Passos e poética da mestiçagem

Ângelo Madureira e Ana Catarina Vieira ampliam referências em O Nome Científico da Formiga

Crítica Helena Katz, O Estadao de S.Paulo

25 de junho de 2008 | 00h00

São poucos os criadores em dança que se dedicam a construir um vocabulário. O Nome Científico da Formiga, a mais recente produção de Ângelo Madureira e Ana Catarina Vieira, em cartaz hoje e amanhã no Sesc Consolação, continua o que seus outros espetáculos vêm gestando, e traz novidades na sua equipe de colaboradores: a participação de Ana Noronha, a direção de Fernando Faro e a colaboração de Ana Lívia Cordeiro.Houve uma ampliação de referências, que reuniram Man Ray, Kandinsky, Chaplin, Paul Élouard, dentre muitos outros, e elas promoveram uma nova dramaturgia, tecida, sobretudo, na costura do movimento com todas essas imagens. Os figurinos de Gustavo Silvestre, que remetem a Debret, são um poderoso achado, pela síntese entre casa-grande e senzala que propõem. Totalmente brancos, quando ocupam o palco também branco, sem a interferência de nenhuma outra informação, montam uma poética poderosa.A estrela do espetáculo, contudo, continua sendo o vocabulário. Agora, ele resulta de um modelo combinatório entre 1.800 fotografias que Ângelo e Ana Catarina selecionaram de suas obras anteriores. A dupla montou séries formadas por uma foto referente a cada uma delas, obedecendo à sua ordem cronológica, ou seja, grudou uma foto de Somtir (2003), a uma de Outras Formas (2004), e outra de Clandestino (2006), e passou a inventar as ligações que permitissem ao corpo reproduzir o movimento de uma fotografia para entrar no seguinte. O resultado é instigante e aponta para uma espécie de mestiçagem em elipse, infindável.O Nome Científico da Formiga mantém as danças populares como referência, tal como nas criações anteriores, com seus passos apresentados em situações diferentes daquelas onde habitualmente os encontramos: passam a ser feitos com o corpo deitado no chão, ou só com um pedaço do corpo, e esses deslocamentos trazem muito estranhamento, muitas vezes a ponto de não mais os reconhecermos. Assim, os passos são jogados em uma diáspora, e passam a se encadear com outros passos, diferentes daqueles com quem conviviam na sua dança de origem. Misturas e mais misturas, que ficam dando nascimento a mais misturas.A mais central de todas, contudo, talvez esteja sintetizada na frase que antecede a genial associação entre Vassourinhas, a música-emblema do frevo, e a cena mais famosa do musical Cantando na Chuva. A frase diz: ''O encontro entre dois clássicos'' e, como Gene Kelly usa um guarda-chuva, a referência à sombrinha do frevo fica ainda mais clara. Mas há outros ''encontros entre dois clássicos'', além desse e do próprio encontro da dança popular (via Ângelo Madureira) com o balé (via Ana Catarina Vieira) - o tema ao qual ambos vêm se dedicando há seis anos. A própria construção do vocabulário revela camadas distintas de encontros com outras culturas populares, quando, por exemplo, liga o Nordeste ao Sudeste do Brasil, aos cossacos russos, a movimentos de cabeça das danças da Indonésia, e por aí afora.Dada a complexidade do vocabulário, torna-se ainda mais surpreendente a qualidade da dança de Ana Noronha, que revela uma bailarina em quem se prestar atenção. Seu corpo parece talhado para essa pesquisa de linguagem. O final, com Gene Kelly dançando frevo, ganha ainda outra camada de leitura. Se o guarda é quem censura a sua dança, e ele dá o seu guarda-chuva à primeira pessoa que vem passando, pode-se arriscar a pensar no que, nos dias de hoje, ocupa o lugar desse guarda, autorizando e desautorizando a possibilidade de se dançar? A metáfora fica ainda mais contundente quando se lembra que, ao longo da obra, a liberdade foi sendo muito citada.Esse final remete ao início, quando se projeta em um telão um trecho de uma entrevista que Fernando Faro fez com Ana Catarina Vieira para seu programa Móbile, e que foi transmitida pela TV Cultura no dia 28 de maio. Uma artista, em seu camarim, tirando a maquiagem e falando da necessidade de liberdade para levar adiante o seu trabalho.Quem se pergunta qual é, afinal, o nome científico da formiga, talvez seja levado também a pensar que a questão pode estar antes, ou seja, que a questão talvez esteja na própria necessidade de se buscar a validação da formiga através do seu nome científico. Talvez o recado seja para a necessidade de refletir sobre os critérios sociais de validação com que temos convivido e, quem sabe, começar a problematizá-los no campo da dança.Serviço O Nome Científico da Formiga. 60 min. Livre. Teatro Sesc Anchieta (320 lug.).R. Dr. Vila Nova, 245, 3234-3000. 4.ª e 5.ª, 21 h. R$ 2 a R$10. Até 26/6

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