Passe de bola por trás das câmeras

Walter Salles e Daniela Thomas falam da necessidade que sentem de repetir periodicamente a parceria que deu certo

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

03 de setembro de 2008 | 00h00

É a pergunta que você, cinéfilo, com certeza já se deve ter feito - por que Walter Salles, um dos importantes diretores brasileiros (e com uma estável carreira internacional), volta e meia sente essa necessidade de compartilhar a realização com Daniela Thomas? E outra - como e por que o filho do banqueiro (seu pai, Walter Salles, foi um dos homens mais ricos do Brasil) fez essa opção por contar histórias de excluídos, marginalizados, ou utopistas como o jovem Che Guevara? Essas e outras perguntas foram levadas a Waltinho, como é chamado, e a Daniela Thomas, que na semana passada participaram, em São Paulo, de rodadas de entrevistas promovendo Linha de Passe, novo filme da dupla, premiado em Cannes - melhor atriz para Sandra Corveloni - e que estréia na sexta, dia 5.E, então, por que compartilhar a direção? Não adianta dizer que Daniela é sua alma gêmea porque essa união fraterna vale para alguns filmes, não para todos.Walter Salles - Fazer filmes não é uma atividade solitária. Muita gente se envolve e participa do processo, mas, apesar disso, e de estar sempre trocando informações com artistas e técnicos, dirigir tem um lado solitário, sim. Daniela e eu combinamos que temos carreiras -solos, mas a cada década, ou menos, vamos fazer um filme juntos. É uma parceria que vem dando certo e, ao mesmo tempo, satisfaz a minha necessidade do outro, para me completar. Co-dirigir com ela me estimula e também me completa. Estamos no nosso quarto trabalho (NR - os longas Terra Estrangeira e O Primeiro Dia, o episódio de Paris Eu Te Amo; mas Daniela corrige e diz que é o quinto, acrescentando o curta Amor e Armas, sobre Adão Xalebaradã) e ela me completa. No set, basta às vezes uma troca de olhares para estarmos em sintonia.Mas você ainda não respondeu à pergunta. Por que essa necessidade vale para certos filmes, somente. E como é - você pega o telefone e diz, ?Daniela, vamos fazer um filme??Daniela Thomas - É assim mesmo. Ele ligou e me disse que queria fazer um filme. Walter tinha idéias sobre uma família desprovida da figura paterna, uma figura em que a mãe cumpre as duas funções e é também o pai. Ela teria esses filhos, e um deles seguiria o sonho de milhões de brasileiros, que elegem o futebol como veículo para sair da exclusão social. Quando o Walter propôs a idéia fundadora, ela já veio com uma forma. Os irmãos precisavam se apoiar, a casa teria de funcionar como um centro de suporte para todos e a bola não poderia cair. Veio daí o título - em futebol, a linha de passe é a jogada em que os atletas dominam a bola entre si, sem perder o controle dela. Mas isso foi só o começo. Foi um filme que demorou muito para ser feito, na verdade, para ser escrito. Trabalhamos cinco anos no roteiro, George Moura e eu. Bráulio Mantovani (de Cidade de Deus) ajudou a redirecionar o projeto, quando entrou em crise (NR - Quando o co-roteirista de Central do Brasil, João Emanuel Carneiro, utilizou elementos do filme, como o motoboy com sensibilidade artística, para a novela que escreveu na Globo, Cobras e Lagartos).Outra pergunta que muita gente se faz é por que você, Walter, rico, bonito e bem-sucedido, um aristocrata, fez essa opção pela periferia e pelos excluídos, que está em praticamente todos os seus filmes?WS - Mas eu não sou um aristocrata. Aristocrata era o Luchino Visconti, que fez filmes como Rocco e Seus Irmãos, que foi uma referência importante para todos nós. Meu pai foi um homem bem-sucedido, mas foi o primeiro na família dele a ter um diploma. Minha mãe, descobri enquanto fazia o filme, foi secretária na Central do Brasil. Se um realizador fosse obrigado apenas a olhar para sua classe social, Visconti não teria feito Rocco nem A Terra Treme ou Obsessão. Pierre Verger também não teria abandonado uma vida confortável em Paris para fotografar na África ou na Bahia. Na classe social de onde eu venho, é fácil blindar um carro, colocar o vidro escuro e fingir que os problemas não existem. Só que eles existem e não tenho vontade de chamar o Bope para resolvê-los. Acho que a gente só se completa no outro (já disse), naquele que é diferente de você. Não é uma constatação romântica, e sim uma necessidade.Linha de Passe trata de um tema freqüente na filmografia de vocês - a falta do pai.WS - Já vem desde Terra Estrangeira, que também era marcado pela ausência do pai e, inclusive, o personagem derivava para Portugal, fazendo o caminho inverso do colonizador, indo em busca do pai que nos abandonou. Mas não quero psicanalisar. A ausência do pai é um dado estatístico brasileiro. Cerca de 20 ou 25 por cento das famílias possuem essa lacuna e, nelas, a mulher desempenha a função de mãe e pai, exatamente como faz a Cleuza (Sandra Corveloni) no filme. O roteiro, inclusive, perpetua essa tendência, porque o Dênis, um dos filhos (o motoboy), é pai de um menino que não o reconhece e até chora quando o vê. É um problema crônico que atravessa gerações e se constitui numa vertente importante para entender o País.É um filme que foi muito escrito e, ao mesmo tempo, tem uma pegada documentária muito forte.DT - Isso também fazia parte do conceito do filme. Walter queria que Linha de Passe tivesse um pé no documentário.WS - Num certo sentido, é o oposto de Central do Brasil. Central era um filme no qual a precisão era necessária. Em Linha de Passe, queria, e a Daniela foi muito solidária desde o roteiro, que São Paulo e a realidade da família, dos garotos, invadisse o longa. O roteiro já previa isso - uma porosidade que teria de ser invadida e preenchida durante a filmagem.Qual será a estratégia de lançamento do filme?WS - Desde o início pensamos em Linha de Passe como um filme pequeno, em que fosse possível arriscar. A boa reação e o prêmio em Cannes ampliam um pouco as possibilidades, mas o DNA do filme permanece o mesmo. Linha vai ser lançado com 50 cópias, o que pode ser considerado um lançamento médio. Os filmes que Daniela e eu co-dirigimos fizeram uma média de 100 mil espectadores. Imagino que o Linha possa ir um pouco além dos números de Terra Estrangeira, mas não devemos esperar muito mais.

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