Pela força de toda fusão

Airto Moreira e Flora Purim, conhecidos pelo estilo fusion, fazem shows no Percpan

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

05 de agosto de 2009 | 00h00

O percussionista Airto Moreira e a cantora Flora Purim formam o casal brasileiro mais famoso no meio musical internacional. Com trabalhos assinados em colaboração com uma infinidade de gigantes do jazz e do pop internacional, eles pouco vêm ao Brasil, desde que fixaram residência nos Estados Unidos em 1967. A última vez foi em 2003. Uma boa oportunidade para conferir o que ambos vêm fazendo desde então surge em setembro: Airto e Flora são duas das principais atrações da 16ª edição do festival Percpan - Panorama Percussivo Mundial, em Salvador e no Rio.As apresentações serão só aperitivo para a turnê nacional que eles preparam para 2010. É quando Flora, acompanhada do marido e de músicos como Yamandu Costa, volta para lançar o CD Flora Brasileira, que gravará em outubro no País, só de canções inéditas de jovens compositores brasileiros e exclusivamente com músicos e produtores daqui. "Talvez esse seja meu melhor disco", aposta Flora. "Acho que é a primeira vez em 40 anos de carreira que vou fazer um trabalho brasileiro." Grande disco da cantora é Flora É M.P.M., de 1964, bem brasileiro e ainda hoje moderno, gravado quando ainda morava aqui e reeditado em CD em 2004. Flora prefere guardar segredo sobre o próximo CD, mas adianta que a equipe de produção recolheu "muitos sons da Amazônia" e os produtores do álbum serão Paulo Calazans e o violonista Marco Bosco. "Marco é líder do projeto, mora no Japão, mas está no Brasil nesse momento."Nos shows do Percpan eles vão alternar material antigo e novo. "Será uma fusão, mas não a que as pessoas esperam. Não quero contar para não estragar a surpresa", diz Flora. "Estamos sempre mudando o repertório, mas há duas ou três músicas que não podem faltar. São hinos nacionais da gente e o povo quer sempre e ponto", brinca Airto. Um desses é Light as a Feather, que Flora gravou com Chick Corea. "Tem um back beat leve e depois muda para um jazz um pouco mais agressivo." Outro, Airto compôs "muitos anos atrás", Tombo in 7/4 (gravado no álbum Fingers, de 1973). "Nós mesmos gravamos essa música mais duas vezes. Há cerca de 10 anos, uns DJs na Alemanha usaram toda a segunda parte da música e fizeram um remix. Ficou muito bom e foi para o primeiro lugar em 27 países", lembra o percussionista. "O pessoal chama de Samba de Janeiro e não sabe que é minha música."Na banda que acompanha o casal está Krishna Booker, que faz rap e beat box (percussão com a boca) e já esteve no Brasil com Sergio Mendes. "Nosso show, por minha causa, é percussivo", diz Airto, que não tem gravado tanto como antes com os músicos do jazz americano. "Não gosto muito de gravar. A não ser quando é algo mais criativo, mais aberto. Não gosto de ir ao estúdio para tocar com tudo certinho, programado. Meu forte é tocar para público. Música ao vivo tem certa energia, maravilhosa. É a energia primária, que não tem a ver só com música, mas aquela que rege todo o universo."Nos anos 1970, Airto integrou a formação original do Weather Report, que já fazia misturas do jazz com música eletrônica e brasileira, mas não seguiu adiante, porque tinha vínculos com Miles Davis. Então, ele e Flora indicaram Don Um Romão para tocar percussão no grupo. "Quando você tirava tudo e deixava o ritmo, parecia música brasileira", observa. Na época, esse tipo de experiência se chamou fusion. "Eu e Flora, durante anos, fomos classificados como fusion, porque tocávamos música brasileira e na hora de solar quebrava tudo, fazia jazz."Acompanhando as transformações do jazz esses anos todos, Airto não só aprova como continua a praticar as fusões. "Sinto uma vontade dos músicos de jazz de se misturarem, buscando todo tipo de música para improvisar. E música brasileira já faz muitos anos que eles usam. Agora, como a música brasileira mudou bastante, os bons músicos americanos, de jazz e de outros estilos, estão buscando essas novidades também. É música com ritmo bom e harmonia inteligente e dá boa oportunidade para eles improvisarem. De maneira geral, eles chamam nossa música de samba-jazz ou brazilian jazz."Flora sente que os EUA vivem hoje um momento "quase como foi um pouquinho antes de Woodstock", o revolucionário festival de rock e folk que completa 40 anos. "Todo mundo se cansou das gravadoras ditarem o que você deve ou não fazer. A pirataria, ninguém sabe realmente que começa dentro ou fora das gravadoras. Enfim, todo mundo está trabalhando em busca de uma coisa nova, revolucionária, pioneira, cada um no seu campo de trabalho", diz. A cantora é entusiasta do senso de colaboração cada vez maior entre os músicos do planeta, seja em contato direto, ou via internet, telefonia. "Acho isso maravilhoso, a música como sempre está unindo o mundo em vez de separar. Dou toda força à fusão, acho importantíssimo cada um conhecer o background de cada nação e o que eles têm a dar."Em fevereiro, Flora fará show no festival de jazz e blues em Guaramiranga, interior do Ceará. "Meu convidado é o Manacés. Você já imaginou ele tocando blues? Isso é o samba do crioulo louco, é muito curioso. A música está cada vez mais livre e acredito em sua influência, porque daí vão nascer crianças híbridas, vão aprender cedo que não podem existir racismo nem fronteiras. Sou um pouquinho mais politizada do que o Airto, acho que as mulheres têm uma força por serem matrizes."Morando na Califórnia, Airto e Flora rodaram o mundo e continuam em plena atividade, como nesta temporada em turnê pela Europa. Mas mantêm vínculos com o Brasil. "Temos amigos aí que sempre nos enviam CDs de cantoras, compositores e musicistas. Neste momento há muita música boa sendo feita aí", diz Airto, por telefone, de Lisboa. Ele e ela apontam Lenine como um dos artistas mais interessantes e criativos que ouviram nos últimos tempos.

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