Divulgação
Divulgação

Pela primeira vez em 30 anos de carreira pintora Beatriz Milhazes revela sua técnica

Fortaleza recebe exposição da artista, que já tem mostras programadas para Hong Kong e Nova York em 2015

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

28 de fevereiro de 2015 | 16h00

FORTALEZA - Mal chegou ao fim a primeira retrospectiva da pintora Beatriz Milhazes nos EUA, em janeiro, no Pérez Art Museum de Miami, e a artista carioca já programou mais duas individuais internacionais para este ano: uma na galeria White Cube de Hong Kong (em março) e outra na galeria James Cohan de Nova York (em outubro). Em seu retorno ao Brasil após o término de sua retrospectiva de Miami, onde lançou o livro Jardim Botânico, Beatriz Milhazes abriu uma outra mostra, Coleção de Motivos, na quinta, 26. Em cartaz até maio no Espaço Cultural Unifor (Universidade de Fortaleza) da Fundação Edson Queiroz, a exposição reúne 50 obras de vários períodos, entre pinturas, colagens e gravuras, comemorando os 30 anos da primeira individual da pintora, revelada nos anos 1980 e hoje a mais valorizada entre os contemporâneos brasileiros no mercado internacional.

Na mostra cearense, Beatriz Milhazes expõe – pela primeira vez em sua carreira – os motivos pintados sobre plástico transparente que, colados à tela, são depois removidos para serem reutilizados – o que justifica o título da exposição, que tem como curadora Luiza Interlenghi. O público cearense acompanhou atento a descrição desse processo numa concorrida palestra realizada antes da abertura da exposição. Numa das paredes da sala, ela mandou colar uma epígrafe minimalista do poeta cuiabano Manoel de Barros (1916-2014): “Repetir, repetir, até ficar diferente”, justificando assim as repetições e combinações de padrões, tanto em sua pintura como nas gravuras.

Esse jogo da repetição na obra de Beatriz, diz ela, só se tornou possível porque a artista, desde que instalou o primeiro dos seus dois ateliês no Jardim Botânico, em 1987, começou a guardar cada motivo pintado sobre plástico transparente – flores, alvos, frutos – para uso futuro. Assim, diversos elementos que aparecem nas telas dos anos 1980 se repetem nas décadas seguintes num repertório em que cada novo grupo de imagens guarda conexão com as mais antigas. Até 1988, ela fazia collages de tecidos, telas industriais e embalagens de papel, mas concluiu que podia criar os próprios elementos recorrendo apenas à pintura e conservando o conceito de collage.

Essa técnica desenvolvida por ela, um processo de monotransferência com tinta acrílica, é um conceito em si, observa a pintora. Em 1985, ano de sua primeira individual, ela viu pela primeira vez um Matisse de verdade no Centre Pompidou. Foi, segundo suas palavras, “um momento decisivo”, epifânico, pois as collages ou “recortes” de Matisse, os históricos cut-outs dos anos 1940, tiveram – e ainda têm – um papel enorme em sua história, tanto como o modernismo de Tarsila do Amaral ou a arte optical de Bridget Riley, duas figuras de seu panteão artístico – os outros são Mondrian, Frank Stella, Andy Warhol, Sonia Delaunay, Hans Arp e Cruz Diez.

Deslumbrada com a economia cromática das collages matissianas, ela sentiu que, a exemplo do moderno mestre francês, podia manter a autonomia das cores, adotando procedimento idêntico ao de Matisse. Porém, de forma mais decorativa. Na pintura de Milhazes, a justaposição de conjuntos de cores faz surgir uma nova cor, deixando à mostra as marcas – e os “pentimenti” (figuras encobertas por outras) – do processo de transferência da imagem do plástico para a tela, o que dá às pinturas um aspecto de obra barroca marcada pelo tempo.

Assim como o barroco designa a imperfeição da pérola, observação aguda do curador Tobias Ostrander no livro Jardim Botânico, Beatriz assume a acumulação de formas decorativas em contraste com áreas saturadas de cor, sem se importar se incorre ou não numa orgia cromática carnavalesca ou se produz arabescos dignos de um papel de parede.

Há quem julgue esse procedimento, mais que carnavalesco ou barroco, esquemático – e até exagerado, como as roupas tropicalistas de Carmen Miranda. As composições circulares da francesa modernista Sonia Delaunay, que levaram Beatriz a criar vibrantes e rítmicas figuras similares, levaram a uma fórmula ornamental que combina arte cinética e barroca com referências à arte folk – tudo isso muito bem articulado e capaz de repelir particularmente povos de formação calvinista, como bem observa Ostrander no livro Jardim Botânico. Contra a austeridade dos protestantes, a pintura excessiva de Beatriz seria a alternativa sensual à contenção minimalista.

Beatriz, a respeito, confirma que a religiosidade dos povos latino-americanos – em especial o mexicano – marca presença em seu vocabulário estético. Na mostra cearense, há pinturas em que o uso do ouro (que identifica as figuras santas, incorruptíveis como o precioso metal, na sintaxe barroca) convive com a iconografia da tradição colonial, mas também pode ser visto dentro de uma perspectiva moderna europeia. “Nunca pensei em vestir essa roupa de artista latina, fazer da pintura um manifesto político, até porque comecei a pintar numa época em que a arte conceitual era soberana e o que fazíamos era considerado anacrônico.” Lá fora, garante Beatriz, ela é vista simplesmente como “uma pintora abstrata”.

Um dos colecionadores estrangeiros que não reduziu Beatriz ao estereótipo tropicalista é o argentino criador do Malba de Buenos Aires, Eduardo Costantini, que atualmente se dedica à construção de edifícios residenciais em Miami. Ele, que comprou a tela Abaporu, ícone do modernismo brasileiro pintado por Tarsila do Amaral, encomendou dois murais que Beatriz Milhazes está produzindo em cerâmica. Para durar uma eternidade.

NÚMEROS

2 milhões

de reais foi o preço alcançado por tela de Volpi dos anos 70 num leilão de novembro de 2014 em SP. Volpi, nosso maior pintor moderno, ao contrário de Beatriz Milhazes, não tem cotação lá fora.

2 milhões

de dólares foi o que pagou um colecionador num leilão da Sotheby’s, em 2012, pela tela ‘Meu Limão’ (2000), pintada por Beatriz Milhazes, preço recorde para uma obra da artista.

O REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DA FUNDAÇÃO EDSON QUEIROZ

Tudo o que sabemos sobre:
VisuaisBeatriz Milhazes

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.