Pequena e solene, como quis Rossini

Missa do compositor ganhou nova vida nas mãos da maestrina Naomi Munakata

Lauro Machado Coelho, O Estadao de S.Paulo

18 de novembro de 2008 | 00h00

Petite Messe Solennelle - no título já está presente o senso de humor de Rossini, pois "pequena" e "solene" são termos que parecem chocar-se. Contudo, de uma coisa há a certeza: não foi nem um pouco pequeno o rendimento obtido por Naomi Munakata, na quinta-feira, com a sua leitura desse último "pecado de velhice" do compositor italiano, que não é tão pequena assim - pois dura uma hora e meia - e é tão solene quanto um artista como Rossini consegue ser.A missa, com suas texturas camerísticas - é acompanhada apenas por piano e harmônio -, não chega a ser tão operística quanto o Stabat Mater. Mas basta ouvir o "Quoniam tu solus sanctus", com sua saltitante introdução, para ver que o grande compositor para o palco não abandonou seus meios usuais de expressão. Essa é uma vibrante ária para baixo, que Saulo Javan interpretou com voz possante, se bem que com arremates às vezes instáveis nos agudos finais. Também o hino "O Salutaris Hostias" - acrescentado à partitura em 1864- é uma bela ária para soprano, na qual Elayne Casehr demonstrou como a sua voz amadureceu, adquirindo quentes sonoridades e uma boa projeção. E o senso de teatro não falta a essa grande missa de câmera, que se encerra com um emocionante "Agnus Dei", em que a voz de preciosos coloridos escuros de Sílvia Tessuto, entoando o miserere nobis, uniu-se à súplica do coro: dona nobis pacem. Casehr e Tessuto, de resto, uniram suas vozes harmoniosamente no dueto do "Qui tollis", de delicadas linhas ondulantes.A esses solistas de nível muito homogêneo, uniu-se o veterano tenor Marcos Thadeu, cuja voz pequena, mas de timbre e estilo muito elegantes, ofereceu uma boa interpretação do "Domine Deus". Esse grupo de solistas recebeu apoio muito seguro do harmônio de Nelson Silva e sobretudo do piano de Fernando Tomimura, que teve grandes momentos, não só nas introduções aos números vocais, mas também no recolhimento com que ele executou o Prelúdio Religioso, a peça para piano que ocupa o lugar do Ofertório. Se o Coro da Osesp tem demonstrado, em diversas ocasiões, ser uma das mais importantes formações corais do País, é quando está nas mãos de sua regente titular que ele parece ganhar um à vontade maior, uma força de persuasão toda especial. Não só no majestoso movimento final, mas também na extroversão do "Cum Sanctus Spiritus" ou na seqüência de encerramento do "Credo", o coro obteve um nível de acabamento realmente admirável.

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