Passado de glórias, futuro incerto

Entre otimismo e desconfiança, Niall Ferguson recupera história do dinheiro

Caio Blinder, O Estadao de S.Paulo

06 de dezembro de 2008 | 00h00

Com o desastre financeiro generalizado e a confiança na economia global em queda livre, parece fora de hora um livro com o título The Ascent of Money: A Financial History of the World (The Penguin Press, US$ 29.95, 442 páginas). Mas ele é apropriado quando o autor é o historicamente incorreto Niall Ferguson. O escocês de 44 anos é estrela ascendente no circuito acadêmico (professor de Harvard e Oxford) e, como em três livros anteriores, esta obra didática e fluente é feita sob medida para uma série de televisão, com um autor boa pinta como Ferguson.Mas, com tanta substância, não vamos valorizar demais as aparências. Ferguson cobre dos tabletes de barro da Mesopotâmia, que serviam de notas de crédito, e os" banchieri" da Renascença italiana aos dias de hoje de microfinanciamento na Bolívia e alucinantes instrumentos financeiros no centro da explosão da bolha. Mas a preciosidade do livro não está nas curiosidades históricas, apesar da utilidade para o público mais leigo. Como lembra a revista The Economist, Ferguson não tem como competir com a obra do historiador econômico Charles Kindleberger. O que realmente conta são os juízos de valor, as conexões entre o passado, presente e futuro e o timing do livro.Não existe um clima hospitaleiro nos dias de hoje para fazer tributo ao espírito engenhoso dos gênios financeiros. O próprio Ferguson reconhece que, se estivesse lidando com os últimos 16 meses, o nome do seu livro seria The Descent of Money, mas ele cobre quatro mil anos. Em termos qualitativos, Ferguson é fulminante. Escreve que o dinheiro está na "raiz de grande parte do progresso humano", na medida em que a "evolução de crédito e débito foi tão importante como qualquer inovação tecnológica para a ascensão da civilização". Nas palavras dele, existe, historicamente, uma "relação cristalizada entre credor e devedor", apesar da desvalorização corrente da confiança.Esta perspectiva histórica positiva contrasta com a visão sombria de Ferguson a curto prazo. Ao lado de economistas como Nouriel Roubini, ele foi um dos primeiros a advertir sobre a catástrofe de 2008. Aliás, a idéia do livro surgiu há dois anos, quando Ferguson participava de uma palestra de banqueiros nas Bahamas (onde mais?) e ficou impressionado com a exuberância irracional dos senhores e senhoras do Universo. Havia fé de que as inovações financeiras significavam o fim do risco. Na sua palestra, Ferguson fez advertências e foi rotulado de alarmista.Ele, de fato, soou o alarme graças à sua familiaridade com calamidades econômicas anteriores. Para Ferguson, "a complacência é o prelúdio de uma crise". No caso presente, a economia dos países mais maduros estava flutuando na bolha de preços de propriedades artificialmente inflados, o que levou a uma assombrosa alavancagem. No livro, Ferguson argumenta que uma das causas da crise está na ignorância da história financeira, que se estende dos banqueiros de investimentos de Wall Street aos mutuários da casa própria que entraram na festa do financiamento sem um tostão (ou tablete de barro) de entrada. É um caso de amnésia de risco.Ferguson diz que aprendeu três coisas essenciais ao pesquisar para o livro: a pobreza é causada pela ausência de bancos (não exploração); que o dinheiro amplia a tendência humana para exagerar e se iludir; e que poucas coisas são tão difíceis de prever como o momento e a magnitude de uma crise financeira. A história econômica, afinal, é uma montanha russa de altos e baixos, num processo de criação, destruição e inovação. Num cenário darwinista, existe uma seleção das espécies financeiras. Basta ver como implodiram em questão de meses torres icônicas de Wall Street. Das 100 maiores empresas mundiais em 1912, apenas 19 continuam no topo.Ferguson pode ser visto como um determinista econômico quando traça a história da humanidade. No seu fascinante relato de Waterloo, mais do que uma batalha entre exércitos, aconteceu uma "disputa entre sistemas financeiros rivais". De um lado, o francês baseado na conquista e pilhagem. Do outro, o britânico, enraizado na emissão de títulos. Venceu o Napoleão britânico. Não era o duque de Wellington, mas o banqueiro Nathan Rothschild. Natural esta "queda" de Ferguson pelos Rothschilds. Foi sua obra de 1998 sobre a lendária família que lhe deu fama e prestígio.Livros mais recentes cristalizaram a fama de Ferguson como provocador e pensador do contra. Para ele, a entrada da Grã-Bretanha na Primeira Guerra Mundial foi um erro, pois apenas prolongou a carnificina; o modelo imperial britânico com sua "benevolência" era ideal e os EUA deveriam ter assumido, para o bem da humanidade, seu status imperial com menos ambigüidade.Vamos esperar que este historiador do contra esteja certo no seu otimismo sobre as instituições financeiras ocidentais. Na verdade, há um tom um pouco rabugento à la Winston Churchill (quem mais?) e seu endosso da democracia como o pior dos sistemas políticos, com exceção de todos os demais. Ferguson conclui que, apesar das reversões, contrações e desastres, "economias que combinam inovações institucionais como bancos, mercados de títulos, bolsas de valores, seguros e propriedade privada, desempenham melhor a longo prazo porque a intermediação financeira geralmente permite uma alocação mais eficiente do que o feudalismo e o planejamento central".Na última página do livro, Ferguson conclui que a "trajetória da história financeira é inquestionavelmente para cima". Por via das dúvidas, ele não investe na bolsa de valores.

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