Pavor de mãe

De certa forma, o mundo adaptou-se às recomendações das nossas mães.Um dos pavores de mãe era corrimão de escada, lembra? Saíamos de casa com ordens para não tocar em nenhum corrimão, o que nos encheria a mão de germes dos outros. A invenção da escada rolante nos dispensou deste cuidado.Outro pavor de mãe era dinheiro. Depois de tocarmos em dinheiro tínhamos que lavar as mãos correndo. E ai de quem esfregasse os olhos ou botasse um dedo na boca com a mão envenenada por dinheiro. Para prevenir a cegueira, evitar a intoxicação mortal e aplacar as mães, inventaram o cartão de crédito.E até a proliferação de travestis, ou mulheres que fazem xixi de pé, tem a ver com pavor das mães. Que não cansavam de alertar as filhas para o perigo de sentar em privadas públicas.SOM DOS TEMPOSAs épocas têm trilhas sonoras. A trilha sonora da nossa época, o som do nosso tempo, é o som dos alarmes de carro. O som da paranoia justificada.O alarme de carro é o grito da nossa propriedade de que alguém está querendo tirá-la de nós. É a palavra mais desesperada que um ser humano pode produzir - "Socorro!" - mecanizada, padronizada e repetida com todo o volume. É típico porque existe para compensar a carência mais evidente da época, que é a falta de segurança. Os carros pedem socorro porque sua defesa natural - polícia por perto ou o respeito pelo que é dos outros - não existe. Só lhes resta gritar.E o alarme contra roubo de carro é próprio da época porque, frequentemente, não funciona. Ou funciona quando não deve. Ouvem-se tantos alarmes de carro a qualquer hora do dia ou da noite porque, talvez influenciados pela paranoia geral, eles disparam sozinhos. Basta alguém se aproximar do carro com uma cara suspeita e eles começam a berrar.OBERONO nome não é a pessoa, mas minha vida seria completamente diferente se eu me chamasse, por exemplo, Oberon. Oberon Frenegaz de Hoz e Malgavia.Para começar, jamais teria dificuldade em reservar mesa em restaurantes.- Es para Oberon Frenegaz de Hoz e Malgavia de Soler e Pantajas.Uma pausa e o arremate:- Tercero.- Sim senhor. Uma mesa para quantos?- Dez. Estarei sozinho.Sim, porque, com um nome assim, mesmo sozinho você é um cortejo.O nome que escolhemos, ao contrário do nome que nos dão, revela a ideia que fazemos de nós mesmos e os projetos secretos que sempre tivemos para nossas vidas e o nome dado impedia. Quem escolhe se chamar Oberon é porque tem ambições de Oberon. Planos de Oberon. Que, obviamente, boas coisas não podem ser.Minha mulher não entenderia.- Mas Luis Fernando...- Oberon.- Mas Oberon... Esse bigode. Essa piteira de madrepérola. Você nem fumava.- Cajate, mujer.- E esse mau espanhol...- No tengo que te dar explicaciones. Mis pantufas!

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