AMANDA PEROBELLI/ESTADÃO
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Bienal de Veneza terá obras audiovisuais para discutir cultura brasileira

Projeto do pavilhão brasileiro, de Bárbara Wagner & Benjamin de Burca e escolhido pelo curador Gabriel Pérez-Barreiro, dialoga com o tema do evento italiano, que será aberto em maio

Pedro Rocha, Especial para o Estado

21 de dezembro de 2018 | 03h00

Depois de atuar como o curador-geral da 33.ª Bienal de São Paulo, que chegou ao fim do início do mês, o espanhol Gabriel Pérez-Barreiro foi anunciado, oficialmente, como o curador da participação brasileira na 58.ª Exposição Internacional de Arte, a Bienal de Veneza. A escolha foi anunciada, em conjunto, pela Fundação Bienal de São Paulo, o Ministério da Cultura e o Ministério das Relações Exteriores nesta sexta-feira, 21. 

Para o Pavilhão do País em Veneza, Pérez-Barreiro tomou algumas decisões. “Não queria repetir um artista da 33.ª Bienal e o Brasil tem uma tradição interessante de não escolher, para o Pavilhão, artistas já bem consagrados e em final de carreira”, explica o curador, em entrevista ao Estado. Além disso, Gabriel preferiu apostar no trabalho de apenas um artista, e não uma exposição coletiva. 

O artista escolhido por ele, na verdade, foi uma dupla, Bárbara Wagner & Benjamin de Burca, que já trabalham juntos desde 2013, no Recife, com a produção de obras audiovisuais que utilizam a música para discutir temas de religião, classe, gênero e raça na cultura brasileira. “Já conhecia o trabalho deles há bastante tempo, tanto da Bárbara como fotógrafa, quanto dos dois como filmmakers”, diz Gabriel. “Eles têm um olhar muito interessante para a cultura brasileira, que não chega a ser antropológico, mas é bem próprio e sutil, sobre fenômenos da sociedade atual e sobre como as pessoas querem se expressar.”

A brasiliense Bárbara Wagner e o alemão Benjamin de Burca já estavam desenvolvendo um novo trabalho quando receberam o convite de Pérez-Barreiro. A dupla ainda não pode adiantar muita coisa do projeto porque, segundo eles, o resultado final pode variar de acordo com o processo de desenvolvimento. “Estamos em processo de pesquisa e demora bastante tempo. Nos encontramos com muitas pessoas e a metodologia é muito definidora do que os filmes vão apresentar”, explica Wagner. “Se a gente sente uma urgência em trabalhar determinados assuntos, nos aproximamos de pessoas que são atores dessas questões e junto com elas desenvolvemos esse processo.”

Mais uma vez, é provável que o trabalho da dupla tenha foco em artistas populares, com foco no próprio Recife. A pesquisa, segundo eles, vai até o final de janeiro, para filmagens já no final de fevereiro.

Tema central. Nesta 58.ª edição, a Bienal de Veneza tem como tema central May You Live In Interesting Times (Que você viva em tempos interessantes), escolhido pelo curador-geral Ralph Rugoff para discutir questões como a pós-verdade e as fake news, por fazer alusão a uma frase falsamente atribuída a uma maldição inglesa. Apesar de nenhum país ser obrigado a seguir o mesmo direcionamento, coincidentemente, a obra de Wagner e de Burca, na opinião de Pérez-Barreiro, faz um diálogo com o tema. “Para mim, o trabalho fala da ambiguidade da autorrepresentação e como a mídia permite uma maior visibilidade a culturas, digamos assim, marginalizadas.”

Os artistas concordam que há uma relação com o tema central. Para de Burca, todo o trabalho da dupla tenta mostrar qual é o pensamento de diferentes pessoas. “O mundo está ficando mais binário, muita gente não sabe o que os outros estão pensando”, ele acredita. “Vivemos numa bolha de redes sociais, o trabalho tem como proposta de desenvolvimento mostrar que o mundo tem vários níveis, é mais complexo, nem tudo é binário.” Wagner lembra que a dupla sofreu críticas por conta disso ao apresentar o trabalho Terremoto Santo, que mostrava cantores evangélicos. “Para muitas pessoas, o fato de a gente se aproximar daqueles artista só poderia ser deboche ou propaganda.” 

A 58.ª Exposição Internacional de Arte, a Bienal de Veneza, será aberta ao público em 11 de maio e segue até o dia 24 de novembro de 2019. A participação brasileira na Bienal de Veneza é uma iniciativa conjunta entre o Ministério da Cultura, o Ministério das Relações Exteriores e a Fundação Bienal de São Paulo. Em nota, o ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, destacou o reconhecimento da “excelência” das exposições apresentadas no Pavilhão do Brasil. “Isso só é possível com a união de esforços dessas três instituições que, com todas as especificidades de suas vocações, compartilham de um mesmo projeto.”

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