Paulo Szot festeja seu Tony de ator

Barítono brasileiro ganha o Oscar do teatro americano por South Pacific

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

17 de junho de 2008 | 00h00

O imenso sorriso de Liza Minnelli recebeu um aturdido Paulo Szot no palco do Radio City Music Hall, em Nova York, na noite de domingo. A atriz acabara de anunciar o barítono brasileiro como vencedor do Prêmio Tony de melhor ator de musical, por sua interpretação em South Pacific. E, enquanto Szot ainda tentava tomar consciência do fato (''Nossa, Liza Minnelli!''), gritos vindos do fundo da platéia (na última fileira estavam os diretores Charles Moeller e Cláudio Botelho, além da assessora Luciana Medeiros) marcavam a comemoração tupiniquim e a consagração de um marco - aos 38 anos, paulista de Ribeirão Pires, descendente de poloneses, Paulo Szot é o primeiro brasileiro a ganhar um Tony, o equivalente ao Oscar do teatro dos EUA.A consagração veio por conta de sua atuação como o sedutor Emile de Becque, fazendeiro francês que mantém um romance com uma enfermeira americana (Kelli O''Hara, que perdeu o troféu para Patti LuPone, de Gypsy), em uma ilha da Polinésia. Logo que fez teste para o espetáculo, no ano passado, Szot convenceu os produtores de South Pacific de que exibe o tipo físico, o colorido vocal e uma energia cênica que o tornam idealmente talhado para criar o papel.''Na verdade, eu me senti duplamente premiado'', disse Szot ao Estado, em entrevista por telefone. ''Cresci admirando o trabalho da Liza Minnelli, especialmente sua interpretação de New York, New York, e, ouvir meu nome pronunciado por ela, valeu como um troféu.''Ao subir no palco, aliás, o barítono brasileiro ouviu da cantora que ficou emocionada com sua voz - momentos antes, Szot cantara Some Enchanted Evening ao se apresentar entre os candidatos ao troféu de melhor ator.A premiação modificou a rotina do cantor que, de posse do troféu, foi a duas festas depois da cerimônia: uma dos organizadores do Tony e outra promovida pelos produtores de South Pacific. Na manhã de ontem, o assédio continuava grande - o brasileiro foi entrevistado pelas redes de televisão ABC e CBS. Uma dúvida, aliás, foi levantada pelas duas emissoras: seria o cinema seu próximo passo?''Entendo essa dúvida, pois quem está na Broadway normalmente participa de algum filme'', explicou Szot. ''Mas confesso que ainda não pensei nesse assunto. É um passo tão grande como conquistar um Tony, que nem era um sonho, pois se trata de um prêmio distante para os brasileiros.''O troféu, aliás, enterra solenemente a dúvida de seus colegas de Broadway, habitualmente céticos quanto à capacidade de atuar dos que vêm da ópera. E deve calar os cantores de ópera, que não toleram a ''traição'' de quem envereda para o musical.O sessentão South Pacific (foi escrito em 1949 pela mítica dupla Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II) foi o grande premiado da 62ª edição do Tony, com sete troféus, seguido de August: Osage County, a escabrosa narração de Tracy Letts sobre uma família disfuncional de Oklahoma, faturou cinco, inclusive o de melhor peça dramática - o musical escolhido foi In the Heights, que trata da vida de hispanos em um bairro de Manhattan, o que explica os abundantes ritmos de salsa, rap e hip-hop.Também premiado, o diretor que supervisionou South Pacific, Bartlett Sher, homenageou Rodgers e Hammerstein. ''Foram homens incríveis, pois me ensinaram de que não sou apenas um artista, mas também um cidadão'', disse ele, lembrando da ressonância que o musical, que trata da tensão racial em tempo de guerra, tem com a realidade, especialmente com a participação de Barack Obama na disputa pela Presidência americana. ''O trabalho que fazemos em musicais ou em qualquer obra não é importante apenas para entreter as pessoas, mas serve para mostrar que este país é um lugar realmente excelente - e, se o mudarmos um pouco, poderia ser um pouco melhor.''OS PREMIADOSMELHOR DRAMA: August: Osage County (Tracy Letts)MELHOR MUSICAL: In the HeightsMELHOR CANÇÃO: Passing Strange (Stew)MELHOR MÚSICA ORIGINAL (MÚSICA E/OU LETRA): In the Heights (Música e letra: Lin-Manuel Miranda)MELHOR REMONTAGEM EM DRAMA: Boeing-BoeingMELHOR REMONTAGEM EM MUSICAL: South PacificMELHOR ATOR EM DRAMA: Mark Rylance (Boeing-Boeing)MELHOR ATRIZ EM DRAMA: Deanna Dunagan (August: Osage County)MELHOR ATOR EM MUSICAL: Paulo Szot (South Pacific)MELHOR ATRIZ EM MUSICAL: Patti LuPone (Gypsy)MELHOR ATOR COADJUVANTE EM DRAMA: Jim Norton (The Seafarer)MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM DRAMA: Rondi Reed (August: Osage County)MELHOR ATOR COADJUVANTE EM MUSICAL: Boyd Gaines (Gypsy)MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM MUSICAL: Laura Benanti (Gypsy)MELHOR DIREÇÃO EM DRAMA: Anna D. Shapiro (August: Osage County)MELHOR DIREÇÃO EM MUSICAL: Bartlett Sher (South Pacific)MELHOR COREOGRAFIA: Andy Blankenbuehler (In the Heights)MELHOR ORQUESTRAÇÃO: Alex Lacamoire e Bill Sherman (In the Heights)MELHOR CENOGRAFIA EM DRAMA: Todd Rosenthal (August: Osage County)MELHOR CENOGRAFIA EM MUSICAL: Michael Yeargen (South Pacific)MELHOR VESTUÁRIO EM DRAMA: Katrina Lindsay (Les Liaisons Dangereuses)MELHOR VESTUÁRIO EM MUSICAL: Catherine Zuber (South Pacific)MELHOR ILUMINAÇÃO EM DRAMA: Kevin Adams (The 39 Steps)MELHOR ILUMINAÇÃO EM MUSICAL: Donald Holder (South Pacific)MELHOR SOM EM DRAMA: Mic Pool (The 39 Steps)MELHOR SOM EM MUSICAL: Scott Lehrer (South Pacific)PRÊMIOS ESPECIAIS:Chicago Shakespeare Theater (melhor programação regional)Robert Russell Bennett (Tony especial)Stephen Sondheim (Conjunto da obra)

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