Passado impede renovação da linguagem

Parece que ninguém sabe se libertar de gigantes como Miles Davis e Bill Evans

, O Estadao de S.Paulo

13 de setembro de 2009 | 00h00

É impressionante o peso do passado no jazz norte-americano atual. Parece que os músicos não conseguem desvencilhar-se de heróis tão gigantescos, como John Coltrane, Miles Davis, Bill Evans e Thelonious Monk. Mas eles desejam partir para novas aventuras? Ou querem apenas acomodar-se patinando em linguagens que eles instituíram décadas atrás, transformadas em receitinhas prontas cozidas nos laboratórios de Berklee para as jovens gerações?

Ora, se os músicos maduros não se reciclam, por que os que agora estão surgindo o fariam?

Três exemplos de música tão agradável quanto aquela poltrona velha em que a gente adora espichar-se, lendo jornal ou ouvindo música que não "machuque" nossos ouvidos. Não por acaso, todos assinados por notáveis músicos de jazz norte-americanos. Foram lançados nos últimos dois meses no mercado internacional. Não trazem nenhuma novidade. Apenas bem-feitos, competentes. É música de excepcional qualidade, mas não incomoda, não faz pensar. É possível fazer jazz papel de parede depois de incendiários como Miles Davis, Bill Evans, Ornette Coleman, Anthony Braxton, Cecil Taylor e Charlie Haden? Depois que deixou de ser música para dançar, desde os anos 1940, não há como voltar atrás. Os três lançamentos não desejam tatear o novo (como, aliás, 99% do jazz norte-americano). Confira a seguir.

Folk Art - Joe Lovano Us Five (Blue Note). Lovano, muito bom músico, cercou-se de coadjuvantes talentosos. Trouxe a contrabaixista Speranza Spalding, de 25 anos, que encantou as plateias brasileiras em recente turnê. Nove faixas previsíveis, já ouvidas milhares de vezes - só que com outros nomes.

Mostly Coltrane - Steve Kuhn (ECM). É, até a ECM dança quando grava músicos norte-americanos. Nem adianta puxá-los para o conhecido "ECM sound". Kuhn, de70 anos, tem larga experiência, assim como Lovano e a cozinha rítmica: David Finck no contrabaixo e Joey Baron na bateria. Quarteto de respeito, que faz submúsica ECM e subColtrane. Competente, arrumadíssimo. E desnecessário.

Music We Are - Jack DeJohnette (bateria), John Patitucci (baixo) e Danilo Perez (piano). CD Golden Beams. Feras de três gerações diferentes: DeJohnette, de 67 anos, é parceiro de Keith Jarrett há mais de 25 anos; Patitucci, 50, tocou com todo mundo, de Wayne Shorter a Bon Jovi e Wynton Marsalis; e o panamenho Danilo, 43, ganhou lugar ao sol vencendo um concurso Monk de piano. Pois estamos diante de um "latin Monk", com tinturas vanguardeiras ridículas, como em Earth Prayer. Superficial. Descartável.

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