sua correspondência à definição clássica de Stendhal sobre o romance enquanto "um espelho que caminha por uma estrada", refletindo ao mesmo tempo "o azul do céu" e "as poças de lama sob os pés", os romances sobre "Coelho" capturaram quatro décadas da vida norte-americana. O fantástico e bastante subestimado épico de Updike escrito em 1996, Na Beleza dos Lírios, abordava um trecho ainda maior da história. Ao mapear a sorte de uma família americana durante cerca de 80 anos, o autor mostra como os sonhos, hábitos e predileções são transmitidos de geração a geração, de pai para filho, enquanto cria um retrato dos Estados Unidos em forma de caleidoscópio, abrangendo desde a sua nervosa entrada no século 20 até a sua cambaleante aproximação com o milênio.Produzindo cerca de um livro por ano, Updike tentou, durante a carreira, expandir a própria imaginação. Aos romances protagonizados por Coelho - talvez o "eu" em que Updike teria se transformado caso não tivesse se tornado autor - ele acrescentou uma série de livros sobre Henry Bech, outro alter ego descrito como romancista judeu "rebuscado, mas afável", afligido por um caso grave de bloqueio de escritor.Enquanto Bech apresentava uma modesta obra composta por sete livros e era considerado um autor cult de segunda linha, seu criador foi abençoado com "uma criatividade efervescente", como o próprio escreveu sobre Nabokov, e a sua obra também transmite a feliz impressão "de uma tarefa contínua desempenhada de maneira variada, de uma personalidade sólida, de uma plenitude de dotes explorados, conscientemente".Em outros romances, Updike foi ainda mais além. O Centauro (1963) infundiu o mito joyciano ao seu terno retrato de um professor escolar bem-intencionado. O Golpe (1978) conjurou o reino africano imaginário de Kush e o seu líder imperial, o Coronel Ellellou. E As Bruxas de Eastwick (1984) e a sua continuação, As Viúvas de Eastwick (2008), retrataram heroínas que na verdade eram feiticeiras sobrenaturais com o poder de conjurar e mutilar. Estas experiências nem sempre funcionaram.S. (1988) usou A Letra Escarlate de Hawthorne como ponto de partida para um ataque grosseiro às feministas. Busca o Meu Rosto (2002) degenera-se num improviso desajeitado e absolutamente inverossímil sobre a vida de Jackson Pollock. E Brazil (1994), transbordando de pesquisas mal digeridas e diálogos ruins, representou uma tentativa constrangedora de traduzir a lenda de Tristão e Isolda para a América do Sul.De fato, as obras mais fortes de Updike permaneceram atadas aos mundos suburbanos das cidades pequenas que ele conhecia em primeira mão, assim como bom número dos seus heróis partilhava do mesmo tipo de medo existencial que o autor admitiu ter sofrido durante a juventude: a preocupação de Bech em ser "um grão de poeira condenado a saber que é um grão de poeira", ou o lamento de Ellellou quanto ao fato de que "seremos esquecidos, todos nós esquecidos". O medo que eles têm da morte ameaça tirar o significado de tudo que fazem, e também os manda correndo em busca de Deus - procurando alguma confirmação de que haja algo para além do mundo familiar e cotidiano, com "os seus sinais e prédios e carros e tijolos".Mas, se a sua ansiedade em relação à salvação os puxava numa direção, os heróis de Updike também se descobriam vítimas da tentação do sexo e das uniões desiguais no aqui e no agora. Apanhados nas margens de uma moralidade em transformação, incapazes de esquecer as antigas piedades e tabus, mas igualmente incapazes de resistir aos anos 60 e sua promessa de sexo sem consequências, estes homens vacilam entre o dever e a realização pessoal, entre uma busca por raízes e uma fome de liberdade. Conforme o próprio autor certa vez descreveu, seus heróis "oscilam nos seus humores entre um desfrutar dos confortos da domesticidade e da vida familiar, e uma sensação de que a sua identidade essencial é solitária - sendo encontrada na fuga e na solidão e até mesmo na adversidade. Isto parece ser a minha impressão daquilo em que consiste um ser humano masculino".Apesar de as primeiras histórias de Updike poderem soar como obra de um autor consciente do próprio texto, além de secundárias - nos seus piores momentos, como O?Hara sem os dentes, como Cheever sem a magia - ele logo descobriu sua própria voz inimitável com "Penas de Pombo" e "Coelho Corre". Ao longo dos anos, as histórias e os romances tenderam a acompanhar a própria vida de Updike: casais que se aproximavam e se casavam e depois seguiam separadamente suas vidas, e os rompantes hormonais da juventude que lentamente cediam espaço para a tranquilidade da meia idade.Numa série de histórias sobrepostas a respeito de Joan e Richard Maple (reunidas em Too Far To Go), Updike criou um indelével retrato das duas décadas de um casamento, relatando a maneira com que um casal criava e depois desmantelava uma vida conjunta, ao mesmo tempo acompanhando a impressão deixada pelo tempo e pela idade no relacionamento entre ambos. Muitos dos seus últimos romances e histórias pareciam preocupados com a mortalidade e a ruína imposta pelo tempo, apresentando personagens às voltas com a perspectiva cada vez mais próxima da própria morte, abordando-a com uma mistura de raiva, graça e resignação, olhando para a juventude através de um espelho retrovisor frequentemente embaçado.Quanto às coletâneas de não-ficção de Updike (que incluem Bem Perto da Costa, Odd Jobs e Due Considerations), elas não apenas demonstram suas copiosas habilidades de crítico - um celebrador da obra de outros artistas e por vezes um áspero antropólogo literário - como também atestam sua compulsão por enquadrar entre as capas de um livro cada trecho da sua obra. Estes volumes apresentam devaneios inteligentes sobre contemporâneos seus como Saul Bellow e Norman Mailer, e ensaios eruditos sobre mestres como Melville e Hawthorne, mas também incluem emanações tais como uma série de legendas escritas pelo autor para um ensaio fotográfico da Playboy apresentando Marilyn Monroe e as respostas zelosas a perguntas feitas por revistas ("Qual é o seu lugar favorito na região de Harvard?").Numa destas coletâneas, Updike resumiu seu amor pela própria vocação: "Desde a primeira infância fui atraído pelo charme dos materiais envolvidos na minha arte, pelos lápis e papéis e, posteriormente, pela máquina de escrever e por todo o aparato da impressão. Condensar a partir das memórias, fantasias e pequenas descobertas de uma pessoa marcas escuras sobre o papel que se tornam convenientemente reprodutíveis por tantas e tantas vezes ainda me parece, depois de quase 30 anos voltados para a redação de livros, um gesto mágico, e um processo técnico delicioso. Distribuir-se de tal maneira, como uma espécie de chuva de confetes caindo sobre as cabeças e ombros da humanidade a partir das livrarias e das páginas das revistas, é certamente um grande privilégio e um desafio às leis habituais e terrenas através das quais os seres humanos se dão a conhecer uns aos outros."

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