Paulo Bruscky e a coerência que brota da utopia

Seu universo fascinante e ousado está em mostra no MAC-USP e em livro

Maria Hirszman, O Estadao de S.Paulo

08 de novembro de 2007 | 00h00

Paulo Bruscky é dessas figuras que estão em permanente movimento. Quando tentamos resumi-lo, ele já migrou para outro lugar, buscando novas formas e idéias para exprimir sua visão de mundo, em movimentos de ruptura e retorno, permanentemente repensando o mundo e a arte a partir de sua vivência. Universo fascinante e aparentemente caótico, a arte de Bruscky foi objeto de pesquisa, sistematização e questionamento que geraram alentado livro e uma exposição com mais de 150 trabalhos que será inaugurada hoje, no MAC-USP.O resultado desse processo, no entanto, vai muito além dessa produção. Segundo a curadora Cristina Freire, a reflexão que culminou com a mostra e a publicação não apenas contribuem para divulgar a importância e a originalidade da obra de Bruscky, mas é um processo importante para repensar a relação entre o museu e a arte contemporânea. A arte conceitual, movimento no qual Bruscky fixa também raízes, surge no final da década de 60 e até hoje essa produção se choca com os paradigmas museológicos vigentes. Basta lembrar que quando o Museu de Arte de Nova York (MoMA) comprou a célebre obra Uma e Três Cadeiras, de Joseph Kosuth, ela foi segmentada em diferentes grupos, correspondentes ao suporte físico de cada uma delas. ''''O mais difícil é mudar mentalidades, mas nosso papel é repensar instituições'''', diz a pesquisadora.Mesmo as obras de Bruscky que pertencem ao MAC e que dão origem à mostra ficaram muito tempo entre a biblioteca e o acervo, já que se tratam de experiências no campo da arte postal ou experimentações gráficas e poéticas que chegaram ao museu assim como uma vasta rede de artistas e instituições com as quais ele se correspondeu. É o caso da obra É Assim Que Meu Cérebro Desenha, que combina técnicas, matérias e processos os mais variados (xerox, eletroencefalograma, arte postal, etc...), de forma arguta e irônica.Além da diversidade de técnicas, das ousadias irônicas que colocam em choque idéias e coisas, há três aspectos na obra do artista que se sobressaem nesse estudo e que estão sublinhados no subtítulo do livro, Arte, Arquivo e Utopia. Arte é, evidentemente, o campo em que Bruscky opera, apesar das dificuldades e dos múltiplos escapes dessa produção. Arquivo remete ao modus operandi desse processo (como aliás foi possível ver na 26ª Bienal de São Paulo, na qual foi remontada uma réplica de seu apartamento-ateliê, com toda aquela efervescência de informações em que não se sabe onde termina a vida cotidiana e começa a obra de arte). E Utopia talvez seja aqui a palavra que dê coerência ao conjunto, pois traduz a idéia de resistência, de idealismo presente em sua obra de forma profundamente radical. Basta lembrar que Bruscky nunca vendeu um trabalho. ''''A recusa do calor econômico de seus trabalhos significa mais do que a afirmação de um sistema alternativo ao mercado. Ao negar a mercantilização generalizada, opõe-se à fragmentação que nos impõe à sociedade moderna'''', escreve Cristina. Marca profunda de coerência que dá sentido e valor a esse conjunto de práticas variadas e dinâmicas.Serviço:Paulo Bruscky. MAC-USP. R. da Reitoria, 160, 3091-3039. 3.ª a 6.ª, 10 h às 18 h; sáb. e dom., 10 h às 16 h. Grátis. Até 28/4. Abertura hoje, 19 h, para convidados, com lançamento do livro Paulo Bruscky - Arte, Arquivo e Utopia, de Cristina Freire

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.