Paul Weller, um clássico do britpop

Ex-líder do The Jam e Style Council diz que nunca dá bola para críticas negativas

Entrevista com

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

01 de outubro de 2008 | 00h00

O guitarrista, cantor e compositor inglês Paul Weller é um dos maiores heróis do rock inglês, o qual ajudou a renovar em caminhos radicalmente opostos em três diferentes décadas. A primeira vez foi nos anos 1970, à frente do grupo The Jam, um portento que reviveu o estilo mod dos anos 1960, com suas ondas de psicodelia (mas cheio de espírito punk). A segunda vez foi nos anos 80, com uma das bandas mais cheias de groove da década, o Style Council, que inoculou jazz, funk, soul e bossa nova na veia do rock. Depois, em carreira-solo, munido de algumas guitarras Rikenbacker, voltou a animar o britpop com melodias limpas, arrumadinhas.Bom, a boa notícia é que o lendário Paul Weller, aos 50 anos de idade e 30 de carreira, finalmente desembarca no Brasil para seu primeiro show no País. Ele toca no TIM Festival na Marina da Glória e no Auditório do Ibirapuera (os ingressos estão esgotados para São Paulo), nos dias 23 e 25 deste mês.A outra boa notícia é que o rock de Weller não só não envelheceu como está ainda fazendo transfusão de sangue para as novas gerações do britpop. Ele acaba de lançar o álbum 22 Dreams, no qual tem a colaboração de Noel Gallagher e Gem Archer (do Oasis), Steve Cradock (do Ocean Colour Scene) e Graham Coxon (ex-guitarrista do Blur). É o velho britpop dando régua e compasso para o bripop estabelecido."Esses caras têm estado por aí nos últimos anos, e nós já tocamos em tantos festivais juntos que nos tornamos amigos. A colaboração acabou sendo natural. Temos grande respeito mútuo e afinidades artísticas", explicou Paul Weller, falando ao Estado por telefone, desde Londres.Paul Weller é tão classudo que nem uma resenha descendo o cacete no seu novo disco o faz perder o bom humor e a fleuma britânica. É que Alexis Petradis, crítico do prestigioso jornal inglês The Guardian, baixou o sarrafo em 22 Dreams, dizendo que algumas músicas lembram até Richard Clayderman. "Nunca leio as críticas negativas, só as positivas", confessou Weller, rindo. "22 Dreams é o álbum mais espontâneo que fiz em muitos anos. Tem muita improvisação, um espírito de liberdade. Não é intencionalmente eclético", considerou o guitarrista. "É um álbum pop, mas com grande conexão de uma música para outra. É por isso que disse que pode ser ouvido de forma semelhante a Pet Sounds ou Sgt Peppers", explicou, para esclarecer que nunca pensou em comparar seu álbum aos discos clássicos dos Beach Boys ou dos Beatles.Há alguns sintetizadores estranhos, uma certa atonalidade em algumas músicas, e o instrumental às vezes lembra mesmo coisas de Brian Wilson ou Beatles, com uma profusão de teclados Moog e mellotron. Mistura rock, funk, soul, free jazz, krautrock, música erudita, eletrônica e o estilo spoken words, com declamação de versos pelo guitarrista Aziz Ibrahim em uma faixa.É de fato um álbum "conceitual": abre com uma faixa chamada Light Nights e fecha com uma faixa chamada Night Lights. Noel Gallagher toca baixo e piano na faixa Echoes Round the Sun. Há uma homenagem a Alice Coltrane, a viúva de John, em Song for Alice (na qual Robert Wyatt toca trompete). Os 22 sonhos do título não são muito bem explicados pelo autor. "É um título poético", explica apenas.As letras falam de amor, exílio, nostalgia e passagem do tempo. Resumem um ano na vida do artista. "Nunca entendi a música como algo feito em compartimentos estanques", ele disse. "Eu poderia ouvir Debussy em um minuto, e a seguir algum álbum de jazz avant-garde, e em seguida Curtis Mayfield. No fim, tudo vem da mesma fonte."Sobre a presença da bossa nova em alguns discos do Style Council (é visível sua cadência em músicas como Have You Ever Had It Blue), Paul Weller foi um tanto impreciso sobre as influências. "Na época, eu ouvia alguns discos de Gilberto Gil e outros músicos brasileiros. Ouvia samba, mas também a música mais ligada às raízes, muita música africana, e muito jazz americano. Acho que essa mistura é que resultou naquele som."O Style Council foi um dos mais engajados grupos do pop rock de sua época, tanto quanto o Clash. Professando uma aberta crença no socialismo, participou de ações ativistas de trabalhadores e condenou no palco o governo de Margareth Thatcher. Hoje em dia, Weller anda mais calmo. "Ainda tenho grande crença na política, mas evito manifestá-la para uma platéia. Mas, quando eu denuncio as mentiras que estão por trás de certas ações governamentais, estou fazendo política", ele diz.Nos anos 1970, Paul Weller ficou conhecido como "The Modfather" (um trocadilho com Godfather, o Chefão, e com a palavra mod, que representa um estilo de vida jovem dos anos 60). The Modfather é um sujeito generoso: não critica ninguém, e elogia abertamente todos os postulantes do Olimpo da música atual. "Acho que Amy Winehouse é um grande talento. Gosto de Arctic Monkeys. Gosto também de algumas bandas americanas, como Yeah Yeah Yeahs e Strokes."

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