Daniel Piza, E-mail: daniel.piza@grupoestado.com.br Site: www.danielpiza.com.br, O Estadao de S.Paulo

31 de janeiro de 2009 | 00h00

Não é só nos debates políticos e econômicos que o sessentismo anda em baixa. Leia A Literatura em Perigo (Difel), um pequeno e despretensioso livro de Tzvetan Todorov. Que um dos expoentes do estruturalismo, discípulo de Roland Barthes, se revolte contra as teorias literárias ainda dominantes entre professores e críticos, sobretudo na França, é fato a saudar. Todorov já não suporta a análise da literatura como se ela fosse desconectada da vida, dos temas da condição humana, uma análise que a reduz a jogos de linguagem. Para os defensores da "desconstrução", nada existe além do texto, logo, a literatura só fala de literatura. Esse solipsismo, diz Todorov, ignora o contexto humano - a posição ambivalente da estética, entre beleza e conhecimento - e reforça o declínio da literatura na sociedade, a pouca familiaridade dos jovens de hoje com as "sensações insubstituíveis" da leitura."Longe de ser um simples entretenimento, uma distração reservada às pessoas educadas", escreve ele logo no início, a literatura "permite que cada um responda melhor à sua vocação de ser humano." No final, define melhor a utilidade de uma obra literária, que "produz um tremor de sentidos, abala nosso aparelho de interpretação simbólica, desperta nossa capacidade de associação". Ou seja, Todorov não está defendendo a importância da imaginação, a noção vulgar de que os livros servem para um escape da realidade ou um consolo à esperança; ele vê a ficção de um Shakespeare, Dostoievski ou Proust como um instrumento de interpretação da realidade, da natureza humana, não superior ou inferior à ciência, mas autônomo e, talvez, complementar. Somos criados à base de medos e chavões, e nada como a literatura para nos dar armas de libertação. Nesse sentido, é sempre perigosa para o senso comum.Todorov, porém, cai no dualismo de sua geração ao revelar no ensaio um ponto de vista quase diametralmente oposto ao que defendeu na juventude. (É como aqueles sujeitos marxistas que, diante do fracasso soviético, passaram a defender o capitalismo selvagem - às vezes chamado de "natural" - como se o mercado não tivesse de ser fiscalizado e canalizado.) Comete o erro de culpar o modernismo de Flaubert em diante, principalmente as vanguardas do início do século 20, por essa visão formal da literatura. Lembra o debate do autor de A Educação Sentimental com George Sand e dá a ela razão por se queixar do pessimismo do amigo. Bem, a maioria dos grandes escritores não assinou finais felizes por um motivo claro: eles estavam (e estão) reagindo justamente à tendência convencional de se iludir facilmente, de acreditar em qualquer crença ou doutrina que resolva sistematicamente os problemas do mundo. Agora me diga quem é mais lido hoje em dia: Flaubert ou George Sand?É bobagem dizer que "ler demais faz mal", como ouço às vezes. O problema não é a quantidade de leitura, mas o modo como ela é feita; se ela passa a tomar o lugar da vida, a substituir experiências reais em vez de iluminá-las, aí, sim, se pode falar na existência de um problema. Muitos intelectuais o encarnam, exemplos que são de falta de praticidade, atratividade e sensatez... Todorov se queixa de frases de literatos como "a verdadeira vida é a literatura" e "tudo existe para terminar num livro", respectivamente aludindo a Borges e Mallarmé - frases que parecem negar os poderes de representação das artes. Estou com ele, como quando diz que os críticos de arte exaltam Malevitch e depreciam Bonnard apenas porque este é figurativo; mas aquelas frases também precisam ser vistas em seu contexto. Nem Borges nem Mallarmé fizeram "arte pela arte", e Borges notou sempre como são pobres e mutiladas as palavras deixadas pelos séculos. A literatura deve renovar a linguagem corrente.Ninguém como os escritores, afinal, nos alertam para os perigos da literatura. Quase todos os grandes personagens são leitores: Dom Quixote passa a delirar com a ideia do triunfo depois de ler romances de cavalaria, mas a realidade que encontra é tão diferente que ele só apanha, ainda que Sancho Pança lhe faça o contraponto; Hamlet lê o tempo todo, "palavras, palavras, palavras", enquanto matuta um plano de ação que desmascare o poder; os terroristas de Dostoievski e Conrad são leitores vorazes; Madame Bovary só encontra nos romances a ausência do tédio que lhe consome dias e noites; Dom Casmurro também absorveu sua dose de clássicos; Gustav Aschenbach vai a Veneza já afetado pelo vírus do idealismo que os livros inocularam; Artur Sammler sonha ser como um esteta inglês tão refinado que os males da metrópole não o atinjam. E autores como Elias Canetti (Auto-de-Fé) e Italo Svevo (A Consciência de Zeno) trataram diretamente do tema. Desconfiar das fantasias e teorias que os livros trazem é fundamental; para isso, é preciso ler muito.UMA LÁGRIMAJohn Updike leu muito. E escreveu muito: mais de 60 livros, e em todos os gêneros (contos, romances, poemas, ensaios, resenhas), e sobre os mais diversos temas (literatura, artes visuais, sexo, política, filosofia, basquete). Foi um grande homem de letras, essa espécie rara no Brasil ou na atualidade, e um estilista de seu idioma, o que significa que ele nos fazia ver as coisas, e não apenas as mostrava. Faltava a ele o que chamei certa vez de "fúria", essa inquietude quase angustiada que tem Saul Bellow e Philip Roth - com quem formava o trio de autores americanos a quem devemos a permanência da narrativa num período em que os europeus se entregaram ao "nouveau roman" e ao pós-modernismo. Mas a ternura de sua inteligência era cativante, até como contraste, e alguns de seus contos honram a tradição de Scott Fitzgerald e John Cheever. Como leitor, era o oposto do americano "insular": conhecia desde Machado de Assis até Ha Jin.CADERNOS DO CINEMAPor falar em Fitzgerald, é num conto seu que se inspira o ótimo filme O Curioso Caso de Benjamin Button, de David Fincher. Só que no conto o pai do bebê que nasce velho tenta escondê-lo e o final é muito diferente. No filme, o pai o deixa nos fundos de uma pensão de idosos em New Orleans e ele é adotado sem conflitos por uma mulher negra. Mais tarde, enquanto rejuvenesce, Benjamin (Brad Pitt) conhece Daisy (Cate Blanchett), que será o amor de sua vida e estará com ele ao fim. Como em Fitzgerald, a história corre como se fosse realista, capaz de nos envolver e comover mesmo quando inverossímil, e não como uma fábula ou alegoria - e essa linha narrativa é mantida com muita habilidade. Isso, sim, é adaptar literatura, em vez de parasitá-la.O filme tem todos os itens de supercandidato ao Oscar. A produção é suntuosa, com bela fotografia, trilha sonora e recriação de épocas; os atores estão muito bem; há momentos líricos e cômicos, guerras e acidentes, além dos acréscimos demagógicos (como as reaparições do beija-flor). O recado do filme não é nada mais que "aproveite a vida em suas distintas fases em vez de esperar que ela passe". Mas o que nos prende por quase três horas? Não é só esse capricho todo, o desenrolar do enredo ou a beleza dos atores e das paisagens postais - Brad Pitt como um modelo de grife em um veleiro ao pôr-do-sol. Acho que é justamente a delicadeza com que tudo é tratado; Benjamin e sua mãe adotiva não sofrem por antecipação, anseiam pelo próximo passo, mas não se alienam a ele. Não importa a ordem dos fatos, a vida é sempre imprevisível.DE LA MUSIQUEEu ainda não havia lido a biografia de Tom Jobim por Sérgio Cabral (Lazuli/ Companhia Editora Nacional), lançada em 2008. Vale a pena principalmente por detalhar a formação musical de Tom, que por sinal disse que por pouco não foi para a literatura. (Chico Buarque também trocou a literatura pela MPB, mas depois voltou para a outra vocação. Talvez um dos motivos para a canção brasileira ser tão forte seja a dificuldade de viver de escrever no Brasil?) Chopin, Prokofiev e Villa-Lobos dividem sua formação com Nelson Cavaquinho, Dorival Caymmi e Ary Barroso, mas também com americanos como George Gershwin, Glenn Miller ou Gerry Mulligan. Dessas fontes Tom criou sua sonoridade; quando conheceu a batida de João Gilberto, o estilo sincopado e antirretórico de seu violão e canto, nasceu a bossa nova.Claro, é divertido ler histórias do Tom amante de plantas, bichos e mulheres, que com Vinicius batizou Brasília de "Polígamo das Secas" durante a construção e que havia escrito "um cigarro, um violão" em vez de "um banquinho"... A biografia dá também a merecida atenção à segunda fase de Tom, o período de Matita Perê, em que sua velha atração pelas suítes vocais se materializa num tipo de canção popular sofisticada que não tem herdeiro.POR QUE NÃO ME UFANOUm governo se conhece na crise? Enquanto tentavam barrar as importações, as autoridades eram informadas de que o spread bancário bateu os recordes nacionais. O consumidor e o produtor só têm crédito caro, a inadimplência sobe e o emprego cai. Mas um dinheirinho a mais para o Bolsa-Família não faltará. Aforismos sem juízoDo abismo do absoluto só escapa quem beirou o precipício.''Maioria dos grandes escritores não assina finais felizes porque reage à tendência de se iludir facilmente''Quase todos os grandes personagens da literatura são leitores. Dom Quixote, Hamlet, Bovary...''

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