Peneco - Restaurante

Você chega com amigos a um restaurante em que o que importa é ver e ser visto, cujos garçons nunca receberam um treinamento da Rede S (Sesc, Sesi, Senai), mas são bonitos de ver. Há uma espera de 40 minutos. Você sabe muito bem que 40 minutos no fuso horário de um restaurante em que o que importa é ver e ser visto, e não a fome do cliente, significam 2h30. É o ambiente ideal para pequenas neuroses florescerem. 1) Você espera. Em pé. Viu, foi visto, mas na sua fome ninguém reparou. O garçom passa com uma porção de pastéis cheirosos e quentinhos. Você disfarça e pega um? E se o prato for de batatas fritas? E se a mesa ao lado dispensar o couvert? Nem uma fatiazinha de pão italiano crocante? 2) Você chegou faz tempo, e um protagonista da novela e a moça do tempo do jornal matutino que trabalham no SBT chegam beijando os garçons. Antes que eles peçam uma mesa e furem a fila, você pega o celular e fala bem alto ''''oi, Sílvio, você me ligou?'''' 3) Prevenido, você levou um lanche no bolso? Oferece aos amigos? 4) Chega a sua vez. Vocês se sentam antes de limparem a mesa, para garantir o lugar e pegar a sobra da sobremesa e o biscoito do café? 5) Hora do vinho. Você escolhe a garrafa atento à coluna da direita? Tem três vinhos na carta, um de R$ 40, um de R$ 53 e um de R$ 190. Por que você pede o de R$ 53, não confia nos vinhos mais baratos da casa? 6) Se alguém da mesa trabalha com agronegócios, não tem problemas financeiros, e sugere o vinho que, segundo a coluna da direita, está bem acima das suas possibilidades. Você o demove da idéia, aponta rapidamente para o de R$ 53 e diz ''''vamos nesse malbec argentino aqui, malbec argentino não tem erro''''? Usa a expressão ''''o custo vale o benefício''''? 7) Incomoda quando o garçom abre o vinho, serve o seu amigo, sendo que foi você quem escolheu? E se o seu amigo agitar a taça e olhar a bebida contra a luz, incomoda? E se ele cheirar, incomoda? E se ele experimentar e falar clichês como ''''muito frutado'''', incomoda? Se o amigo cheirar a rolha, antes de experimentar a bebida, você enfia a mão na cara dele? Enfia a rolha na boca dele, até ele engolir? 8) E se ele pedir para trocar a garrafa, pois o vinho não está bom, você se levanta e vai embora, ou decide trocar o seu pedido e pede uma breja, que desce redondo? Ainda comenta a polêmica em torno do slogan, explicando por que os publicitários escolheram ''''desce redondo'''' e não ''''desce redonda'''', lembrando que o redondo se refere ao advérbio redondamente e não à cerveja ou breja ou cerva? 9) Se a garçonete bonitinha, universitária, que faz teatro, massagem rolfing e pula de pára-quedas aos fins de semana derruba o vinho frutado na sua camisa, você sorri e diz que é normal, ou fala que dançaram os 10%, e que teatro é coisa de gente maluca? 10) Chega o seu prato, um espaguete com molho de tomate suculento. Mas o guardanapo é aquele de papel; tamanho infantil. Você tem coragem de pedir um babador? Ou puxa a toalha de mesa, para ficar sobre o seu colo? Muda de prato? 11) A conta deu o equivalente a uma tevê plasma (a que você sonha comprar), porque foram muitas garrafas de vinho frutado, enquanto você só tomou aquela breja que nem desceu redondo. Você fala logo ''''só tomei cerveja'''' ou racha a conta, com medo da fama de muquirana? Você confere a conta'''', mesmo sabendo que num restaurante para ver e ser visto ninguém vê a conta, que não quer ser vista? 12) Você vê o Fernando Meirelles entrando com o Gael García. São seus ídolos. Mas você sabe muito bem que num restaurante para ver e ser visto todos têm de fingir que não vêem e não são vistos. Deixa passar batido? Esbarra neles só para ver melhor? Tira fotos escondidas com o seu celular? 13) Na saída, se o manobrista traz um Porsche, você brinca com os amigos que o seu carro chegou? Aliás, quanto você dá para o manobrista, R$ 10? Um bolo de notas de R$ 1? Ou depende de quem estiver vendo? Você fala para o manobrista ''''aquele 3 X 0 foi difícil de engolir'''', para dar uma pinta para os amigos de que você é freqüentador? Os Jogos Pan-Americanos revelam um preconceito inaceitável contra pessoas sedentárias e adeptos de jogos praticados em fins de semana chuvosos na praia. Tempos de tolerância. Por isso, inicia-se a campanha para a criação dos Jogos Paradospan, competição com modalidades como: 1) War - competição multinacional em torno de tabuleiros do War, jogo de dados popular da Grow, em que seis jogadores disputam nada menos do que o mundo. Dura horas. O ideal seria que fosse jogado às madrugadas. Sim, haverá a categoria War II e o recém-lançado War III. O interessante desse jogo é que um atleta haitiano pode derrotar um representante de uma superpotência e conquistar o mundo. Nos dados. 2) Tranca - jogo de baralho descendente do buraco, cujo três vermelho vale cem pontos, e o preto, menos cem, além de trancar a compra. Antes que fiquem todos nervosos debatendo sobre as regras polêmicas, falando coisas como ''''minha avó joga no Monte Líbano e diz que isso não vale'''', serão criadas categorias. 2.1) Tranca sem lavadeira. 2.2) Tranca que vale lavadeira de 4 e de ás. 2.3) Tranca que vale qualquer lavadeira. 2.4) Tranca que só vale pegar o morto com canastra real. 3) Truco - também haverá variações do truco: com manilha fixa ou variável. Os gritos de ''''truco'''', ''''seis'''' e ''''nove'''' podem ser na língua do jogador, mas ele terá de reproduzi-los mimicamente com as mãos. O problema será o grito ''''chupa, negão!'''' Ele deverá ser reproduzido também pelos árbitros, na língua dos adversários. 4) Palitinho - o popular porrinha. Será preciso alertar os competidores que os palitos são itens do jogo. Não podem colocar na boca durante as competições, pois há risco de ingestão inadvertida e lesões. 5) Detetive - jogo de tabuleiros da Estrela, para se revelar quem matou o senhor Body. Se é que há algum interesse em saber quem matou o tal Body. 6) Banco Imobiliário - o problema será ensinar a delegação cubana regras básicas do capitalismo, como a de que há propriedade privada que pode ser comprada. 7) Porco - jogo de baralho com vários competidores. O problema é decidir em qual língua todos chamariam o perdedor de ''''porco''''. Ou cada um chamaria na sua própria língua?

Marcelo Rubens Paiva, O Estadao de S.Paulo

07 Julho 2028 | 00h00

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