Paul Leduc avalia a sua estética revolucionária

Diretor homenageado pelo Festival de Cinema Latino-Americano fala dos filmes que estabeleceram sua reputação, como Reed, México Insurgente

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

07 de julho de 2026 | 00h00

Final da tarde de terça-feira, no Memorial da América Latina. Paul Leduc conversa com o repórter do Estado um pouco antes de apresentar, à noite, Reed, México Insurgente, seu clássico de 1973, que integra a retrospectiva que lhe dedica o 2º Festival de Cinema Latino-Americano. O que ele pretende dizer ao público? ''''Não preparei nada. Apenas alguma coisa sobre o personagem e o quadro em que o filme foi feito.'''' Na última vez que (re)viu México Insurgente, o diretor só teve olhos para os defeitos e não adianta o repórter dizer que é um clássico do cinema latino-americano.''''Naquele tempo, estávamos muito empenhados, no México, no Brasil, em criar um tempo de narração próprio do cinema latino. Queríamos ir contra a forma dominante de narrar de Hollywood. Hoje, México Insurgente me parece lento, sem atrativos para as platéias jovens, que gostam de narrativas mais aceleradas.'''' Aos 65 anos, Leduc é autor de uma obra importante do cinema mexicano e latino. Começou na TV, como documentarista - fez uma série de 16 programas sobre o México, com a participação de Carlos Castañeda e do fotógrafo Alex Grivas -, antes de virar diretor de ficção. O festival está mostrando títulos fundamentais de sua carreira - além de Reed, México Insurgente, sobre o jornalista americano John Reed, que foi ao México para cobrir a Revolução Mexicana e se tornou revolucionário, também Frida, Natureza Viva, sobre Frida Khalo, e Etnocídio, sobre a exploração dos índios de seu país.De onde vem este nome tão europeu? ''''Meu tata-tataravô integrou, como enfermeiro, as forças do imperador Maximiliano, no século 19. Apaixonou-se pelo México e permaneceu no país. Meu sobrenome vem dele, mas o nome, Paul, foi escolhido por ser bilíngüe, o mesmo em inglês e francês. Minha mãe era de ascendência inglesa.'''' Nos anos 60, o jovem Paul Leduc foi muito marcado pela Revolução Cubana e pelo Cinema Novo. Na verdade, duas revoluções - uma política e outra estética. Disposto a se tornar cineasta - e a usar o cinema como instrumento de investigação/transformação da realidade -, ele foi estudar no IDHEC, o Instituto de Altos Estudos Cinematográficos de Paris. De volta ao México, virou diretor de TV e, depois, de cinema.''''O México havia sido uma potência cinematográfica'''', ele lembra. ''''Por volta de 1970, a produção estava caída, mas os sindicatos eram fortes e os custos, muito elevados.'''' As tabelas destinavam-se à produção de 35 mm. Leduc fez México Insurgente em 16 mm. Gastou 28 vezes menos dinheiro do que Felipe Cazals, seu companheiro de direção (e ideologia), quando fez Emiliano Zapata, no cinemão, em 1970. Leduc avalia que, na época, era muito influenciado pelo Cinema Novo, pelo experimentalismo de Jorge Sanjinés (Yawar Mallku) e por toda uma corrente de esquerda que contestava o estilo de narrar de Hollywood. Reavaliando México Insurgente, ele acha hoje que o filme poderia ter outro pique. O repórter observa que o tempo é justo para as intenções. ''''Sim, mas você é cinéfilo'''', observa o diretor.O problema não é fazer concessões, mas se comunicar com uma platéia cujo gosto mudou. Leduc chegou a parar com o cinema. Voltou no ano passado com O Cobrador, adaptado do conto de Rubem Fonseca, acrescido de outro material do escritor. Ele admira a literatura de Fonseca, a maneira como o autor trata os problemas sociais por meio de personagens muito bem construídos. Leduc está atento às transformações que ocorrem no mundo. Acham que ainda está para surgir o grande filme latino sobre o mundo globalizado. Por que não o faz? ''''Acho que tem de ser um diretor jovem'''', diz. Vê com reservas o atual boom do cinema mexicano. Alejandro González-Iñárritu e Alfonso Cuarón estão produzindo numa bolha de Hollywood. Sua passagem pelo Festival do Cinema Latino-Americano prevê uma aula magna. Ele descarta que vá dar uma master class. Prefere charlar. ''''Quero conversar com as pessoas, principalmente com os jovens. A troca poderá ser estimulante.''''

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